OPINIÃO

O gênio por trás da unanimidade

Jordan Peele é o diretor que conseguiu combinar suspense e terror para trazer o dabate sobre racismo à tona.

30/05/2017 11:23 -03 | Atualizado 30/05/2017 11:23 -03
Mike Blake / Reuters
"Nos últimos anos, poucas produções de horror têm se salvado e pouca gente leva a sério."

Quem me conhece sabe que amo filmes de terror, mas só os psicológicos ou aqueles que têm fantasma. História de serial killer e gente cortando gente, dispenso. E, ao sair do cinema após assistir Corra! (Get Out, no título original) ,obra-prima do diretor Jordan Peele, pela primeira vez me dei conta do quanto vale a pena insistir no gênero. "Eu assisto dez mil filmes ruins pelo prazer que dá encontrar uma pérola dessas", disse para o meu namorado enquanto caminhávamos para o carro.

Ele e seu amigo, que foram comigo - ambos a contragosto - não ficaram tão particularmente entusiasmados quanto eu, mas ainda assim acharam o filme excelente. Sou fã de Jordan Peele há muito tempo por seu trabalho no programa Key & Peele, do Comedy Central. Ao lado de Keegan-Michael Key, ele dirigia, escrevia e atuava em esquetes de comédia com um latente recorte racial - muitas vezes explícito.

Em uma entrevista, quando perguntados se tinham liberdade criativa do canal para arriscar no programa, Keegan-Michael respondeu que por vezes faziam uso das suas "race cards" (ou "cartas de raça"). Por serem negros, tinham o direito de abordar determinados assuntos e fazer piadas consideradas ousadas - e os dirigentes brancos do canal nada podiam fazer para discordar.

As esquetes definitivamente não se limitavam a isso e eu sempre me identifiquei muito com o senso de humor deles. Neste vídeo, eles imaginam como o roteiro de Gremlins 2 foi desenvolvido, É o tipo de situação que muita gente imagina quando se depara com um filme muito ruim (o famigerado "Quem aprovou isso!?") e eles foram longe o suficiente para transformar essa abstração em um quadro hilário que critica de maneira sagaz as sequências ruins de filmes de sucesso.

Jordan interpreta um executivo super afeminado, mas a graça não está nisso. Ele simplesmente está interpretando uma pessoa que age assim, que se veste e se comporta de forma exagerada, mas está no comando da reunião. A comicidade de sua atitude é o fato de dar ouvidos a ideias ridículas para a sequência do filme.

Seu comportamento destoante dos demais presentes em cena está a serviço das decisões que o personagem toma - igualmente exageradas - e não da ideia de que ele ser assim, por si só, seja algo risível.

A dupla consistentemente colocava sua comédia a serviço de cutucar grandes onças com vara curta - instituições, racismo velado, homofobia, machismo, etc. Tudo isso sem apelar para sermões ou um tom educativo, contando que o espectador necessariamente concorde com as suas visões de mundo. Key & Peele é um programa de comédia divertido para qualquer pessoa, porque as piadas, mesmo as mais carregadas de crítica social, são simplesmente engraçadas.

Após cinco temporadas de sucesso e em sua melhor forma, a dupla decidiu encerrar o programa antes que chegassem àquele momento em que o próprio público começa a concordar que está na hora de parar. Deixaram saudade e prometeram que a parceria seria mantida em outras produções, como o filme Keanu (2016).

Jordan teve, então, a oportunidade de tirar do papel um filme que ele já havia escrito há alguns anos atrás, que hoje sabemos ser o fantástico Corra!.

Conhecendo a sua habilidade para combinar temas críticos com comédia e, sendo fã de filmes de terror, fiquei muito curiosa para saber como ele conseguiria fazer o mesmo em um gênero cinematográfico diametralmente oposto.

Nos últimos anos, poucas produções de horror têm se salvado e pouca gente leva a sério. E o que ele fez, criando um instigante thriller social, definitivamente representa um novo momento para histórias de horror.

Assim como em Key & Peele, a excelência de Get Out está em colocar suas críticas sociais a favor de uma história que é inegavelmente boa. Muito do roteiro só faz sentido considerando o entendimento do espectador sobre o que é o racismo e como ele se manifesta na sociedade.

O filme não precisa explicar o que é isso, ele parte do princípio de que a audiência já está ciente. A cena final é o melhor exemplo disso: não é difícil desconfiar do que aconteceria caso as coisas fossem diferentes.

Em tempos tão divididos quanto o que estamos vivendo, saber que este filme é um sucesso quase unânime é um sopro de ar fresco. Jordan já está comprometido em uma nova produção de terror com a HBO e mal posso esperar para ver o que mais ele pode fazer pelo gênero.

Apesar de ter alcançado excelência como comediante, ele tomou a decisão certa ao se arriscar e escapar do caminho fácil das rotas já traçadas pelo sucesso, mesmo abordando temas difíceis. E se você ainda está em cima do muro, corra... para os cinemas.

*Este artigo é de autoria de colaboradores ou articulistas do HuffPost Brasil e não representa ideias ou opiniões do veículo. Mundialmente, o HuffPost oferece espaço para vozes diversas da esfera pública, garantindo assim a pluralidade do debate na sociedade.

LEIA MAIS:

- Por que eu me decepcionei com 'Master of None' por causa da Francesca

- Toda feminista é mal amada

13 curta-metragens de terror