OPINIÃO

O Brasil reage: A cultura política nos últimos 50 anos

06/11/2015 19:33 -02 | Atualizado 27/01/2017 00:31 -02
EVARISTO SA via Getty Images
Protesters hold inflatable dolls depicting former Brazilian President Luiz Inacio Lula da Silva during a demonstration supporting President Dilma Rousseff's impeachment in front of Congress in Brasília, on October 21, 2015. The parliamentary opposition delivers today to the president of the Brazilian Chamber of Deputies Eduardo Cunha a new request for impeachment drafted by lawyers Helio Bicudo and Miguel Reale Jr. AFP PHOTO/EVARISTO SA (Photo credit should read EVARISTO SA/AFP/Getty Images)

O Brasil mudou. E ele mudou pois mais brasileiros começaram a participar ativamente dos rumos do País. Poucos notaram na época que a apertada reeleição de Dilma Rousseff significava mais que uma vitória petista ou um aumento de popularidade da oposição tucana.

As eleições do ano passado indicavam a consolidação de forças políticas que desafiam o consenso social-democrata surgido no início da Nova República.

Para entendermos nossa situação atual, é necessário compreender como chegamos aqui. O primeiro fato a se constatar é que as ideias vigentes não foram cultivadas hoje, mas ontem.

Nossas elites políticas, econômicas e midiáticas não são os jovens que hoje estão nas ruas, mas os que foram jovens e formaram sua visão de mundo na época do regime militar.

Anos de Chumbo

"Não podemos tampar todos os buraquinhos e fazer pressão, porque senão ela estoura."

(General Golbery do Couto e Silva)

Os militares, como é sabido, chegaram ao poder em 1964 com um objetivo em mente: negar a possibilidade da esquerda revolucionária conquistar o poder, como já havia acontecido em Cuba e inúmeras nações do Pós-Guerra.

Enquanto o anti-comunismo era visível, sobretudo nos altos escalões do Exército, não eram as ideias liberais ou conservadoras que guiavam os quartéis.

Os militares eram simpáticos ao positivismo, ao racionalismo e a ciência, ordem e progresso.

O governo militar se firmou como tecnocrático, interessado na proteção e promoção do desenvolvimento nacional por meio de especialistas apolíticos chefiando áreas-chave.

O zelo pela tradição ou apreço pelas liberdades individuais passou longe.

Um indicativo disso é a adesão do Alto Comando ao que o general Golbery do Couto e Silva chamava de "Teoria da Panela de Pressão": enquanto os militares combateriam as guerrilhas de esquerda, estavam dispostos a tolerar aqueles que desistissem das armas e defendessem suas ideias de forma pacífica e civil.

A panela seria a repressão à violência armada, e a válvula de escape seria a possibilidade de se tornar um formador de opinião, um intelectual defensor da ideologia.

O cenário estava criado para que as ideias do italiano marxista Antonio Gramsci florescessem na esquerda brasileira.

Gramsci não buscava uma revolução armada, mas a implementação do ideário marxista por meio de um projeto de hegemonia cultural, com a ''cultura burguesa'' (baseada sobretudo na filosofia judaico-cristã e os sistemas político-econômicos surgidos dela) sendo substituída pela ideologia revolucionária, de forma que a agenda do partido se confundisse com os valores da sociedade.

Em um tempo em que os esquerdistas tornavam-se acadêmicos, jornalistas e artistas, nada soava mais atraente do que buscar mudar a cultura, conquistando assim a simpatia das massas.

A partir de 1985 surgem os primeiros frutos: não apenas os militares tecnocratas abandonam o poder, como a esquerda se coloca como alternativa política ao modelo verde-oliva, abrindo caminho para a criação da Constituição Federal de 1988, de claro viés social-democrata.

A Estratégia das Tesouras

Recolhendo a herança democrática do liberalismo, não partilhamos com os liberais conservadores a crença cega no automatismo das forças de mercado. Nem pretendemos, como eles, tolher a ação reguladora do Estado onde ela for necessária para estimular a produção e contribuir para o bem-estar, e desde que a ação estatal seja controlada pela sociedade e não guiada pelo interesse corporativo da burocracia ou pela vocação cartorial de grupos privados.

(Programa político do PSDB, 1988)

Com influência na imprensa, nas universidades e no meio artístico, e tendo como aliados tanto o sindicalismo como diversos movimentos sociais, a esquerda podia agora ambicionar o comando do Brasil.

Com a hegemonia se consolidando, o debate político no Brasil passou a ser cada vez menos sobre diferentes vertentes ideológicas, e mais sobre questões de gestão, como o combate à corrupção.

Foi sob este contexto que Fernando Collor, o ''caçador de marajás'', fora eleito. Seus brados por moralidade agradavam à população, ao passo que sua falta de ardor progressista desagradava aos meios de esquerda.

A força da máquina cultural construída pela esquerda fez-se sentir logo que Collor foi acusado de envolvimento no esquema de corrupção de seu tesoureiro de campanha, Paulo César Farias, que desviara cerca de US$1 bilhão dos cofres públicos.

Sob forte pressão da classe jornalística, artística e dos movimentos sociais, os resultados vieram a galope: em sete meses, o processo de impeachment e a renúncia presidencial se sucederam.

O breve governo de Itamar Franco abre espaço para a chegada do Partido da Social Democracia Brasileira (PSDB) chegar ao poder.

Tendo papel importante na implementação do Plano Real e no combate à inflação (gestão, sempre a gestão), o intelectual de esquerda Fernando Henrique Cardoso torna-se o candidato favorito para as eleições de 1994 e assume o Planalto.

Colocando-se como uma ''terceira via'' entre capitalismo e socialismo, o projeto tucano busca modernizar a economia nacional realizando algumas privatizações e políticas de responsabilidade fiscal, ao mesmo tempo em que cria agências reguladoras e expande o escopo de atuação do Estado em concordância ao projeto estabelecido na CF/88.

Vale frisar que já nessa época iniciava-se o financiamento estatal a organizações como o MST, bem como se criavam esboços legislativos do que viria a se consolidar como o Estatuto do Desarmamento.

No que constituía a oposição a este modelo de centro-esquerda? No Partido dos Trabalhadores (PT) e seus aliados ainda mais radicais.

Da mesma maneira, os tucanos foram os principais opositores do projeto petista que se iniciou em 2003.

A disputa entre centro-esquerda e esquerda nos últimos 20 anos é o que caracteriza o chamado consenso social-democrata, com as duas plataformas políticas pouco diferindo entre si.

Um assume o papel de radical e o outro de moderado, limitando-se à acusação mútua de corrupção.

Como uma tesoura, vão cortando e formando o Brasil como desejam, criando a ilusão de que seus ideários são as únicas alternativas políticas possíveis.

Entretanto, a esquerda brasileira não contava com o surgimento e rápida expansão da internet e das redes sociais iniciada no início deste século.

O caráter descentralizado e ágil desses meios de comunicação permitiu a penetração de autores, visões políticas e ideologias pouco comentadas pelos formadores de opinião nacionais.

Sobretudo pois, como já vimos, seu projeto cultural não tinha a menor pretensão de dividir espaço com a divergência, só com semelhantes disfarçados de opositores.

Enquanto a formação dessa genuína oposição já podia ser observada durante as manifestações de junho de 2013, não foi até a imposição de mais uma vitória da ala radical dos social-democratas que este grupo de brasileiros resolveu bater de frente com o mainstream cultural e político.

Liberdade ainda que tardia

"Eu não quero viver em outro país, eu quero viver em outro Brasil!"

(dep. estadual Marcel van Hattem, jovem liberal-conservador eleito em 2014)

Enquanto os liberais e conservadores se encontravam há anos em grupos de estudos informais Brasil afora, as eleições de 2014 trouxeram a esperança de ver o País voltar um pouco aos eixos corretos, com a possível saída do PT do Palácio do Planalto.

A despeito do forte engajamento desses grupos com as campanhas eleitorais, defendendo um projeto tucano no qual nem sequer acreditavam, o PSDB se mostrou novamente incapaz de enfrentar o PT na disputa política e contraiu nova derrota, a quarta consecutiva em 12 anos.

Esta fora a gota d'água. Após as eleições, os liberais e conservadores, que antes só ocupavam pequenas salas universitárias e espaços virtuais, começaram a se articular pela construção de movimentos civis.

Entre as inúmeras frentes criadas, o Movimento Brasil Livre ganha destaque, sendo um grupo compromissado com a liberdade de imprensa, a redução da máquina estatal e, no curto prazo, com o ativismo em prol do impeachment de Dilma Rousseff.

Este e outros grupos, vale lembrar, comunicaram-se tão bem com a população que fizeram as maiores manifestações de rua da história do Brasil.

Junto a isso veio uma onda de interesse pelo pensamento liberal e conservador Brasil afora, com inúmeras editoras investindo pesado na produção de lançamentos originais e traduções para o português de inúmeras obras com uma visão inédita até então por aqui.

Theodore Dalrymple, Roger Scruton, Thomas Sowell e inúmeros outros estrangeiros tiveram obras sendo publicadas pela primeira vez.

Somados a eles vieram ótimas publicações brasileiras de autores como Bruno Garschagen, Flávio Morgenstern, Paulo Kramer, Leandro Narloch, Paulo Rabello de Castro e José Guilherme Merquior.

Mas o que advoga cada um destes grupos?

Os liberais brasileiros dão ênfase aos direitos individuais, tendo influência significativa do Instituto Mises Brasil, sendo simpáticos à Escola Austríaca de economia, desconhecida no meio acadêmico brasileiro.

A valorização da autonomia da sociedade para se organizar da forma espontânea, desconfiando da burocracia estatal que centraliza poder sob pretexto de resolver demandas sociais, faz que os liberais defendam pautas como redução de impostos, privatizações, liberalização da economia, homeschooling e armamento civil, buscando dar ao cidadão o cenário mais favorável para ele ganhar seu sustento e dar sua contribuição para a sociedade.

Fréderic Bastiat, Ludwig von Mises e Friedrich Hayek estão entre alguns dos pensadores liberais mais influentes na atualidade.

Os conservadores brasileiros dão ênfase à defesa da cultura herdada, isto é, na preservação de instituições e valores construídos e amadurecidos com o passar das gerações, acumulando a sabedoria humana com o passar do tempo.

Os conservadores reconhecem a sociedade como imperfeita, mas rejeitam a tese de que mudanças revolucionárias são desejáveis.

A imposição de ideologias abstratas, dizem eles, causam profundos traumas ao tecido social. Por isso, devem-se realizar as reformas que forem prudentes, não jogar fora o que nossos ancestrais nos deixaram.

A defesa de costumes e religiões arraigadas à população, assim como a defesa de organizações sociais e familiares tradicionais, estão profundamente relacionadas ao sentimento conservador. Edmund Burke, Eric Voegelin e Russell Kirk são algumas referências importantes para esse grupo.

Enquanto a fundamentação filosófica desses dois grupos é distinta, vemos hoje no Brasil uma grande cooperação entre ambos, tanto nas citadas manifestações de rua quanto em um forte intercâmbio intelectual recíproco.

Isso ocorre pois liberais e conservadores possuem uma pauta em comum: o combate ao Leviatã, ao Estado grande que busca submeter toda a sociedade aos ditames dos planejadores centrais, isto é, os políticos e burocratas que comandam a máquina pública.

Enquanto esse superpoder estatal é essencial para a agenda revolucionária da esquerda, que busca impor seu ideário sobre o modo de agir e pensar da sociedade, ela vai contra o foco liberal-conservador na pessoa humana, no respeito ao livre-arbítrio individual para se estabelecerem as relações sociais.

Essa é a tensão que hoje existe no Brasil: de um lado, os defensores do modelo de Estado grande, do governo dotado de grande autoridade para a solução dos problemas nacionais. Do outro, os defensores da emancipação do cidadão, com menos poder governamental e mais confiança no trabalho do brasileiro como a saída mais sensata para nos tornarmos um País dotado de liberdade, prosperidade e segurança para todos.

Por muito tempo, o primeiro discurso foi hegemônico, e o segundo reduzido ao ostracismo.

Hoje, começamos a observar a construção de uma genuína polarização entre visões de mundo, com duas alternativas claras para decidirmos qual Brasil queremos ser.

A política, em grande parte, é fruto do que foi estabelecido pela cultura.

A disputa de ideias que observamos agora definirá quais serão nossos representantes eleitos amanhã.

Caberá aos brasileiros conhecerem e desenvolverem as alternativas existentes, escolhendo qual sentido que desejam dar para suas vidas.

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