OPINIÃO

Guga Chacra e o conservadorismo made in New York Times

O jornalista pode discordar de Trump, dos conservadores americanos e dos brasileiros. O que ele não pode fazer é redefinir o que eles pensam.

04/03/2017 23:00 -03 | Atualizado 07/03/2017 15:18 -03
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Blogueiro lista como o conservadorismo nos EUA e no Brasil vê o trumpismo.

Em ''Qual a diferença entre o trumpismo e o conservadorismo no Brasil?'', o colunista do Estadão e comentarista da GloboNews, Guga Chacra, analisou a influência de Donald Trump no cenário político dos EUA, comparando a visão do presidente com a de Bush filho e a do movimento conservador americano e, por fim, comparando o trumpismo com o conservadorismo brasileiro.

Guga apoia sua análise no artigo ''Trumpism at Its Best, Straight Up'' de David Brooks, colunista do New York Times dito conservador, que atacou o primeiro discurso de Trump ao Congresso americano como longe do que toma como conservadorismo ''moderno''.

Vamos aos problemas da análise.

1- Brooks tem má reputação entre conservadores americanos por flertar com a esquerda

Já tendo feito coluna dizendo sentir falta de Barack Obama, a presença de Brooks no New York Times é cínica, um modo de o jornal fingir que conservadores têm espaço no veículo que fez propaganda pro-Hillary e hoje é anti-Trump. Grandes portais conservadores como National Review, The Federalist, Conservative Review e The Daily Wire já lançaram artigos criticando opiniões de Brooks.

O histórico de David Brooks torna sua autoridade para falar pelos conservadores americanos fraca, para não dizer nula.

2- Bush filho não foi um conservador exemplar, nem Bush pai

Expõe Guga:

Conforme escreve David Brooks, colunista conservador do New York Times, o presidente dos EUA, Donald Trump, em seu discurso de terça, "rejeitou ou ignorou" os três pilares do Partido Republicano nas últimas décadas – conservadorismo fiscal, conservadorismo social e política externa intervencionista.

Bush filho não foi um conservador fiscal. Ele herdou uma dívida pública de US$5,7 trilhões e deixou uma de US$11,9 trilhões. Barack Obama foi o único presidente a endividar mais o povo americano do que ele.

Trump discursou contra os gastos do Obamacare e também contra as regulações do governo federal. Sua primeira proposta orçamentária deve incluir vários cortes na máquina pública.

A política externa intervencionista de Bush filho teve guerras de custo trilionário, gastos ainda mais absurdos que a Guerra do Golfo de Bush pai. Essas campanhas agiram contra o conservadorismo fiscal e também contra o conservadorismo político.

Ronald Reagan, este sim um modelo conservador, jamais se meteu em guerras custosas. Ele via a América como ''a cidade que brilha no alto da colina'', priorizando preservar as bases da República americana.

Trump não destoa do conservadorismo neste ponto: ele resgata a postura de Reagan ao focar em cuidar dos EUA ao invés de ''espalhar a democracia'' pelo Oriente Médio.

3- A confusão entre o Trump real e o Trump inventado nos clichês midiáticos

Guga critica Trump na questão migratória:

O problema maior foi o tom em temas como a imigração – no qual ele acentuou um discurso anti-imigrante, beirando a xenofobia, que se instalou no Partido Republicano a partir de 2012 – antes não havia este discurso e Bush era tão ou mais liberal do que Barack Obama na questão da imigração.

Aqui está o documento oficial de campanha com as propostas de reforma migratória de Trump.

A quantia de trechos ''anti-imigrante'' e ''xenófobos'' ? Zero.

A luta de Trump é contra a imigração ilegal, ato criminoso que Obama, Hillary e o Partido Democrata sempre deixaram impune. E que lhes custou a eleição de 2016.

Fora isso, a contradição: se Bush era tão ou mais esquerdista que Obama na imigração, como seria referência de conservadorismo social?

Destaco que Trump tomou medidas anti-aborto e elabora um decreto que visa a proteger a liberdade religiosa na América. Em conservadorismo social, sua vantagem sobre Bush filho é clara.

E por favor, ''liberal'' em inglês não se traduz para ''liberal'' em português. A tradução correta é progressista/esquerdista. Os liberais brasileiros passam longe de Obama.

Falando em Brasil, Guga tenta associar Trump ao PT:

Neste sentido, estão com os republicanos pré-Trump, mas não os pós-Trump, pois Trump defende algumas políticas econômicas similares às do PT, conforme já mostraram reportagens na imprensa americana.

A vagueza quase cola o tóxico rótulo ''petista'' em Trump. Mas como apontei, o presidente fará cortes de gastos e regulações estatais, o oposto do PT. Salvo se o petismo tiver monopólio sobre a pauta ''investimento em infraestrutura'', o rótulo é incabível.

4- O conservadorismo brasileiro observa o trumpismo de perto

Guga pode discordar de Trump, dos conservadores americanos e dos brasileiros. O que ele não pode fazer é redefinir o que eles pensam.

Existem divergências entre essas forças, mas elas compartilham o desejo de preservar valores, costumes e tradições consagrados pelo tempo em suas sociedades.

Trump venceu a eleição mesmo com a forte campanha da elite midiática contra ele. E sua presidência vem sendo consistente com suas promessas de campanha, algo que muito agrada aos republicanos mais conservadores.

Sua postura combativa, sua firmeza e sua visão inspirarão o movimento conservador brasileiro nas eleições brasileiras de 2018.

O conservadorismo ''moderno'' de David Brooks? Bom, continuará ali no New York Times.

*Este artigo é de autoria de colaboradores do HuffPost Brasil e não representa ideias ou opiniões do veículo. Mundialmente, o Huffington Post é um espaço que tem como objetivo ampliar vozes e garantir a pluralidade do debate sobre temas importantes para a agenda pública.

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