OPINIÃO

Doria mira em Bolsonaro, mas pode acertar o próprio pé

Por que a união do centro pedida por Doria pode ser perigosa para o PSDB...

04/11/2017 13:55 -02 | Atualizado 04/11/2017 13:57 -02
Ueslei Marcelino / Reuters
Se os social-democratas antes podiam contar com um voto quase certo dos cidadãos de direita, esta já não é mais a realidade.

A eleição presidencial de 2018 será diferente de qualquer outra da Nova República. Há décadas com os debates eleitorais marcados pela discussão econômica, a entrada de Jair Bolsonaro como candidato viável na disputa colocará a pauta moral sob os holofotes. Quem ignora este fato, em particular no grupo anti-PT, o faz por seu próprio risco.

Nesta semana, o prefeito João Doriadefendeu uma candidatura única de centro entre uma ampla aliança partidária - PSDB, PMDB, DEM, PPS, PP, PR, PRB, PV e PSB - para disputar 2018. Observando que a fragmentação do grupo em candidaturas avulsas seria derrota certa, Doria pregou a união contra inimigos em comum: Lula e Bolsonaro.

A sobriedade da avaliação cabe destaque: admitir que o PSDB não tem força sozinho para ultrapassar o 1º turno é de uma humildade que não encontra similar na arrogante elite tucana.

Contudo, o plano de dupla polarização, afrontando simultaneamente esquerda e direita, deveria preocupar quem não deseja ver Bolsonaro como adversário de Lula no 2º turno. A retórica ''nem esquerda, nem direita'' é infantil: o candidato da esquerda está definido, resta saber quem levará mais votos da direita para chegar ao embate final.

Em eleições passadas, o escolhido foi um social-democrata: FHC, Serra, Alckmin e Aécio. Com a direita civil tendo sido destruída como força organizada no regime militar, pessoas de tendência liberal ou conservadora tinham pouca escolha fora votar nas figuras mais moderadas da esquerda.

Com o surgimento, nos últimos anos, da chamada nova direita, partidos liberais como o Novo, figuras conservadoras como Bolsonaro e até tucanos pró-mercado como Doria passaram a despontar.

O problema para a ambição presidencial do prefeito e do PSDB como um todo é que esse cenário, conforme citado, não os beneficia exclusivamente. Os eleitores liberais e conservadores agora têm mais opções de candidatos anti-petistas, como o estreante João Amoêdo e o próprio Jair Bolsonaro.

Se os social-democratas antes podiam contar com um voto quase certo dos cidadãos de direita, esta já não é mais a realidade. Isso torna arriscada a ideia de Doria de tratar Bolsonaro explicitamente como um inimigo, já que boa parte dos eleitores o veem como único candidato viável a defender uma série de pautas valorizadas por eles.

Vale notar que, logo após propor a polarização com Bolsonaro, o prefeito atacou a postura do deputado em relação ao armamento civil e ao controle das fronteiras. Se Doria pensa que o eleitor anti-petista rejeita majoritariamente tais ideias, melhor se preparar para uma surpresa amarga.

É bom ver um presidenciável tucano reconhecer os limites eleitorais que seu próprio partido possui. Mas Doria ainda não tem a resposta do que o PSDB pode oferecer para uma direita que já não é mais refém de votar na social-democracia.

Resta saber se a elite tucana estará disposta a se reinventar ou se deixará tornar aos poucos uma força periférica dentro do grupo que se coloca contra o projeto de poder do Partido dos Trabalhadores.

*Este artigo é de autoria de colaboradores ou articulistas do HuffPost Brasil e não representa ideias ou opiniões do veículo. Mundialmente, o HuffPost oferece espaço para vozes diversas da esfera pública, garantindo assim a pluralidade do debate na sociedade.

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