OPINIÃO

'La La Land - Cantando Estações' é uma ode à Hollywood do passado

09/01/2017 17:28 BRST | Atualizado 09/01/2017 17:28 BRST
Divulgação

Era uma vez, não faz muito tempo, faziam-se grandes filmes. Os protagonistas masculinos sabiam cantar, dançar e nos encantar com seu charme. As atrizes principais eram maravilhosas. Os cineastas emprestavam elementos das convenções testadas e comprovadas do teatro. Emoção sincera e comovente transparecia em cada cena esfuziante.

E hoje?

Hoje, os protagonistas masculinos sabem cantar, dançar e nos encantar com seu charme cafajeste. As atrizes principais são maravilhosas. Os cineastas emprestam elementos das convenções testadas e comprovadas do teatro. Emoção sincera e comovente transparece em cada cena esfuziante.

Então por que será que enxergamos filmes sobre a saudade dos tempos mais simples e melhores como estando entre os melhores e mais importantes do ano? Com certeza há histórias mais urgentes e poderosas sendo contadas, e esse deve ter sido o caso especialmente em 2016.

No entanto, La La Land - Cantando Estações - uma ode à Hollywood de tempos passados - recebeu nada menos que sete indicações ao Globo de Ouro: mais que qualquer outro filme, sendo que alguns outros filmes são mais merecedores desse reconhecimento, com base apenas em seu mérito cinematográfico e narrativo, o que dirá sua relevância.

"Jackie" é uma sátira pós-moderna de narrativas históricas, um retrato de uma mulher criado em patchwork, tão cerebral quanto é envolvente. "Moonlight: Sob a Luz do Luar" é um drama tranquilo que nunca descamba para o sentimentalismo, não obstante sua temática de partir o coração. A Chegada é uma muito necessária meditação sobre a empatia, um filme visualmente deslumbrante. La La Land é um filme sobre como eram ótimos os filmes no passado.

Os outros possíveis candidatos a Oscar desmentem a própria premissa de "La La Land". Mesmo assim, o filme é o mais cotado para melhor filme nos prêmios da Academia (os Oscar). Comentando suas perspectivas, o site Vulture escreveu: "Um candidato caloroso, abraçável [...] exatamente aquilo ao qual a Academia deve reagir bem neste momento."

De fato, o aspecto caloroso de La La Land é o ponto forte do filme, a razão de seu encanto. Os personagens principais, representados por Emma Stone e Ryan Gosling, inicialmente evitam envolver-se a fundo, mas acabam se unindo para passar um verão alegre, percorrendo bares e fazendo arte. Emma Stone é Mia, uma atriz aspirante, mas frequentemente rejeitada, que trabalha esporadicamente num café e não para de perder papéis em filmes, por pouco. Ryan Gosling é Sebastian, cuja paixão profunda pelo jazz de escola antiga atrapalha suas habilidades sociais. Eles incentivam um ao outro a seguir seus sonhos - a seguir os rastros de Charlie Parker e Ingrid Bergman, respectivamente.

Sim, é altamente estilizado; é exatamente essa a ideia. Uma cena no Griffith Observatory remete a fantasias em estilo "Cinderela em Paris", com vestidos esvoaçantes e o casal literalmente dançando entre as estrelas. Mesmo que você ache esse romantismo demasiado água com açúcar, seria difícil criticar as escolhas estéticas feitas em "La La Land", porque são tão intencionais e o filme tem tanta consciência do que está fazendo. (Por exemplo, Mia lamenta que um monólogo teatral que ela escreveu e protagoniza seja "saudosista demais".) O filme abraça seu gênero (musical, história de amor) e o subverte (há mais em jogo aqui que uma simples história de um rapaz que consegue a garota de seus sonhos). La La Land utiliza as ferramentas e os truques cinematográficos perfeitos para a história que quer relatar.

A pergunta, então, é a seguinte: por que ainda estamos contando esta história e enxergando-a como o auge do que o cinema pode fazer? O cinema, em especial, tem uma fixação com seu próprio passado, enxergando sua própria história através de uma lente rósea. Em 2011, um filme mudo ambientado em Hollywood recebeu o Oscar de melhor filme; no mesmo ano, "A Invenção de Hugo Cabret", sobre um tema nostálgico semelhante, levou quatro Oscar para casa.

Na literatura, as sátiras ou novas versões de histórias clássicas são tratadas como produto divertido para agradar aos fãs, e não como sinais de sucesso contemporâneo. Exemplo: histórias que embutem romances modernos no formato traçado por Jane Austen não são apresentadas como sendo pouco sérias, mas tampouco recebem indicações a importantes prêmios literários. Isso acontece porque os guardiões de outros gêneros artísticos parecem reconhecer a falácia da atração exercida pela tradição. Modos novos e ousados de contar histórias são vistos como válidos e importantes, e não como sendo inferiores, de alguma maneira, aos grandes nomes consagrados.

Mas no mundo de La La Land, a única coisa que é alvo de ironias é a novidade. Em seu esforço para virar atriz de sucesso, Mia faz testes para uma série de papéis, sem nunca conseguir nenhum. Mas Sebastian sugere e ela acredita que os papéis em questão não são dignos dela.

Falando de um papel para o qual vai fazer um teste, Mia comenta brincando: "É a história de Cachinhos Dourados contada do ponto de vista dos ursos". É uma brincadeira sobre o quê? O fato de que voltar a narrar histórias tradicionais, sempre populares, já virou uma forma desgastada de ganhar dinheiro? Seria uma crítica esdrúxula, considerando que o próprio La La Land transborda de pastiches. Com a ideia de que os filmes de hoje exageram no esforço para contar histórias sob a ótica dos menos privilegiados? Seria um argumento frio, mas talvez não deslocado.

No início do filme, Sebastian lamenta que o bar de jazz onde trabalhou foi convertido em bar de "samba-tapas", uma brincadeira que se repete ao longo do filme. Combinar o samba brasileiro com os "tapas" da culinária espanhola seria uma mistureba equivocada, um esforço para faturar em cima de vários tipos de diversidade ao mesmo tempo. Ou, então, seria fruto de simples ignorância.

Para Sebastian, isso é a prova de que os moradores de Los Angeles "adoram tudo e não valorizam nada", uma queixa que seria interessante se fosse apresentada um pouco antes de os personagens começarem a cantar.

Outras questões socioeconômicas são mencionadas e então passadas por cima. John Legend representa o líder de uma banda de jazz que inclui sons de sintetizador em sua base clássica e, graças a isso, bomba no YouTube e numa turnê. Ele é mostrado como tendo o oposto da visão nostálgica (e, francamente, privilegiada) de Sebastian.

Questões de classe social, raça e privilégio estão superficialmente presentes, mas em grande medida ausentes de um filme que trata de ideia do sonho americano. La La Land poderia ter sido convincente em 2006, mas em 2017 fica claro que esses fatores pesam sobre uma história que quer fazer de conta que eles não existem.

Em lugar de festejar a alegria de La La Land e da Hollywood clássica, este é um bom momento para reconhecer as outras coisas que o cinema faz bem e vem fazendo bem há décadas: encontrar esperança em meio à tragédia, triunfo discreto em meio à opressão e beleza em meio ao sentimento doloroso de perda.

Este artigo foi originalmente publicado pelo HuffPost US e traduzido do inglês.

LEIA MAIS:

- De Viola Davis a Ryan Grosling: Veja quem foram os ganhadores do Globo de Ouro 2017

- As letras misóginas deste artista deveriam incomodar todo mundo

Também no HuffPost Brasil:

11 filmes sobre jornalismo para você que adorou 'Spotlight'