OPINIÃO

Quando a conta da segurança de São Paulo vai fechar?

Em maio, o estado registrou aumento do número de estupros, latrocínios e de roubos de carga.

21/07/2017 18:39 -03 | Atualizado 21/07/2017 18:41 -03
EVARISTO SA via Getty Images
Em São Paulo, a polícias e as delegacias enfrentam déficit de pessoal.

Escolhas erradas, reivindicações não atendidas, incapacidade, falta de compromisso, desprezo, ineficiência e falta de tato. Enfim, a soma de tudo isso resulta num cenário de caos que deixa a população do estado de São Paulo sofrer de insegurança, à mercê da criminalidade.

Dados do próprio governo de São Paulo atestam sua incapacidade. No mês de maio, a população do estado sofreu com o aumento do número de estupros, latrocínios e de roubos de carga. Até os casos de violência contra idosos aumentaram.

Os números são ruins em todo o estado. No primeiro trimestre, a Grande São Paulo insegura viu o número de homicídios disparar, a cidade de São José do Rio Preto teve mais que o dobro do número de homicídios e o Vale do Paraíba liderou o ranking de regiões com os maiores índices de latrocínio e homicídio do interior.

Em vez de agir para melhorar essa situação, o governo só atrapalha. Na cidade de Santos, por exemplo, os moradores da região da Ponta da Praia que precisarem registrar ocorrência de noite não vão conseguir. O 3º Distrito Policial deixou de funcionar no período noturno, devido à falta de escrivães. Até apresentei essa questão ao secretário estadual de Segurança e até agora nada foi resolvido.

No ABC, o índice de criminalidade atingiu números nunca antes vistos. Das dez cidades em que mais se roubam motos no estado, quatro estão na região. Em São Bernardo, segundo dados da própria Secretaria Estadual de Segurança Pública (SSP), os furtos de veículos tiveram alta de 45% e os casos de homicídio aumentaram em 100%.

Em audiência pública realizada pelo meu mandato com moradores da cidade, ouvi relatos de dificuldades para acionar o serviço de emergência 190 e até para registrar boletim de ocorrência, por falta de contingente ou até mesmo falha do sistema.

Quem se sente seguro em um estado assim?

Com um déficit de nove mil servidores, a Polícia Civil de São Paulo não consegue combater o crime e ainda é refém de um governo que prefere o sucateamento à valorização profissional e a integridade do cidadão.

Ainda segundo dados da SSP, a cidade de Osasco teve um aumento de 40% no número de roubos. Por outro lado, levantamento do Sindicato dos Delegados de Polícia do Estado mostra que as seccionais de Carapicuíba e Osasco precisam de, ao menos, 22 novos delegados, fora os mais de 600 policiais. Com um quadro defasado e o índice de criminalidade só aumentando, quando essa conta vai fechar?

Levantamento feito no final do ano passado estimava que, durante o governo Alckmin, ao menos três mil servidores deixaram a Polícia Civil. À época, o déficit era 8,7 mil policiais. Hoje, o Sindicato já fala em nove mil, quase 25% do que a população deveria ter à disposição para esclarecer crimes.

O governo empossou 1.040 novos policiais civis e sete delegados para treinamento. Na cerimônia de posse, veículos de imprensa constataram que um terço dos nomeados já era policial ou não apareceu para tomar posse. Ali ficou nítido que o número dos empossados não supre nem as baixas de 2017.

Desse jeito, a conta nunca vai fechar. O povo merece segurança.

Com 40% das cidades paulistas sem delegados titulares; trabalhadores cumprindo dupla jornada; escrivães que deveriam apurar, no máximo, 200 inquéritos, hoje tem mil e sequer são valorizados, dá nisso. Levantamento recente mostra que um de cada cinco inquéritos da divisão de homicídios é solucionado. Como o estado vai fazer o enfrentamento aos criminosos se não destina recursos e contrata novos investigadores?

No lugar do governo estadual, quem tem esboçado uma reação é o Judiciário. Em ao menos oito cidades do interior paulista, a Justiça concedeu liminares obrigando o estado a aumentar o contingente da Polícia Civil. Um dos processos que resultou no inquérito é de Piracicaba e foi aberto em agosto de 2016. Na época, cinco dos sete distritos policiais da cidade estavam sem delegado titular. Dá para se sentir seguro num ambiente desses?

A Justiça terá que intervir no governo Alckmin para que o básico seja feito? Quando o estado vai deixar de sucatear a Polícia Civil e passar a investir em mecanismos que colaboram para a redução da taxa de violência?

Fora tudo isso, também há uma outra solução simples que tem sido ignorada pelo governador. Basta o estado tratar os jovens como investimento e não como problema. Assim, deve-se investir em educação para depois não precisar punir.

*Este artigo é de autoria de colaboradores ou articulistas do HuffPost Brasil e não representa ideias ou opiniões do veículo. Mundialmente, o HuffPost oferece espaço para vozes diversas da esfera pública, garantindo assim a pluralidade do debate na sociedade.

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