OPINIÃO

O 'anti-petismo' chegou até as urnas

04/10/2016 18:24 BRT | Atualizado 04/10/2016 18:24 BRT
Brazil Photo Press/CON via Getty Images
SAO PAULO, BRAZIL - OBTOBER 02: The mayoral candidate of the Brazilian Social Democracy Party (PSDB), Joao Doria celebrates the victory in the first round of elections in the State Directory party at Indianapolis Avenue on October 02, 2016 in Sao Paulo, Brazil. 100% of the cleared polls, Doria obtained 53.29% of votes. (Photo by Levi Bianco/Brazil Photo Press/LatinContent/Getty Images)

As eleições municipais de 2016 continuam a mudança política observada no decorrer do processo do impeachment: a queda do petismo e a ascensão de alternativas liberais para o Brasil.

A disputa mais emblemática neste 02 de Outubro foi a da Prefeitura de São Paulo, onde o candidato tucano João Dória conseguiu o feito histórico de se eleger em 1º turno.

O resultado é inédito de outras maneiras: Doria possui um perfil mais liberal que a velha guarda social-democrata do PSDB, tendo enfrentado oposição dentro do próprio partido pelo seu perfil e suas propostas.

Falando abertamente em privatizações e liberalização econômica, o empresário enterrou o mito de que tais ideias não são politicamente viáveis ao vencer em 56 das 58 zonas eleitorais, incluindo toda a periferia paulistana.

Doria contou com o apoio do Movimento Brasil Livre, que também emplacou um de seus ícones na Câmara dos Vereadores. Liberal, negro, de origem humilde e homossexual, Fernando Holiday tornou-se vereador com 48 mil votos em uma das mais austeras campanhas políticas do país.

É um atestado da força dos movimentos liberais na internet, onde é possível que campanhas alcancem um público crescente a custos mais baixos do que a divulgação tradicional na televisão e nos jornais.

Também é notável a vitória de Nelson Marchezan Júnior (PSDB) sobre Raul Pont (PT) e Luciana Genro (PSOL) para a Prefeitura de Porto Alegre, tendo ultrapassado ambos os candidatos da extrema-esquerda para chegar ao 2º turno contra Sebastião Melo (PMDB).

Marchezan, também apoiado pelo MBL, tem como bandeiras a redução da máquina pública, a desburocratização do município e a facilitação do empreendedorismo. Como deputado federal, protagonizou episódios se opondo aos super-salários do Judiciário, denunciando o corporativismo dos sindicatos e exigindo o fechamento da Justiça do Trabalho.

Tanto ele quanto Doria refletem uma oposição ao petismo de viés mais liberal: há uma ênfase em diminuir o poder político e aumentar a autonomia da sociedade civil.

Holiday é apenas um dentre vários exemplos pelo país de candidatos liberais a vereador que tiveram sucesso em seus municípios. O Partido NOVO, sem coligação e em sua primeira disputa, conseguiu eleger representantes em quatro capitais.

Enquanto isso, o Partido dos Trabalhadores vivencia uma derrocada sem precedentes em suas fileiras.

O Partido encolheu quase dois terços em relação à 2012, passando de 630 para 256 prefeituras sob seu comando.

O PC do B, sua principal linha auxiliar, conquistou meras 80 prefeituras. O PSOL, tido como seu herdeiro político, conquistou apenas duas.

Fica nítido que os brasileiros não compraram a narrativa do ''golpe'', rejeitando os candidatos de extrema-esquerda que alegam que Dilma em nada errou ao praticar seus crimes fiscais.

A reação petista ao fracasso eleitoral do Partido e seus aliados mostra que a autocrítica continua ausente: velhas acusações contra o ''golpe'', a mídia, a classe média e as elites se seguiram.

Os números podem mostrar que o povo rejeitou seu projeto de poder até mesmo em redutos tradicionais da legenda, como São Bernado do Campo, mas a alta cúpula petista parece determinada a seguir uma tese que o povo simplesmente não compra.

Existe uma perspectiva sólida de vermos mais uma derrocada desta extrema-esquerda em 2018, com ela encolhendo no âmbito parlamentar e dos governos estaduais. Com perdas tão pesadas em âmbito municipal, um retorno ao Planalto também se torna mais difícil. A insistência no discurso radical apenas agrava tal cenário.

As forças do impeachment foram as grandes vitoriosas de 2016. Com PMDB e PSDB crescendo, os conservadores mostrando peso eleitoral e os liberais chegando na política e promovendo uma guinada ideológica para seu campo, o Brasil continua a se afastar da Venezuela de Maduro e se aproximar da Argentina de Macri. A dúvida que fica no ar é se o petismo abandonará o desejo reacionário de voltar aos tempos de sua hegemonia ou continuará a caminhar para a autodestruição.

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