OPINIÃO

Fundo Partidário: Símbolo dos privilégios da classe política

Partidos pedem R$ 6 bilhões para a campanha em 2018.

14/07/2017 15:06 -03 | Atualizado 14/07/2017 15:06 -03
AFP/Getty Images
Pequenos e grandes partidos querem manter o Fundo Partidário pelo mesmo motivo: fugir da obrigação de conquistar o apoio - e a carteira - do cidadão comum.

Como você se sentiria sabendo que trabalha para sustentar as atividades dos partidos que mais rejeita, aqueles que você considera os piores da política brasileira?

Esta é a realidade que vivemos: o Fundo Partidário suga seus impostos para encher os bolsos dos políticos, que ganham a mamata pelo simples fato de terem um partido legalmente registrado.

Em plena crise econômica, este esquema absurdo pode dar R$ 6 bilhões para os partidos realizarem suas campanhas em 2018.

Tamanha farra com o dinheiro do povo ajuda a explicar por que temos 35 partidos políticos, a maioria sem ideologia nem apoio popular: montar uma legenda é muito lucrativo, mesmo que não se vença eleição nenhuma.

Basta ver os dados de 2016 para constatar que nenhum partido recebeu menos de um milhão de reais do Estado, só por nos fazer o grande favor de existir.

Não há sentido em sustentarmos tais grupos antes de eles conquistarem nosso voto ou, pior ainda, depois de serem rejeitados nas urnas.

Afinal, por que bancar nanicos fisiológicos ou radicais que, eleição após eleição, são incapazes de atrair os cidadãos?

No caso dos partidos com muitos filiados ou votos, por que nossos impostos deveriam financiar quem tem capacidade para mobilizar doações daqueles que acreditam nas suas bandeiras?

Fica claro que o Fundo Partidário é um mecanismo que vai contra a democracia e a igualdade perante a lei: privilegiando a classe política, ele estimula a entrada no sistema apenas para se ganhar regalias à custa do trabalhador brasileiro, obrigado a bancar oportunistas que podem desprezar sua opinião sem grande preocupação.

Quando o fundo não privilegia estes acomodados, ele transfere renda em níveis exorbitantes aos maiores partidos. PT, PMDB e PSDB recebem dezenas de milhões de reais anualmente, ainda que tenham baixíssimos índices de aprovação.

A verdade é que os pequenos e grandes partidos querem manter o Fundo Partidário pelo mesmo motivo: fugir da obrigação de conquistar o apoio - e a carteira - do cidadão comum.

Pedir por uma doação, para que o eleitor voluntariamente dê dinheiro para sustentar as atividades do partido, requer esforço. É preciso convencê-lo de que a legenda defende causas importantes e faz isso com competência.

Seria uma maneira de frear os gastos absurdos nas campanhas eleitorais, enxugar o número de legendas, clamar uma agenda clara e coerente, aproximar o cidadão do processo democrático e trazer para debaixo do mesmo teto governantes e governados.

É o pesadelo das legendas atuais, e por isso mesmo o eleitorado deve tomar uma postura firme em defesa da mudança.

Nossa reforma política deve promover o fim do Fundo Partidário. Político não existe para ser privilegiado com nosso dinheiro, mas para mostrar ideias que convençam os cidadãos de que ele merece representá-los nos cargos eletivos da nação. Se essa noção é razoável, passou da hora de fazer a lei eleitoral concordar com ela.

*Este artigo é de autoria de colaboradores ou articulistas do HuffPost Brasil e não representa ideias ou opiniões do veículo. Mundialmente, o HuffPost oferece espaço para vozes diversas da esfera pública, garantindo assim a pluralidade do debate na sociedade.

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