OPINIÃO

A lama em que os tucanos fizeram ninho

A Lava Jato desencadeia um sentimento reacionário na elite tucana: a vontade de frear investigações e proteger os aliados que garantem o poder.

15/06/2017 19:37 -03 | Atualizado 15/06/2017 19:37 -03
Adriano Machado / Reuters
Aécio e Temer comemoram posse deste logo após Senado aprovar impeachment de Dilma.

O desgosto do povo com a elite política é a maior certeza vista no Brasil de hoje. A paciência com os representantes eleitos está esgotada, independentemente do partido ao qual pertencem.

Se a descrença é um desafio para legendas independentes e recentes, como o Novo, se comunicarem com o eleitorado, os grupos antigos estão numa situação ainda mais complicada, seja por seus líderes serem alvo de denúncias de corrupção ou por sua responsabilidade na crise atual.

O PSDB se encaixa bem nestes casos. Com Aécio, Alckmin e Serra investigados pela Operação Lava Jato, e os tucanos tendo fracassado em combater a corrupção dos governos petistas (uma coisa explica outra?), a sigla vem perdendo apoio de seu eleitorado tradicional, cuja diversidade ideológica era ignorada em nome de criar uma "frente anti-PT".

O caos que estourou após o início do 2º governo Dilma Rousseff trouxe uma oportunidade e uma dificuldade ao PSDB: a chance de se colocar como defensor da ética e o desgaste trazido pela exposição da corrupção em suas fileiras.

O impeachment e a eleição em 1º turno do prefeito João Doria foram passos no caminho certo para a construção de uma imagem renovada do partido, uma de comprometimento com a punição de políticos criminosos e mais atenção às demandas do cidadão comum.

Entretanto, a própria Lava Jato desencadeia um sentimento reacionário na elite tucana: a vontade de frear investigações, proteger os aliados que garantem o poder e tirar dos holofotes as negociatas sujas feitas entre o Estado e os grandes empresários.

O julgamento da chapa Dilma-Temer no TSE evidenciou as contradições do PSDB, que se viu constrangido a seguir com o pedido de cassação que poderia resultar na queda de um governo de que o próprio partido fazia parte.

Passada a vergonhosa absolvição, os tucanos se reuniram e escolheram permanecer no governo Temer, mesmo com sua desmoralização perante os brasileiros.

Os aplausos ao discurso de Marconi Perillo em defesa de Aécio nessa reunião foram a cereja do bolo.

Se a corrupção já era uma preocupação constante, o povo agora teme uma contra-ofensiva para enterrar a Lava Jato, já que é apenas o poder político que impede o presidente Temer de cair.

Em nome de continuar na máquina pública, o PSDB gasta a credibilidade que ganhou nos últimos dois anos.

Sem ter o mesmo exército de militantes que o PT, é esperado que a rejeição aos tucanos cresça, mesmo que seus erros e crimes não alcancem as dimensões megalomaníacas do Partido dos Trabalhadores.

Resta saber até que ponto o partido terá cheiro de velharia em 2018: se Doria for o presidenciável, amenizará o problema. Se for Alckmin, a debandada eleitoral será mais intensa.

Enquanto o Brasil perde com a recaída moral de um de seus principais partidos, o lamaçal em que se meteu o PSDB dá oportunidade para que a direita supere os social-democratas e assuma papel protagonista na oposição ao PT, tendo sua agenda como a alternativa para um Brasil comandado pelo radicalismo de esquerda.

A elite tucana pode não gostar, mas são seus próprios atos que pavimentam o caminho para os novatos na disputa pelo Planalto se tornarem competitivos.

*Este artigo é de autoria de colaboradores ou articulistas do HuffPost Brasil e não representa ideias ou opiniões do veículo. Mundialmente, o HuffPost oferece espaço para vozes diversas da esfera pública, garantindo assim a pluralidade do debate na sociedade.

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