OPINIÃO

Jucá é o sósia político de Sarney

02/07/2014 10:54 -03 | Atualizado 26/01/2017 21:52 -02
ANDRÉ DUSEK/ESTADAOCONTEUDO

O senador roraimense Romero Jucá (PMDB) é o herdeiro do estilo Sarney de fazer política. Sarney criou uma dinastia familiar que manteve o Maranhão sob seu controle décadas a fio, fazendo daquele estado o mais pobre da federação. Jucá segue o mesmo caminho em Roraima. O peemedebista elegeu sucessivas vezes sua ex-mulher Teresa Surita (PMDB) prefeita da capital Boa Vista, fez o filho Rodrigo Jucá (PMDB) deputado estadual, emplacou a enteada na superintendência regional do Sebrae, mantém sua outra filha no comando das empresas de mineração da família e, este ano, ainda emplacou Jucazinho, o deputado, como candidato a vice na chapa do governador Chico Rodrigues (PSB), que concorre à reeleição. Já faz algum tempo que o clã Jucá em Roraima e comparado ao clã Sarney no Maranhão. A sede de poder é a mesma. Mas Jucá não gosta da comparação. Ela não é eleitoralmente saudável.

Apesar de nunca esconder sua admiração pela sagacidade política de Sarney, Romero Jucá fica furioso quando alguém o compara com o seu equivalente maranhense. Mas as semelhanças não se restringem ao poderio e influência política. Jucá, assim como Sarney, é detentor de concessões de emissoras de rádio e televisão em Roraima. Tem palanque eletrônico assegurado para si e para seu grupo político todas as eleições. E usa esse palanque sem cerimônia sempre que lhe convém. No entanto e apesar das semelhanças, sempre que é comparado ao Sarney velho de guerra, Jucá esbraveja. Repudia. Não gosta. Parte para o ataque.

Pois bem. Na convenção do PT de Roraima, em que foi homologada a candidatura da senadora Ângela Portela ao Governo de Roraima, a adversária política de Jucá o comparou a Sarney. Disse que ele quer criar uma oligarquia à moda Sarney para subjugar o povo de Roraima durante décadas. [É, aqui em Roraima PT e PMDB são adversários de verdade, mais sinceros que suas representações do Rio e São Paulo, portanto].

Mas Ângela Portela não é a única a encontrar semelhanças entre os dois caciques políticos. Outros adversários de Jucá também o comparam a Sarney. "Jucá quer instalar em Roraima uma oligarquia, como a que Sarney mantém no Maranhão há décadas", disse um dia desses o deputado Soldado Sampaio (PC do B), na Assembleia Legislativa. O deputado Mecias de Jesus (PRB), ex-presidente do Poder Legislativo estadual, por anos combateu o clã Jucá. Este ano, enfraquecido politicamente e precisando de ajuda para se reeleger, Mecias se rendeu. Juntou-se a Jucá. Domingo passado o chamou de "meu senador". Coisas da política. Mas a ousadia de Ângela Portela em fazer tal comparação deixou o peemedebista soltando fumaça pelas ventas. Em protesto às declarações feitas pela candidata petista, Jucá fez circular uma nota de repúdio contra a comparação "infame".

Em sua nota de repúdio raivosa, Jucá diz que Ângela Portela quer criar animosidade ao comparar Roraima ao Maranhão e ele a Sarney. Furioso, Jucá chama a senadora de candidata "infeliz e despreparada". O peemedebista argumenta que em Roraima, como no Brasil, é comum membros de uma mesma família decidirem concorrer a cargos eletivos e ocuparem espaços no poder. Jucá cita várias famílias roraimenses que já tiveram mais de um dos seus membros ocupando cargos eletivos, como é o caso da própria Ângela Portela, cujo marido Flamarion Portela (PTC) já governou Roraima e deixou o cargo mediante cassação imposta pelo Supremo Tribunal Federal (STF) no ano de 2004. Hoje Flamarion ocupa o cargo de deputado estadual. Jucá diz que Ângela joga com meias verdades e a acusa de esconder o esposo para que ele não participasse da sua convenção, no sábado (28).

O fato é que, apesar de ter o modus operandi político semelhante ao de Sarney, o senador Romero Jucá repudia qualquer tentativa de comparação com o político maranhense, que teve de buscar asilo político no Amapá, devido a tamanha impopularidade que enfrentava em seu estado de origem. Sarney, como todos nós estamos assistindo, resolveu jogar a toalha e desistiu de disputar a reeleição. Pesquisas feitas no Amapá mostraram que ele enfrentaria dificuldades para ser reconduzido ao Senado, depois de mais de seis décadas à sombra do poder.

Jucá, por sua vez, foi governador biônico de Roraima nos anos 1980, por apenas um ano e meio, está em seu segundo mandato de senador, emplacou o filho como candidato a vice-governador na chapa de Chico Rodrigues, que tenta a reeleição, elegeu Teresa Surita quatro vezes prefeita de Boa Vista, prega o aniquilamento político dos adversários, mas não gosta da comparação que fazem dele com Sarney. Mas, querendo ou não, Jucá tem muito de Sarney. Aprendeu a ser governo sempre - foi líder dos presidentes FHC e de Lula no Senado -, aprendeu a ser rolo compressor parecendo ser parceiro. Entre seus pares, Jucá é chamado de "o senador mais importante do Brasil". Dos seus detratores e adversários, recebe a alcunha de "o dono de Roraima". Quer algo mais Sarney que isso?

Leia abaixo a íntegra da nota publica no Romero Jucá repudiando a comparação com José Sarney, feita pela senadora Ângela Portela:

"Venho lamentar e repudiar as colocações feitas pela candidata Ângela Portela durante a convenção do PT que homologou o seu nome para concorrer na próxima eleição.

Em determinado momento, a candidata se refere a mim e a meu filho, Rodrigo Jucá, candidato a vice-governador, como oligarquia que pretende manter o poder por tempo indefinido em Roraima, incitando animosidades e fazendo comparações entre Roraima e o estado do Maranhão de forma pejorativa, atingindo a todos os maranhenses.

Infeliz e despreparada a candidata Ângela. Primeiro, porque deveria saber que na democracia todos têm o direito de concorrer livremente. Depois, porque também deveria saber até por experiência própria que membros de uma mesma família têm o direito de se candidatar e disputar livremente o voto para qualquer cargo político.

No Brasil e aqui e Roraima esta é uma situação usual. Membros de várias famílias já disputaram mandatos. A família Campos; com Neudo, Sueli, Malu entre outros. A família Cruz; com Getúlio, Salomão e Homero. A família Mota; com Telmário, Suzete e Marcelo. E a própria família Portela, com Flamarion e Ângela. Considero legítimas e legais todas essas candidaturas.

A senadora Ângela deveria saber fazer contas, e verificar que seu marido Flamarion e ela estiveram juntos no Governo bem mais tempo que eu. Fui governador por um ano e cinco meses. Ele foi governador por três anos, e saiu do governo cassado.

Rodrigo Jucá é candidato a vice-governador, e teve seu nome colocado de forma transparente na convenção, presente no palanque junto comigo e Chico Rodrigues. Não escondemos nossas posições. A senadora Ângela deveria fazer o mesmo, e não esconder o marido Flamarion Portela, tentando enganar a população. Não vi Flamarion na foto da convenção.

E já que falamos em transparência, Ângela deveria ter dito também, durante a convenção, quem é seu suplente ao senado - que assumirá a vaga de senador de Roraima se ela for eleita: este suplente é o senhor Nagib Lima, responsável pela expulsão dos produtores da área demarcada de Raposa e Serra do Sol.

Por fim, lamento ainda a postura da candidata Ângela acerca da prefeita Teresa Surita. Ângela teve uma posição preconceituosa e machista, ao tratar a prefeita de Boa Vista, amplamente reconhecida por sua competência na administração pública, como ex-esposa ou ex-enteado; menosprezando seu valor, seu trabalho e o amor que a prefeita Teresa tem por Boa Vista e sua gente. Ninguém se elege por 4 vezes como prefeita de uma cidade se não tiver seu próprio valor. Teresa está recuperando Boa Vista de uma gestão anterior descuidada, que tinha o apoio da senadora Ângela e que pouco fez.

Entendo que a democracia é o respeito à posição de todos, e lamento que a candidata Ângela tenha começado a sua campanha desta forma tão errada."

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