OPINIÃO

O erro de JK Rowling ao defender a escalação de Johnny Depp para 'Animais Fantásticos'

O ator foi acusado de violência doméstica por sua ex-esposa, Amber Heard, e desde então a opinião pública em relação a ele não tem sido favorável.

15/12/2017 12:22 -02 | Atualizado 18/12/2017 13:12 -02
Larry Downing / Reuters
Provavelmente, JK não teria qualquer chance de trocar o astro do filme, mas a sua falta de empatia com as vítimas e com os fãs é realmente grave e decepcionante.

A polêmica da vez está girando em torno do fato de JK Rowling defender a presença de Johnny Depp no próximo filme do universo de Harry Potter, do qual é autora. O ator foi acusado de violência doméstica por sua ex-esposa, Amber Heard, e desde então a opinião pública em relação a ele não tem sido favorável.

Fãs da série acreditam que o passado do ator não condiz com o universo criado por JK - e recorreram a ela para impedir sua participação no elenco. Ela, porém, não voltou atrás, afirmando em comunicado que o que aconteceu entre o casal é um assunto privado, que ficou resolvido entre o casal (que chegou a um acordo na justiça) e que "consciência não é governável por comitê".

Eu definitivamente perdi o trem dos fãs de Harry Potter. Simpatizo com a série, mas nunca compartilhei do impacto que ela teve em minha geração. Dessa forma, nunca idealizei a JK - considero-a uma grande autora, com um posicionamento bacana em seu Twitter de vez em quando, mas sua queda do bastião onde foi colocada definitivamente não é traumática para mim.

Embora as mulheres estejam lutando bravamente por isso, ainda não ficou claro, para muita gente, que associações a estupro, violência doméstica e outros crimes relacionados (e agressões que escapam à forma da lei também, diga-se) devem ser evitadas como a peste. É perder prestígio.

No estado atual das coisas, pouco importa que Johnny e Amber sejam até mesmo amigos agora (não são) - o simples fato dessa possibilidade pairar sobre a cabeça do ator é suficiente para questionar profundamente a sua presença no projeto, especialmente em um voltado para o público infanto-juvenil.

Não se trata de uma questão de justiça formal, mas de um posicionamento ativo de combate à violência contra a mulher. Provavelmente, JK não teria qualquer chance de trocar o astro do filme, mas a sua falta de empatia com as vítimas e com os fãs é realmente grave e decepcionante.

Feminismo branco

Outra importante distinção que deve ser feita é a de que JK é uma mulher branca. E o feminismo branco é muito perigoso. Mulheres brancas, especialmente poderosas como JK, devem ser tão cobradas por seus privilégios de raça quanto qualquer homem por seus privilégios de gênero.

É difícil não colocá-la na mesma sacola onde estão Lena Dunham (a líder!) e Kate Winslet, que recentemente também se colocaram publicamente ao lado de homens acusados de estupro. As três são feministas, em teoria, mas feministas brancas. Aqui, quero pontuar algumas importantes distinções que devem ser feitas. A primeira é que, sob uma perspectiva exclusiva de gênero, elas não são piores que os homens que fazem o mesmo.

Toda a rebordosa que a JK está sofrendo pelo que disse não se dá pelo fato de ela ser mulher - mas por sua posição de poder. Ela não é uma pessoa irrelevante no contexto cultural: ela é a mente por trás de uma franquia multibilionária com fãs no mundo inteiro. Sua inação é revoltante. Ser mulher não a coloca acima de críticas. Se você acha que ela está sendo vítima de machismo, então precisa voltar três casas.

Existe uma resistência muito grande em relação à isso dentro do feminismo, que se manifesta no pensamento de que somos todas iguais, mas não somos e não existe prioridade de recorte quando se fala em relações de opressão. Nenhuma autora negra jamais chegou perto de onde JK está hoje, mas mulheres não brancas são desproporcionalmente mais suscetíveis à violência doméstica e ao feminicídio.

Somente uma pessoa muito pouco comprometida com o feminismo poderia dizer que sua "consciência não é governada por comitê". Queremos, sim, que ela seja governada por humanidade, por compaixão, por empatia, por um entendimento coletivo de que violência doméstica é absolutamente inaceitável.

Essas mulheres brancas que estão em posições de poder precisam urgentemente usar sua influência para o bem, porque enquanto elas estão pensando nos seus amigos agressores, um grande número de nós está sendo estuprada, apanhando e morrendo na mão de homens da mesma estirpe. Se tantas pessoas dão ouvidos a elas, que usem essa atenção para estar ao lado das mulheres, e não dos agressores.

O privilégio que as protege e dá a liberdade de abertamente duvidar de vítimas precisa ser questionado - e ele está tanto na classe social quanto na cor da pele. O desserviço que JK está prestando para o feminismo é suficiente para decepcionar fãs no mundo inteiro, mas provavelmente não abalará sua fortuna e alcance. Desejo, apenas, que ela passe a ser vista não mais como a voz dos oprimidos - ela só é boa nisso na ficção.

*Este artigo é de autoria de colaboradores ou articulistas do HuffPost Brasil e não representa ideias ou opiniões do veículo. Mundialmente, o HuffPost oferece espaço para vozes diversas da esfera pública, garantindo assim a pluralidade do debate na sociedade.

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