OPINIÃO

Real: Mais que um bom filme, um filme necessário

A intolerância a visões "de direita" precisa ser combatida ou corremos risco de ver as ideias de metade da população expurgadas do cinema brasileiro.

04/06/2017 23:11 -03 | Atualizado 04/06/2017 23:15 -03
Divulgação
O ator Emilio Orciollo Netto interpreta Gustavo Franco.

O filme Real - O Plano Por Trás da História começou bem: foi boicotado por cineastas em um festival de Pernambuco antes mesmo de sua primeira cena aparecer no telão. Sendo um drama que percorre a história da proposta econômica que resgatou o Brasil da hiperinflação, não era de se esperar inflamada reação, o que aumenta a curiosidade sobre os motivos por trás do incidente.

O manifesto divulgado pelos diretores à imprensa dá uma pista no trecho a seguir:

Constatamos que a escolha de alguns filmes para esta edição favorece um discurso partidário alinhado à direita conservadora e grupos que compactuaram e financiaram o golpe ao Estado democrático de direito ocorrido no Brasil em 2016. Para nós, isso deixa claro o posicionamento desta edição, ao o qual não queremos estar atrelados.

Ou seja, o boicote ao filme sobre uma medida que trouxe estabilidade monetária e segurança financeira ao povo brasileiro se dá pelo inconformismo dos cineastas com o impeachment de Dilma Rousseff - que se deu quase 20 depois dos fatos narrados na película.

Note-se que a obra não trata do processo constitucional, nem dos protestos populares que o antecederam, tampouco de Dilma e nem ao menos de um momento em que o PT esteve no comando do País. A ligação entre o Plano Real e o impeachment de 2016 é incrivelmente tênue... O patrulhamento ideológico e a mentalidade totalitária poderiam se expor de forma mais clara?

Hoje, o Real é um consenso político. Não há controvérsia sobre seu êxito como moeda nacional, nem discussão pública a respeito. O espaço para a polêmica basicamente não existe.

Mesmo assim, o grupo de cineastas sentiu-se tão ultrajado com a mera existência do filme (lembrando que eles sequer o viram) que preferiram sabotar um tradicional festival de cinema a ter o mínimo de tolerância com um trabalho que remete a divergências políticas da década de 90.

Este é um ambiente artístico plural ou um jogo de cartas marcadas, no qual não se admite o menor questionamento da ideologia promovida pela elite que domina o setor?

É preciso pouca imaginação para acreditar que um filme crítico aos governos petistas seria atacado com ainda maior ferocidade por tal elite artística.

Isso para não falar que o filme é (erroneamente) tratado como ''tucano''. Se o PSDB (que faz parte de uma esquerda moderada mais próxima do centro político que o PT) já é tachado de ''direita conservadora'' e bombardeado, o que espera a verdadeira direita, isto é, os liberais e conservadores, quando ela for apresentar seus pontos de vista?

Real é um bom filme. Assisti na estreia para prestigiá-lo, mas fui surpreendido pelo bom humor, diálogos bem elaborados, uma narrativa competente e, claro, a excelente atuação de Emilio Orciollo Netto como Gustavo Franco. O desafio de fazer uma hora e meia de cinema sobre um plano econômico entreter o público foi vencido de forma competente.

Mas o grande trunfo de Real é ser, ao mesmo tempo, uma produção de qualidade e uma luz na escuridão. Ele mostrou que filmes políticos que divergem da militância de esquerda podem e devem ser feitos. A intolerância no meio artístico a visões "de direita" precisa ser combatida, ou correremos o risco de ver as ideias e convicções de metade da população expurgadas do cinema brasileiro.

*Este artigo é de autoria de colaboradores ou articulistas do HuffPost Brasil e não representa ideias ou opiniões do veículo. Mundialmente, o HuffPost oferece espaço para vozes diversas da esfera pública, garantindo assim a pluralidade do debate na sociedade.

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