OPINIÃO

Iowa: conservadores vencem o populismo de Trump

03/02/2016 12:11 -02 | Atualizado 27/01/2017 00:31 -02

2016-02-02-1454432860-3032270-TedRally.jpg

A emoção da corrida presidencial americana começa antes das campanhas: nas primárias estaduais, eleições internas no Partido Republicano e no Partido Democrata decidem quem terá a nomeação para representar sua legenda na disputa pela Casa Branca.

Na noite de segunda-feira (1), no estado de Iowa, os republicanos tiveram sua primeira surpresa: a vitória do conservador Ted Cruz com 28% dos votos, com o bilionário Donald Trump em segundo com 24% e o também conservador Marco Rubio colado nele com 23%.

O desfechou desafiou as estimativas. A respeitada Des Moines Register entregou sua última pesquisa eleitoral dias antes da ida às urnas. Nela, Trump liderava com 28%, seguido de Cruz com 23% e de Rubio com 15%.

A previsão era vista com indignação pelos conservadores americanos, com inúmeros formadores de opinião se manifestando vocalmente contra o líder nas pesquisas.

O motivo? Trump não é um deles.

Conservar o quê?

2016-02-02-1454444247-6917334-Independence2.jpg

O conservadorismo busca preservar os costumes e tradições da sociedade, por acreditar que elas carregam a sabedoria de gerações, sendo sensato protege-las das paixões, teorias e ideologias do momento.

Em sua versão americana, o conservadorismo valoriza a existência de um governo limitado, a liberdade econômica, a liberdade religiosa e o direito de possuir armas de fogo.

É uma mentalidade emancipadora que diz: sou dono do meu destino e desconfio de quem busca tomar isso de mim ao me prometer facilidades.

Esta cultura de autonomia e auto-disciplina moral está presente nos EUA desde sua época como colônia britânica. De fato, a arbitrariedade tributária da Coroa teve importância na revolta que eclodiu na Independência. Foi uma reação contra uma força que ameaçava o estilo de vida americano. No taxation without representation.

Estes princípios foram a base da ascensão econômica americana observada no século XIX e também fundamentais para sustentar sua máquina militar no século XX. São compreendidos pela população toda, desde empreendedores prósperos até caipiras nas áreas rurais do Texas.

We the People vs Make America Great Again

2016-02-02-1454439162-6929557-Trump.png

Pode parecer que não, mas a descrição acima indica porque existe um conflito entre Trump e os conservadores.

Os conservadores acreditam que são as pessoas que fazem a América admirável, sendo que hoje o país está numa desastrosa rota onde o governo se expande enquanto as liberdades individuais se fragilizam.

Eles reprovam com veemência a administração Obama, mas sabem que o Partido Republicano também possui culpa pela situação. A gestão Bush também expandiu o governo e manipulou a economia para faze-la crescer no curto prazo, motivo fundamental para a eclosão da Crise de 2008.

A incompetência da elite partidária em ouvir as preocupações de sua base foi fundamental para o nascimento do movimento Tea Party e a eleição de políticos compromissados com os valores americanos. Ted Cruz e Marco Rubio chegaram ao Senado graças a isso.

Donald Trump, em contrapartida, deixa claro quem é o protagonista de seu slogan Make America Great Again: ele mesmo.

O egocentrismo é a marca de seu estilo político, onde frases de efeito e propostas caricatas (o muro pago pelo México, a deportação em massa de imigrantes, a interrupção da entrada de muçulmanos no país) escondem um candidato que mudou radicalmente de opinião sobre diversos temas nos últimos anos, além de ser notório financiador da esquerda americana.

Trump não é um defensor dos valores americanos. Ele é um defensor de seus interesses pessoais, que fala qualquer coisa e escreve qualquer cheque para avançá-los. Um populista sem escrúpulos.

Conservadores corajosos

2016-02-02-1454440920-2300692-RubioCruz

A importância da noite passada em Iowa excede o triunfo eleitoral de Cruz no primeiro estado da disputa: é uma prova de que os americanos resistem ao encanto de um demagogo persuasivo, escolhendo ficar ao lado daqueles que compreendem seus problemas e defendem os princípios e valores que eles desejam ver resgatados.

Com a disputa apenas começando, estando as eleições de Nova Hampshire e Carolina do Sul a uma semana de distância, o embate entre Cruz, Trump e Rubio se intensificará.

Sendo o conservador mais consistente e combativo, famoso pelo seu desprezo às elites partidárias e empresários corporativistas, Cruz é o que possui a militância mais engajada, tendo centenas de milhares de americanos trabalhando voluntariamente em sua campanha. A militância porta-a-porta foi decisiva para sua virada contra Trump em Iowa. No entanto, sua firmeza inabalável tem preço: é o que sofrerá mais ataques da esquerda (no meio político, jornalístico e artístico) e mais pressão de colegas de partido e lobbystas, que se juntarão a seus adversários na esperança de derrota-lo.

Rubio, dotado de retórica mais moderada e certo pragmatismo em sua carreira do Senado, deve conquistar apoio crescente na mídia e na elite partidária. Seus maiores problemas giram em torno da superioridade técnica da campanha de Cruz e do seu próprio rival, um excelente debatedor. Com Bush e demais candidatos moderados fracos nas pesquisas, está com boa oportunidade de conquistar o eleitorado de centro-direita e fortalecer sua posição na corrida pela nomeação.

Mas a rivalidade não pode abrir espaço para dúvida: ambos representam um movimento conservador de raízes profundas nos EUA, se opondo ao culto à personalidade que Trump busca vender para seus inflamados militantes.

Na disputa pela alma da direita, os defensores da Constituição americana enfrentam o homem que brada ser a própria América. Mais que a nomeação para decidir o presidenciável, as primárias consolidarão qual mensagem o Partido Republicano passará nos próximos anos.

LEIA MAIS:

- Uber, preço dinâmico e a soberania do consumidor

- A vitória de Macri: Um sopro de liberdade na América Latina

Também no HuffPost Brasil:

Caras e Bocas de Donald Trump

SIGA NOSSAS REDES SOCIAIS: