OPINIÃO

Veja lá como fala

Por detrás de frases simples e situações comuns, é possível desvelar as engrenagens que ajudam a manter as coisas como estão e o placar desequilibrado para mulheres, negros e pobres.

27/09/2017 16:22 -03 | Atualizado 28/09/2017 11:11 -03
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"Fecha as pernas, menina!", "Não deixa ninguém encostar em você, viu?".

Uma das coisas que mais me fascina nessa vida é o poder da linguagem e como ela se manifesta. É por meio desse conjunto de códigos que construímos coletivamente a nossa identidade. E a maneira como descrevemos e falamos sobre determinadas situações diz muito sobre a nossa percepção do grande esquema das coisas.

Quando passei a olhar o mundo sob uma ótica mais crítica sobre gênero, raça e classe, a forma como as narrativas se constroem passou a exercer um fascínio ainda maior sobre mim. Pois, por detrás de frases simples e situações comuns, é possível desvelar as engrenagens que ajudam a manter as coisas como estão e o placar desequilibrado para grupos minorizados.

Pode parecer pouca coisa, mas é essa a engrenagem que faz tantos brasileiros acreditarem que qualquer lixo do "primeiro mundo" é superior às primícias nacionais.

Não preciso falar nem de exemplos já desgastados, como o fato de boa parte dos palavrões serem mais nocivos às mulheres que aos homens, mas de expressões mais sutis e, por isso, mais perniciosas. "Os imigrantes estão roubando empregos dos cidadãos" ou "produtos da China estão tomando o lugar da produção nacional", por exemplo, são duas maneiras de culpar pobres e objetos pela ação de empresários que querem baratear sua mão-de-obra e sua produção.

Outra é chamar a Europa de Velho Continente só porque saíram de lá os colonizadores, como se a história do mundo fosse a história deles, diminuindo a importância de todas as sociedades que os precederam. Pode parecer pouca coisa, mas é essa a engrenagem que faz tantos brasileiros acreditarem que qualquer lixo do "primeiro mundo" é superior às primícias nacionais.

Muita gente afirma que "meninas amadurecem mais rápido" na fé de que esta é uma característica biológica, sem qualquer questionamento sobre o fato de que somos levadas a isso por vivermos em um mundo inseguro para nós, tanto física quanto emocionalmente. O amadurecimento é o nosso escudo, nossa proteção.

Então será que as mulheres amadurecem mesmo mais rápido ou a sociedade cobra mais inteligência emocional de nós do que deles?

Muitas de nós somos introduzidas à sexualidade pela violência do assédio. Seja sofrendo-o em primeira mão ainda na infância, como a hashtag #primeiroassedio ilustrou brilhantemente, ou nos muitos conselhos de pais e cuidadores já nos alertavam sobre a decência e o recato que devemos adotar como forma de evitar olhares e toques indesejados ("Fecha as pernas, menina!", "Não deixa ninguém encostar em você, viu?"), por vezes nos colocando em conflito com nosso próprio corpo ao nos fazer enxergá-lo a dois tempos como uma preciosa tentação.

Eu mesma já fui muito elogiada por isso quando mais nova, por ser avançada para a minha idade. Hoje eu realmente não sei dizer até que ponto isso era mesmo o meu jeito de ser, o meu tempo natural de desenvolvimento, ou se eu estava emulando comportamentos para atender essa constante expectativa de amadurecimento.

Quantas vezes eu quis chorar, desistir, roer a corda, ser criançona e mimada, mas me controlei, pensei 10 vezes e decidi "ser superior" em prol de não parecer infantil. Quantas vezes ouvi "isso é coisa de menino..." ou "H=homem é assim mesmo" como justificativa para atitudes masculinas que, se realizadas por mim, seriam inadmissíveis.

Então será que as mulheres amadurecem mesmo mais rápido ou a sociedade cobra mais inteligência emocional de nós do que deles?

O que mais me fascina nisso tudo é o quanto as palavras revelam as crenças - ainda que alguém mude seu vocabulário para evitar ofensas, é na reflexão sobre a lógica por trás do que se fala que reside a verdadeira revolução e onde começa o avanço. Senão, somos traídos e, entre uma conversa e outra, continuamos vomitando os mesmos preconceitos e atrasos, só que com outras palavras.

*Este artigo é de autoria de colaboradores ou articulistas do HuffPost Brasil e não representa ideias ou opiniões do veículo. Mundialmente, o HuffPost oferece espaço para vozes diversas da esfera pública, garantindo assim a pluralidade do debate na sociedade.

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