OPINIÃO

Na França, as mulheres são livres

06/09/2016 11:02 -03 | Atualizado 06/09/2016 11:02 -03
ASSOCIATED PRESS
French Prime Minister Manuel Valls speaks to media after a security meeting at the Elysee Palace, in Paris, Friday, July 15, 2016. Prime Minister Valls said the government is declaring three days of national mourning after the attack in Nice. Speaking after an emergency meeting, Valls said the national mourning would begin Saturday. (AP Photo/Thibault Camus)

Fiz questão de responder ao artigo "The way people look at us has changed': Muslim women on life in Europe", publicado entre as colunas do New York Times em 2 de setembro e que transmite uma imagem insuportável, por ser falsa, da França, país das Luzes e da liberdade.

Existe racismo na França, assim como em todos os países. E não ignoro a xenofobia, os atos antimuçulmanos que podem existir em meu país. A França não constitui exceção. Esses males, assim como o antissemitismo -e todo o mundo nos Estados Unidos conhece minha luta contra essa chaga--e os atos contra os cristãos, atingem tanto a Europa quanto a América. A França os combate incansavelmente.

 Por sua história, sua geografia, por sua imigração, a França mantém laços muito fortes com o islã.

O que contesto com veemência é que a jornalista dá a palavra a mulheres de religião muçulmana, alegando que suas vozes seriam sufocadas, e o faz para traçar um retrato de uma França que supostamente as oprime. E ela não explica quais são os princípios republicanos: liberdade, igualdade, fraternidade e laicidade à moda francesa.

Os depoimentos se sucedem, descrevendo uma França em que "uma lua amarela" costurada sobre as roupas dos muçulmanos seria a próxima etapa, como a estrela amarela foi usada para identificar os judeus durante a ocupação nazista. Uma França onde os muçulmanos seriam "menos bem vistos que os cães". Uma França com um regime de apartheid que forçaria os muçulmanos a abandonar seu país para estudar, encontrar um emprego ou seguir carreira.

Por sua história, por sua geografia, aberta à bacia mediterrânea e ao continente africano, por sua imigração, a França mantém laços muito fortes com o islã. Ela se orgulha de ter o islã como a segunda maior religião do país. Milhões de cidadãos de religião ou de cultura muçulmana vivem aqui, respeitando perfeitamente seus deveres e desfrutando plenamente de seus direitos.

burkini

As mulheres muçulmanas às quais esse artigo dá a palavra exprimem um ponto de vista. Elas são livres para fazê-lo. Mas a jornalista do New York Times deveria haver feito a pergunta à imensa maioria das mulheres muçulmanas que não se reconhecem em uma visão ultra-rigorosa do islã.

A realidade é que não se trata de uma pesquisa de campo, que permite iluminar os fatos sob óticas diferentes e comporta nuances na análise. Esses depoimentos foram obtidos em sua maioria depois de um evento escandaloso organizado na França: um "acampamento de férias descolonizador". Um acampamento no qual - e essa informação tem sua importância--, "pessoas de pele branca" foram proibidas de participar! O objetivo era reunir todos os partidários dos comunitarismos, todos os que se opõem à miscigenação ou inter-relação entre pessoas "brancas" e "não brancas", todos aqueles que - volto a citar - denunciam o "filossemitismo de Estado" do qual a França seria vítima.

Longe de ser um caso isolado, essa iniciativa revela claramente as contestações proselitistas em curso na França. Elas querem reverter dois princípios fundamentais que estão à base de nosso país.

O primeiro princípio é o da igualdade entre as mulheres e os homens. É preciso estar atento para a influência crescente do salafismo, que deixa entender que as mulheres são inferiores e impuras e que devem ser postas de escanteio. É essa a questão, nem um pouco anedótica, que estava ao cerne da discussão sobre o burkini, palavra que é uma contração de "biquíni" e "burca". Não se trata de uma roupa de banho sem maior importância. É uma provocação, é o islamismo radical que cresce e quer se impor no espaço público!

Como leitor assíduo da imprensa internacional, vi como uma parte dela se apressou a concluir que ocorreu estigmatização, que houve um atentado à liberdade religiosa dos muçulmanos. Mas é precisamente pela liberdade que lutamos.

 O corpo da mulher não é puro nem impuro. É o corpo da mulher. Ele não tem que ser oculto para proteger contra não sei qual tentação.

Lutamos pela liberdade das mulheres, que não devem viver sob o jugo de uma ordem machista. O corpo da mulher não é puro nem impuro. É o corpo da mulher. Ele não tem que ser oculto para proteger contra não sei qual tentação. Pois é essa a inversão inacreditável: nos depoimentos citados, o burkini é apresentado como instrumento de libertação da mulher! Uma leitora escreve:

"Quando surgiu o burkini, fiquei feliz por minha irmã, que estava de férias e finalmente pôde brincar na praia com seus filhos, em vez de ser obrigada a ficar na sombra". Para outra, usar o véu significa "a reapropriação do corpo e de [sua] feminilidade...".

É uma dominação masculina que está completamente integrada!

Na França, pelo contrário, consideramos que uma mulher que tem vontade de tomar banho [de mar ou piscina] não precisa ficar na sombra. Consideramos que as mulheres não podem ser objeto de dominação alguma. E, quando se considera que o corpo da mulher precisa ser tirado do espaço público, é porque há domínio masculino, sim.

Lutamos, também, pela liberdade da grande maioria dos muçulmanos, que não se reconhecem nessa minoria prosélita que instrumentaliza sua religião. É por isso que o Estado não deve ceder um centímetro sequer diante do islamismo radical.

 A laicidade não é a negação da religião.

O segundo princípio -que está ligado ao primeiro - é o da laicidade. Eu sei como essa singularidade francesa enfrenta dificuldades em ser compreendida no exterior. Por isso, quero reexplicar o que é.

A laicidade é a liberdade de cada um de acreditar ou não acreditar; a liberdade de praticar sua religião, sob a condição de não impor suas práticas ou crenças ao outro. A laicidade não é a negação da religião. Ela apenas traça uma separação muito nítida entre o que diz respeito ao temporal e ao espiritual. O que exatamente ela diz? Que o Estado e seus funcionários são estritamente neutros, que o Estado não reconhece, não financia e não privilegia nenhuma religião.

No decorrer de sua longa história a França conheceu o ódio religioso, ela foi dilacerada por guerras atrozes... A República e a laicidade puseram fim a séculos de conflito. A laicidade é esse equilíbrio estrito, composto de respeito mútuo. Um equilíbrio que é a garantia da coesão de nossa sociedade.

Os inimigos da laicidade tentam retratá-la como instrumento de discriminação e humilhação. Nada poderia ser mais falso. A proibição de exibir símbolos religiosos ostensivos nas escolas públicas se aplica tanto ao quipá quanto ao véu islâmico ou à cruz católica. As mulheres muçulmanas podem usar o véu em seu cotidiano. Mas quando são funcionárias, devem tirá-lo no exercício de sua missão.

A convicção sobre a qual a nação francesa se ergue é que, para haver cidadãos livres e iguais, a religião deve fazer parte da esfera privada. Diferentemente de outros países, a França não se enxerga como uma justaposição de comunidades, cada uma das quais seguiria sua trajetória autônoma. Em outras palavras: não concebemos a identidade como algo étnico. A identidade francesa é questão de adesão, de querer compartilhar um mesmo destino. É também por isso que o islamismo radical nos atacou, em Paris, em Nice ou em Saint-Etienne du Rouvray.

A França sempre defenderá a razão e a liberdade de consciência contra o dogma. Pois ela sabe que, sem isso, são o fundamentalismo e a intolerância que sairão vencedores. A França está decidida a fazer viver esse islã moderno, fiel à sua mensagem de abertura e de tolerância.

Protegemos nossos concidadãos muçulmanos contra aqueles que querem convertê-los em bodes expiatórios. Onde a extrema direita gostaria que os muçulmanos fossem cidadãos de zona dois, nós, pelo contrário, queremos demonstrar com toda clareza que o islã é plenamente compatível com a democracia, a laicidade, a igualdade entre homens e mulheres. Esse é o golpe mais doloroso que podemos desferir contra o islamismo radical, que só aspira a uma coisa: voltar todos uns contra os outros.

Este artigo foi originalmente publicado pelo HuffPost FR e traduzido do francês.

*Leia o texto da blogueira Gabriela Cavalheiro: "De burkini ou topless as mulheres não são livres".

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