OPINIÃO

Cunha não era um criminoso, mas o vilão de uma narrativa

21/10/2016 16:54 -02 | Atualizado 21/10/2016 16:54 -02
HEULER ANDREY via Getty Images
Brazil's former President of the Chamber of Deputies Eduardo Cunha, arrives at the Forensic Medicine Institute in Curitiba, on October 20, 2016. Brazilian police on Wednesday arrested Eduardo Cunha, the driving force behind former president Dilma Rousseff's impeachment, in a new escalation of a corruption probe shaking Latin America's biggest country. / AFP / Heuler Andrey (Photo credit should read HEULER ANDREY/AFP/Getty Images)

Nenhum silêncio nesta quarta-feira (19) foi mais ensurdecedor do que o realizado por petistas e demais radicais de esquerda ao se depararem com a notícia de que a Polícia Federal havia prendido Eduardo Cunha.

O ex-Presidente da Câmara foi a figura política mais atacada pelo PT e seus aliados desde que iniciou seu rompimento com o governo Dilma no início de 2015.

Esperava-se que a queda de uma das figuras mais infames do Congresso fosse motivo de eufórica comemoração entre seus maiores opositores.

Entretanto, a prisão decretada pelo juiz Sergio Moro teve como efeito imediato apenas um discreto ranger de dentes.

O silêncio foi rompido apenas momentos depois, com uma enorme leva de explicações sendo dadas por aqueles que deveriam estar comemorando a prisão do deputado pmdbista.

Ocorre que Cunha não era visto como um mero corrupto pela esquerda brasileira. Ele era o grande inimigo a ser combatido, o pretexto para a união de ideologias vermelhas com níveis diferentes de extremismo.

Cunha não era um criminoso, mas o vilão de uma narrativa. O interesse não era puni-lo, mas construir uma polarização onde Dilma e seus apoiadores enfrentavam o Mal encarnado.

Este Mal, como sabemos, tinha um plano: o golpe, ato apocalíptico que jogaria o Brasil na escuridão.

O grande pecado de Cunha não foi sua conduta mafiosa na Petrobrás, mas em simplesmente aceitar a tramitação do pedido de impeachment meses após ele ter sido protocolado, ainda por cima cortando trechos importantes do texto formulado por Janaína Paschoal, Hélio Bicudo e Miguel Reale Jr.

Permitir o julgamento de Dilma por seus crimes fiscais, depois de bloquear o processo em benefício de Dilma, era um verdadeiro abuso de poder.

O golpe, mais conhecido para quem já leu a Constituição como impeachment, nos mergulharia de vez nas trevas, engolindo a Lava-Jato e trazendo cem anos de impunidade à Cunha e seus subordinados golpistas.

Cinco meses após Dilma ser afastada do cargo, a Lava-Jato está a pleno vapor e Cunha usufruindo de uma cela na cadeia.

Eis o motivo do silêncio inicial com a prisão: a realidade vem expondo continuamente a esquerda ao ridículo, com a narrativa do "golpe" virando piada nacional.

A ficção delirante teve peso na rejeição popular ao PT nas eleições municipais deste ano, que fez o partido perder mais da metade das prefeituras que ocupava.

A teimosia em manter o circo narrativo de pé só traz novos vexames, tudo a troco de negar a destruição econômica e institucional causada pelo tempo que o Partido dos Trabalhadores permaneceu no poder.

Entram as explicações revisionistas: Cunha passa de Mal supremo, arquiteto do golpe, para fantoche sem relevância. Exatamente o contrário do que a esquerda alardeou nos últimos dois anos.

E o Mal supremo? Ora, eram os mestres de Cunha. FHC, Temer, Moro, as vagas para vilões estão abertas.

É um espetáculo patético, não apoiado por ninguém senão os mais fanáticos militantes.

O fim de Cunha como força política dói à esquerda, que vê em sua figura um alvo fácil que não tem mais a capacidade de fabricar.

Sem novos monstros debaixo da cama, o caminho está aberto para vermos a grande figura messiânica do petismo respondendo pelos seus crimes perante a nação.

Os militantes podem negar sua participação no projeto de poder criminoso do qual o país se livrou. Mas eles não poderão impedir os líderes de sua seita ideológica de serem julgados e punidos de acordo com a lei brasileira.

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