OPINIÃO

Distritão e Fundão: A elite política tenta se agarrar ao poder

Um Fundo Partidário bilionário faz parte dos planos dos atuais parlamentares de vencer eleições pela força de seus cofres.

14/08/2017 21:42 -03 | Atualizado 14/08/2017 21:42 -03
AFP/Getty Images
O Fundão faz parte dos planos da elite política de vencer eleições pela força de seus cofres.

A indignação dos brasileiros com os rumos da política nacional é conhecida por todos, inclusive pelos parlamentares que vivem colocando panos quentes no sentimento generalizado de revolta. A movimentação recente no Congresso sugere que desejam mudar de tática: ao invés de abafar, sufocar a voz do povo.

A reforma política sendo articulada pelos grandes partidos é um verdadeiro Cavalo de Troia: poderosas armas reacionárias se ocultam sob uma máscara de renovação.

O mais gritante é o "Fundão", o aumento obsceno do Fundo Partidário: hoje na casa dos R$ 819 milhões, a proposta da elite política é inchá-lo para R$ 3,6 bilhões.

Em meio a grandes cortes de gastos em serviços governamentais que atingem severamente o povo, gastar o dinheiro dos impostos para sustentar partidos altamente rejeitados na escala dos bilhões de reais é nada menos que um tapa na cara do cidadão.

Os grandes partidos sabem que o brasileiro comum tem repulsa às suas práticas corruptas, mas não pensam em fazer autocrítica para atrair apoiadores e doações às suas causas. A ideia é simplesmente forçar todos a bancarem suas podridões morais.

À medida que o público conhece a existência do fundo partidário (quase nunca mencionado nas tribunas da Câmara e do Senado), o clamor não é por seu aumento, mas por sua extinção. Afinal, quem gosta de saber que o governo está tirando dinheiro do seu bolso para financiar algumas das mais sujas politicagens de que se tem notícia?

O Fundão faz parte dos planos da elite política de vencer eleições pela força de seus cofres. Dá recursos para os mesmos bandidos de sempre poderem ganhar de candidatos novos, surgidos das mobilizações civis, que tragam inovações indesejadas pelos caciques partidários.

O distritão é outra arma dessa gangue, trazendo um modelo eleitoral que privilegia os grandes políticos em detrimento do debate de ideias.

Ao destruir o sistema proporcional e impor uma regra na qual os mais votados de cada estado são eleitos, o distritão favorece o personalismo. Faz de cada político uma ilha de interesses e agenda própria.

Sem incentivo para seguir uma agenda partidária de propostas ou cooperar com outros candidatos da sua legenda, o que resta é um fisiologismo agravado: ganha quem tiver mais fama, dinheiro e capital político.

Os votos nos candidatos menos votados, hoje bem aproveitados graças ao sistema proporcional, irão todos para o lixo no Distritão. A chance de ir às urnas e não se ver representado no Congresso aumenta.

As figuras mais sóbrias, que preferem defender ideias a causar intrigas fúteis para ganhar atenção, tendem a não pisar no Parlamento. Este será dominado por (ainda mais) palhaços singulares, esvaziados de coerência ideológica. Os partidos políticos se oficializarão como nada mais que plataformas para obter o Fundão e o tempo na televisão.

Juntos, o Fundão e o distritão são a melhor maneira de deixar tudo como está. Alterando as regras do jogo nas finanças de campanha e no modelo eleitoral, a elite política favorece a mesmice e, consequentemente, seu lugar no poder.

O povo não pode ficar de braços cruzados diante de tão covarde ataque aos seus anseios. Cada cidadão deve pressionar os representantes de seu estado no Congresso a se posicionarem contra esses aspectos da reforma política. É hora de dar o recado: quem votar a favor da elite política agora será derrotado pelo povo nas urnas em 2018.

*Este artigo é de autoria de colaboradores ou articulistas do HuffPost Brasil e não representa ideias ou opiniões do veículo. Mundialmente, o HuffPost oferece espaço para vozes diversas da esfera pública, garantindo assim a pluralidade do debate na sociedade.

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