OPINIÃO

A Guerra Santa da maternidade

18/03/2015 13:20 -03 | Atualizado 26/01/2017 22:19 -02
mechanical reptEYEle/Flickr
Thessaloniki @ 2010

Minha intenção era escrever sobre um post no facebook da Vera Magalhães, jornalista, mãe de dois meninos. Só que não tem como escrever sobre sem mutilar a ideia, então resolvi transcrever na íntegra:

"Gente, tenho lido vários posts aqui de mães que ou se orgulham ou se lamentam de ter abortado ou pausado as próprias vidas em função dos filhos. Eu, que tenho um de 14 e um de 6, quero dizer algumas coisas pra vcs:

1. Não esperem nenhum reconhecimento para esse gesto de desprendimento. Tipo: zero. Não vão dizer que são seres humanos melhores por isso, não vão agradecer, talvez reclamem do bullying.

2. Não esperem se sentir melhor. Vcs se sentirão piores. Menos vcs mesmas, menos independentes, menos indivíduos, menos felizes. E a culpa não será dos filhos, e sim de alguma estranha ideologia que vcs abraçaram moto próprio.

3. Não, seus maridos/companheiros/tarefeiros não a acharão mais legal/completa/mulher/sexy por deixarem de fazer depilação para se dedicar estoicamente aos filhos. Eles acharão mais chata/culpada/vulnerável/desinteressante.

4. Isso vai cobrar um preço em termos de auto-estima, prazer de viver e satisfação intelectual que vcs levarão anos pra recuperar, se recuperarem. Não achem que isso é supérfluo. Quando o marido e os filhos forem embora, e eles sempre podem ir, isso é o que terá sobrado de vc mesma. Não deixe que seja nada."

Eu não sou mãe profissional, sou mãe. Acredito que maternidade é um estado de espírito, um caminho sem volta de revolução na alma, mas não uma carreira, algo que siga esquemas e metodologias com possibilidade de avaliação de resultados. Principalmente, não acredito que seja uma missão destinada a qualquer tipo de reconhecimento.

Sou a mãe possível, aquela que um dia se orgulha de algo e outro dia tem uma culpa a consumir a cabeça, que acerta num lado, erra no outro e tenta corrigir. Mas, principalmente, não me acho mais nem menos mãe que ninguém. As mudanças que eu fiz, talvez fruto dessa coragem que a maternidade dá, foram todas para melhor. Cortei o que não interessava na minha vida pessoal, abracei o que era importante, estou mais feliz na minha carreira profissional do que era antes. E essa é a mãe que o meu filho tem.

Apesar de todas as metodologias da maternidade perfeita que proliferam pela internet, do faça assim ou assado, do eduque para isso ou para aquilo e da competição de altruísmo, não acredito que se desumanizar, se despersonalizar ou conscientemente entrar numa roda de sacrifícios em nome dos filhos dê a eles uma mãe melhor nem uma vida melhor.

Acho, e só acho, que é uma violência tentar empurrar goela abaixo dos filhos todo tipo de conceito e ideologia que a gente abrace, imaginando que realmente somos determinantes na qualidade de seres humanos que eles serão. Não somos. Insistir com uma ideia ou ideologia também não fará com que eles a sigam, eles farão o que acharem certo e merecem ser respeitados. Criamos seres humanos iguais a nós, com os mesmos direitos, inclusive à liberdade e opinião, que vão trilhar seus próprios caminhos. O mérito, no máximo, será o de dar oportunidades e não atrapalhar demais.

Pode não se encaixar na receita de melhor mãe do mundo dessa semana da internet, mas o ser humano entende mais o exemplo do que o discurso. É impossível participar da educação de um ser humano pleno abrindo mão da própria plenitude. A Guerra Santa do campeonato de desprendimento para ver quem é mais mãe não produz mães nem filhos melhores.