OPINIÃO

Temer continua sendo o vice do PT

Ao anunciar uma proposta liberalizante, o presidente quase sempre recua após pressão de grupos interessados na continuidade da inchada máquina pública.

11/02/2017 19:42 BRST | Atualizado 12/02/2017 01:27 BRST
Paulo Whitaker / Reuters
Temer, o vice de Dilma, foi escolha do PT de Lula

Desde o recuo quanto ao fim do Ministério da Cultura até a tentativa de blindar Moreira Franco dando-lhe foro privilegiado ao inventar outra pasta ministerial, a gestão Michel Temer se apresenta como a versão mal lavada do sujo governo do Partido dos Trabalhadores.

A analogia é oportuna: o impeachment de Dilma Rousseff carregava uma expectativa maior do que a deposição de uma presidente criminosa por fraude fiscal.

Ele simbolizava a vontade, ainda vibrante, de diminuir o poder que o governo federal exercia sobre o povo. Foi esse imenso controle sobre a vida e o bolso dos brasileiros que permitiu tanto a corrupção quanto a crise econômica em escala histórica que vivenciamos, tudo sob os ditames do Planalto sob a estrela vermelha.

A queda do PT foi uma oportunidade inédita de limpar a sujeira, enxugar a imensa máquina federal e transferir o poder de decisão para o povo.

O anúncio do fim do Ministério da Cultura foi simbólico, refletindo esse desejo dos movimentos civis que foram às ruas. Seguiu-se uma reação das elites contra a medida, sendo organizada uma forte campanha midiática, liderada por alguns dos mais ricos e influentes artistas do País (muitos deles apoiadores da reeleição de Dilma), contra a abolição do controle federal sobre os rumos da cultura brasileira.

O Globo orgulhosamente compilou e divulgou como um número sem fim de membros da elite artística era contra o fim do MinC. A Folha fez artigo ridicularizando artistas a favor do fim do MinC, tratando a opinião destas pessoas para "minimizar" a medida. Como se fosse impensável acreditarem que o fim do MinC seria bom para o Brasil e tivessem que ter vergonha ao defender tão perverso ato...

As elites, seja na mídia ou no meio artístico, queriam manter sua forte influência na produção cultural da nação. O poder centralizado do MinC era útil para elas. Guerrearam por ele, e Temer se rendeu, mostrando sua falta de coragem para romper com a era petista.

Essa dança tornou-se rotina no governo: ao anunciar uma proposta liberalizante exigida pelos movimentos de rua, Temer quase sempre recua diante da pressão de grupos interessados na continuidade da inchada máquina pública, e dos privilégios decorrentes dela.

O aumento de salários no Judiciário, a desistência da flexibilização da jornada de trabalho, a fuga do plano de dar foco nas matérias mais vitais para o Ensino Médio, a recriação de diversos ministérios e a desistência de nomear Ives Gandra Filho para o STF são alguns eventos dignos de nota.

A PEC 55, felizmente, foi uma exceção ao padrão, tendo Temer aprovado na integra o compromisso do governo em conter os gastos nos próximos anos e dar algum alívio aos brasileiros no que diz respeito ao aumento de nossa já abusiva carga tributária.

Mas é óbvio que Temer preocupa-se mais em tentar agradar quem sempre irá rejeitá-lo (como intelectuais, sindicalistas e jornalistas alinhados ao PT) do que tomar as medidas necessárias para o bem do brasileiro comum -- o indivíduo que não tem dinheiro para encher a rua de militantes pagos ou fama para usar da mídia como fazem os defensores da farra fiscal e do poder estatal para continuarem a explorar o povo.

O presidente precisa aceitar sua impopularidade entre as fileiras petistas e fisiológicas. Fora dos movimentos de rua, poucos aplaudirão quando ele fizer a coisa certa.

Se Temer deseja marcar a História nacional no período em que ocupa o mais alto posto político do Brasil, ele precisará encontrar coragem para se manter firme diante das turbas enfurecidas. Ainda há tempo para sair, no imaginário popular, da chapa de Dilma.

*Este artigo é de autoria de colaboradores do HuffPost Brasil e não representa ideias ou opiniões do veículo. Mundialmente, o Huffington Post é um espaço que tem como objetivo ampliar vozes e garantir a pluralidade do debate sobre temas importantes para a agenda pública. Se você deseja fazer parte do nosso time de blogueiros, entre em contato por meio de editor@huffpostbrasil.com.

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