OPINIÃO

O PDSB não aprendeu nada nem esqueceu nada

2018 promete uma amarga surpresa aos tucanos. Enquanto fingem normalidade, o chão eleitoral se move sob seus pés.

05/12/2017 12:51 -02 | Atualizado 05/12/2017 13:10 -02
Paulo Whitaker / Reuters
Articulista lembra que o espírito social-democrata sempre dominou o PSDB, mesmo nas campanhas de Alckmin e Aécio em 2014, respectivamente a governador de São Paulo e a presidente do Brasil.

O eterno desembarque do governo Michel Temer ilustra a tragédia tucana: um misto de ignorância e cinismo que resulta numa paralisia diante do clamor por renovação. Infelizmente, é um problema que acompanha o partido desde suas origens.

A Nova República, seja por lembrar dos militares ou se decepcionar com Collor, criou um cenário onde as forças de esquerda dominaram o debate público.

O resultado foi uma polarização política pobre entre a esquerda radical, liderada pelo Partido dos Trabalhadores, e a centro-esquerda, liderada pelo Partido da Social Democracia Brasileira.

A visão ideológica de ambos é similar, mais variando em intensidade que em princípios.

Diante da dicotomia, liberais e conservadores se aliaram pragmaticamente aos tucanos, tanto nos quadros técnicos quanto no eleitorado. Na ausência de quem representasse suas ideias, optaram pela menos pior entre as alas da esquerda.

Esta característica ''esquerda light'' do PSDB pode ser vista mesmo nos dias de hoje. No programa partidário ''Gente em primeiro lugar'', um guia de 27 páginas para 2018, a palavra liberal aparece só uma vez, neste contexto:

Melhor distribuição de renda, inclusão social, serviços públicos de qualidade, oportunidades de emprego, valorização da cidadania são demandas justas da nossa sociedade democrática e liberal contemporânea.

A ligação com o liberalismo econômico, portanto, é nenhuma.

O caso não é anomalia, mas regra: o grupo tucano nunca foi liberal, só aceitou que alguns apoiadores deste pensamento participassem de seus quadros.

Diz o economista Gustavo Franco, hoje filiado ao Novo, em sua carta de despedida ao PSDB:

Quando o PSDB se constituiu, o Muro ainda existia em Berlim e as ideias pró-mercado não tinham outra alternativa razoável no sistema partidário que pudesse acomodá-las. Mas, dentro do PSDB, ficavam submetidas a toda sorte de disfarces e condicionantes, embora mais retóricos do que práticos. [...] As hesitações em abraçar a novidade sempre foram incômodas. A diversidade de visões sobre a economia sempre existiu dentro do PSDB, mas com os ditos "liberais" em franca minoria.

Gustavo disserta sobre este incômodo também em entrevista à Folha:

Folha: O sr. escreveu uma carta a para explicar a desfiliação, mas é impossível não perguntar: por que deixou o PSDB?

Gustavo Franco: As razões estavam todas ali, bem explicadas. No detalhe, há uma questão antiga de como o partido de denominação social-democrata se torna mais contemporâneo.

Folha: que seria isso?

Franco: Mais em sintonia com os temas de uma economia de mercado que o Brasil precisa se tornar. O PSDB sempre praticou isso quando foi governo federal, embora tivesse um certo incômodo com essa prática e um discurso um tanto ambíguo. É uma questão antiga. Ficou mais desconfortável depois da Presidência do Fernando Henrique, quando sucessores dele no partido, os candidatos [José] Serra [senador], Geraldo [Alckmin, governador de SP] e mesmo o Aécio não tinham a mesma capacidade que Fernando Henrique de, vamos dizer, ter uma prática diferente da herança social-democrática da geração 1988, que marcava muito a origem do PSDB. Isso criava desconforto para mim e muitos outros economistas do partido, mas era muito mais teórico do que real, sobretudo se o partido está fora do governo.

É visível que a coligação civil que sustentava o PSDB não era alinhada ao pensamento dele.

Este frágil arranjo foi rompido no presente ciclo: o movimento pró-impeachment, o nascimento do Novo e a ascensão popular de Jair Bolsonaro mostram que uma grande demografia nunca aderiu à social-democracia tucana e não quer mais compactuar com ela.

João Doria prometia uma repaginação, o surgimento de candidaturas atrativas aos grupos liberais e conservadores, distanciando-se do esquerdismo do tucanato. Porém, a chegada de Geraldo Alckmin à presidência do partido e sua quase certa corrida presidencial mostram que o PSDB quer mais inflar o ego de seus dirigentes que reconquistar antigos apoiadores.

O divórcio com Temer seria uma caricatura tucana não fosse a realidade: é loucura acreditar que o eleitor brasileiro esquecerá o apoio do PSDB aos bandidos do atual governo só por causa de uma saída em câmera lenta. Para não falar da blindagem à corrupção de Aécio Neves e o silêncio com o golpe interno sofrido por Tasso Jereissati, a última esperança de autocrítica no curto prazo.

É uma postura descolada da alta rejeição popular ao partido. E a resposta é um agonizante, surdo, mais do mesmo.

A indefinição só trouxe mais baixas às fileiras tucanas. A economista Elena Landau, há 25 anos no PSDB, comentou após se desfiliar sobre o citado programa para 2018:

Quando cheguei na frase 'nem estado mínimo, nem máximo, estado musculoso', quase parei ali. Não é possível um documento dessa responsabilidade como uma frase dessa. Não acreditei. É cheio de platitudes, um discurso velho. Como pode um partido cuja marca é a qualidade dos seus quadros técnicos e economistas apresentar um trabalho tão fraco como esse?

Enquanto isso, Alckmin faz reuniões com a facção ''Esquerda Para Valer'' do PSDB e rotula o liberalismo de ''incivilizado''. Falta oxigenação ao topo da hierarquia partidária, e o resultado é a tese delirante que a mensagem social-democrata tornou o PSDB a força que é hoje, não a necessidade de se votar em um contraponto viável ao petismo.

2018 promete uma amarga surpresa aos tucanos. Enquanto fingem normalidade, o chão eleitoral se move sob seus pés. Assim como Gustavo e Elena abandonaram a sigla, o brasileiro anti-PT também pode. Nem todos se demoram para desembarcar de um caso perdido.

Votação denúncia Temer