OPINIÃO

As controvérsias de Omidyar

30/01/2014 16:04 -02 | Atualizado 26/01/2017 20:51 -02
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UNITED STATES - JUNE 13: Pierre Omidyar, founder and chairman of the board of eBay, speaks at the eBay Developer's Conference in Boston, Massachusetts, Wednesday, June 13, 2007. (Photo by Jb Reed/Bloomberg via Getty Images)

Em outubro de 2013, um anúncio deixou em polvorosa o meio jornalístico. Glenn Greenwald, jornalista responsável por divulgar os documentos vazados pelo ex-analista da CIA, Edward Snowden, recebeu um volumoso apoio para capitanear um novo empreendimento jornalístico. O aporte financeiro -- US$ 250 milhões -- veio do bilionário da tecnologia Pierre Omidyar, um dos fundadores do eBay. Além de Glenn, juntaram-se ao novo projeto jornalistas independentes de peso, como Laura Poitras e Jeremy Scahill. Para se ter ideia da magnitude do investimento, o ProPublica, um dos centros de jornalismo investigativos mais prestigiados dos EUA, gastou "apenas" US$ 43 milhões em cinco anos de atividade, em reportagens que já renderam dois prêmios Pulitzer e um Peabody ao centro.

Figura controversa, Pierre, cuja fortuna é estimada em US$ 8,5 bilhões, é conhecido por apoiar startups em todo o mundo através de sua fundação filantrópica, a Omidyar Network (ON). Como o próprio site da fundação diz, a proposta é "subsidiar iniciativas que não visem ao lucro e investir em organizações inovadoras, que promovam mudança social e econômica". A Omydiar foi apoiadora, por exemplo, da campanha de crowdfundingReportagem Pública, dobrando o valor arrecadado junto aos 808 doadores para complementar os fundos do projeto.

Porém, ao anunciar sua nova empreitada jornalística -- que será uma empresa, com fins lucrativos --, Pierre recebeu diversas críticas de ativistas da liberdade na rede. O motivo remonta a 2010, ano em que um bloqueio financeiro comprometeu 95% da receita do WikiLeaks. À frente da manobra estavam grandes instituições financeiras, como as prestadoras de cartão de crédito VISA e MasterCard, os bancos Western Union e Bank of America, além do PayPal, sistema de pagamentos online que pertence ao eBay, cujo presidente é Omidyar.

Em represália, hackers ligado ao grupo Anonymous atacaram o site do PayPal, no que ficou conhecido como "Operation Payback", ou Operação Retaliação, em inglês. Os 14 envolvidos foram processados e acusados pelos advogados do eBay de ter causado, com o ataque, danos de US$ 5,5 milhões (O valor foi depois contestado por diversas fontes, inclusive pelo porta-voz do próprio PayPal).

A sentença do caso PayPal14 foi anunciada no final de 2013; as penas individuais variam de um a três anos de liberdade vigiada, além do pagamento de US$ 5.600 ao PayPal - um total de quase US$ 80 mil.

O papel da empresa de Pierre Omidyar no bloqueio ao WikiLeaks tem sido um dos principais argumentos dos críticos à sua nova empreitada jornalística. Eles apontam uma contradição: ao mesmo tempo em que o empreendedor subsidia com US$ 250 milhões um novo veículo pautado pela independência, ele também prejudica de maneira perigosa o WikiLeaks ao manter, junto com outras instituições financeiras, o bloqueio que compromete grande parte do orçamento da organização. "Como vocês podem levar alguma coisa a sério quando a pessoa por trás dessa plataforma está diretamente envolvida no boicote contra o WikiLeaks?", perguntou, em entrevista à imprensa alemã, a jornalista do WikiLeaks Sarah Harrison -- a mesma que ajudou Edward Snowden a fugir para a Rússia e obter asilo temporário.

Em resposta às críticas, Pierre Omidyar publicou um editorial no Huffington Post declarando seu engajamento na defesa da liberdade de imprensa. "Quando eu soube da decisão do PayPal, eu imediatamente expressei minhas preocupações à gerência da empresa", escreveu ele. No mesmo editorial, ele critica a "natureza comercial" da internet, que "representa uma nova ameaça à liberdade de imprensa" pelo fato dessas empresas não terem como prioridade os direitos dos seus clientes. "Em contraste, nossa nova organização de mídia terá a Primeira Emenda no seu âmago, e tomará decisões muito diferentes quando sofrer pressão do governo para não publicar ou retaliações".

Ainda não há data prevista para o lançamento do site, que está sendo chamado de First Look Media. Mas, na última segunda, 27, um vídeo divulgado no Vimeo da First Look mostra a proposta geral do empreendimento, apresentada pelo próprio Omidyar. Segundo ele, a ideia é criar múltiplas publicações digitais, com diversas editorias e curadoria de conteúdos, em que cada revista vai ter sua própria linha editorial e será coordenada por um jornalista.

Além disso, o First Look tem a intenção de reunir um time multidisciplinar para "resgatar o que o jornalismo tem de melhor". Designers, produtores, fact checkers, editores e toda uma equipe formada para publicar boas histórias traduzidas em narrativas inovadoras que, segundo Omidyar, só serão possíveis porque além da redação, está em formação uma nova companhia tecnológica, que será dedicada a pensar em soluções inovadoras para colocar em prática tais narrativas.

Na teoria, tudo muito bem amarrado. Agora, é esperar para ver como vai funcionar na prática e como Pierre e os jornalistas Greenwald, Poitras e Scahill vão investir o aporte milionário no First Look Media.

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The extraordinary promise of the new Greenwald-Omidyar venture