OPINIÃO

Ter convencido o meu irmão de que eu estava possuída pelo demônio foi o melhor momento da minha vida

"Mas uns dois anos depois daquele dia, eu tinha 16 anos e o filme O Exorcista tinha acabado de estrear."

31/10/2017 19:35 -02 | Atualizado 31/10/2017 19:35 -02
HO Old / Reuters
"Estou com 58 anos hoje. Aquele foi o melhor momento da minha vida, até hoje."

Meu irmão Kent tem um ano e meio mais que eu. Temos o mesmo senso de humor, então demos muita risada juntos quando éramos pequenos, mas ele também gostava de me torturar! Ele se escondia de mim, depois reaparecia de repente e me pregava um susto enorme. Pelo que eu me lembro, ele aprontava comigo todos os dias, várias vezes por dia (provavelmente não era tanto assim na realidade), e a cada vez eu começava a chorar e saía correndo.

Naquele tempo as famílias tinham só uma televisão, e a gente ficava esperando a hora do nosso programa favorito toda semana. Eu já ficava esperando no sofá, porque "O Agente da U.N.C.L.E" ia começar e eu ia assistir. Meu irmão então entrava e trocava de canal, só porque ele podia.

Ele me dizia: "Ou eu te dou um soco ou você sai, mas de um jeito ou de outro você não vai ver seu programa".

Quando eu tinha 14 anos, estava lendo um gibi na cozinha quando meu irmão Kent e seu amigo Jimmy chegaram. Jimmy parou por um momento, ele e eu comentamos alguma coisa sobre o gibi e demos risada.

Quando eles estavam saindo da cozinha, Jimmy falou: "Sabe de uma coisa, Kent, sua irmã é bacana".

O meu irmão: "O quê???"

Jimmy: "Falando sério, ela é bacana". E aquela foi a última vez que meu irmão e eu brigamos. Até hoje, não brigamos mais.

A gente dá uma força um ao outro. Somos superamigos. Nossa relação é ótima.

Mas uns dois anos depois daquele dia, eu tinha 16 anos e o filme O Exorcista tinha acabado de estrear. Eu havia lido o livro um ano antes. Uma noite eu estava em casa, me preparando para ir para a cama. Eu tinha um pijaminha – não sei se alguém ainda usa isso hoje em dia. Era um shortinho com um baby-doll por cima. Meu irmão entrou no meu quarto.

Ele me disse: "Juro por Deus que se você contar para alguém o que eu vou dizer, eu te mato".

Fiquei esperando.

Ele falou: "Hoje fomos assistir a 'O Exorcista'. Estou morrendo de medo. Não vou dormir no meu quarto. Vou dormir na sua outra cama.'

Naquele momento eu percebi que o meu momento tinha chegado.

Bom, outra parte desta história é que eu tenho uma coisa chamada urticária dermográfica. Quer dizer que você tem muita histamina no seu corpo e pode escrever sobre o próprio corpo. Você pode, por exemplo, usar um palito de dente para fazer um desenho complexo sobre seu corpo, e três minutos mais tarde o desenho aparece em cima de sua pele como um vergão vermelho vivo, super definido.

Então eu falei: "Tudo bem, mas eu estou indo me deitar agora".

As duas camas no meu quarto eram perpendiculares uma à outra.

Desligamos a luz, e eu esperei alguns minutos. Eu tinha deixado um grampo ao lado da minha cama. Levantei meu baby-doll e escrevi em cima da minha barriga "SOCORRO, ME AJUDE!".

Esperei mais uns três ou quatro minutos no escuro. Comecei a ouvir a respiração do meu irmão se acalmar. Então comecei a fazer uns sons guturais, como se estivesse possuída por um espírito maligno.

Sabe o som que um besouro faz quando está se debatendo para sair do quarto e fica batendo contra a parede, a lâmpada e a tela da janela? Foi esse o som que meu irmão fez no escuro do meu quarto, tentando encontrar o botão para acender a luz. Ele bateu na minha mesa, bateu na parede e finalmente encontrou o botão da luz. "Que merda, não tem graça nenhuma!", ele falou.

Eu disse: "Não sei o que foi, Kent. Estou com uma sensação tão estranha. Não sei o que está acontecendo comigo!"

Kent estava olhando para mim. Levantei o baby-doll para lhe mostrar minha barriga. Ali estava escrito em um vergão formado por minha própria pele: "SOCORRO! ME AJUDE!"

Olhei para Kent. O rosto dele estava branco como papel.

Estou com 58 anos hoje. Aquele foi o melhor momento da minha vida, até hoje.

Finalmente falei para ele: "Nos últimos dois anos a gente tem se dado superbem. Mas agora estamos quites pelos 14 anos antes disso, tá bom?"

E ficamos quites. Para sempre.

Esta história foi tirada do The Moth para entrar em uma edição especial da série de blogs Life Less Ordinary, do HuffPost Reino Unido. Compre o livro aqui e ouça Lynn contar a história dela ao vivo, aqui.

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*Este texto foi originalmente publicado no HuffPost UK e traduzido do inglês.

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