OPINIÃO

Não há modernidade liderada apenas por homens

Até hoje não temos uma mulher do mercado de tecnologia cuja influência chegue perto de Mark Zuckerberg ou Bill Gates.

27/06/2017 12:28 -03 | Atualizado 27/06/2017 17:33 -03
Danish Siddiqui / Reuters
Travis Kalanick perdeu o cargo de CEO do Uber após ignorar uma série de relatos de abusos e perseguições de mulheres.

Pouco importa o quão disruptivo é aquele novo app instalado em seu mais novo gadget: enquanto o machismo e outros preconceitos reinarem sobre as relações sociais, não se deixe enganar pelo brilho da tela. Somos apenas animais primitivos manuseando objetos bonitos.

Vivemos em uma sociedade tecnologicamente avançada, mas socialmente arcaica. As redes sociais ajudaram muito na luta das mulheres, mas não devemos esquecer que mesmo estas foram pensadas e ainda são comandadas por homens. O maior exemplo dessa dissonância entre os avanços tecnológicos e sociais reside no Vale do Silício.

Atual meca da tecnologia, o Vale é o mais perfeito exemplo desta falácia que chamamos de futuro. Produz, propaga e celebra avanços técnicos, mas não se preocupa em evoluir nas relações sociais. Nos últimos anos, cada vez mais mulheres têm criado coragem para denunciar os abusos que sofrem nas mais modernas startups do mundo.

A internet e a excelente forma como movimentos sociais têm se aproveitado dela para colocar suas pautas foi a mola propulsora para que essas mulheres, em geral isoladas em quadros de funcionários majoritariamente masculinos, se manifestassem. A coragem, a verdade e o sentimento de não estarem sozinhas ou loucas são contagiantes - e poderosos.

E, recentemente, a ousadia dessas mulheres começou a dar valiosos frutos. O afastamento e subsequente demissão do CEO da Uber, Travis Kalanick, e todo o seu alto escalão, é uma delas. A empresa nada mais é que a mais valiosa startup do mundo e finalmente precisou encarar uma merecida crise após anos de denúncias de discriminação, abusos e até perseguição de jornalistas.

O estopim, definitivamente, foi a carta escrita por uma ex-funcionária, Susan J. Fowler. Ela narrou suas impressões sobre o tempo que passou na empresa e as situações de machismo que sofreu e denunciou sem encontrar qualquer apoio em seus líderes ou na área de recursos humanos.

Desde então, a situação apenas piorou. Uma auditoria externa foi contratada para tentar reverter a crise. Após meses de investigação, emitiu rigorosas recomendações a serem seguidas integralmente. Entre elas, a queda do clube do bolinha responsável por deixar a situação chegar a esse ponto.

Quando as primeiras denúncias graves contra a Uber começaram a surgir em 2014, a reputação de empresas do Vale do Silício permaneciam intocadas pela indignação de funcionárias e ex-funcionárias

Outro excelente (e rápido) resultado foi conquistado pela coragem de uma empreendedora chamada Niniane Wang. Em 2010, ela foi assediada por um investidor chamado Justin Caldbeck. Ela é de descendência asiática e teve notícia de outras duas mulheres, de características físicas semelhantes às de sua etnia, também haviam sido vítimas de Justin. Por muitos anos, ela não soube o que fazer com essas informações e foi desaconselhada a denunciar, pois isso abalaria sua carreira.

Até que uma jornalista entrou em contato com ela para uma matéria sobre o assediador e ela decidiu falar. Usando seu próprio nome e colocando seu futuro em risco, queria no mínimo alertar outras mulheres para que não fossem também assediadas por ele.

"Eu pensei que se o artigo aparecesse nos resultados de busca, mulheres que jogassem o nome dele no Google poderiam ver e decidir encontrá-lo em locais públicos, onde seria mais difícil para ele agarrá-las. Ou, se algo acontecesse, que elas poderiam fazer uma busca pelo seu nome e descobrir que ao menos não foram as únicas, que não pediram por isso", contou Niniane em sua página no Facebook.

Outras duas mulheres, Susan Ho e Leiti Hsu, também decidiram falar publicamente. Em menos de um dia, ele foi compartilhado por profissionais de todo o Vale do Silício, levando Justin a pedir afastamento de seu cargo com uma carta de desculpas (escrita por uma agência de relações públicas, diga-se) na qual assume seus erros.

Há dois anos atrás, quando Ellen Pao perdeu o processo que abriu contra a empresa de investimentos Kleiner Perkins Caufield & Byers por discriminação de gênero, tudo isso era inimaginável. Mesmo quando as primeiras denúncias graves contra a Uber começaram a surgirem 2014 (a saber, a caça orquestrada por Emil Michal à jornalista Sarah Lacy), a reputação de empresas do Vale permaneciam intocadas pela indignação de funcionárias e ex-funcionárias.

Até hoje não temos uma mulher do mercado de tecnologia cuja influência chegue perto de Mark Zuckerberg, Bill Gates ou mesmo do agora desaplaudido Travis Kalanick.

A cobertura da imprensa sobre o fenômeno também não é necessariamente recente. Para citar dois exemplos marcantes, em janeiro de 2015, a revista Newsweek publicou a extensa matéria "O que o Vale do Silí­cio pensa sobre mulheres".

Quase um ano depois, a pesquisa The Elephant in the Valley conversou com 200 mulheres em cargos de confiança na região e revelou que 60% delas afirmavam já ter sofrido assédio sexual no trabalho, além de terem vivido situações como ser solenemente ignoradas em reuniões quando acompanhadas por colegas homens.

Basicamente, nada disso é novidade - muito menos para as mulheres. A pesquisadora e filósofa política Djamila Ribeiro escreveu recentemente sobre o mito da "mulher moderna": "Para Beauvoir e diversas feministas negras como Angela Davis, a emancipação precisa ser radical. Não é emancipação iludir-se com novas tecnologias, enquanto persiste a divisão sexual do trabalho, enquanto o eterno feminino se impõe." Em outras palavras, e aplicando este raciocínio ao contexto do Vale, não há nada de novo em uma indústria que reproduz sistemas de opressão de gênero milenares meramente adaptadas para o mercado de trabalho atual.

Até hoje não temos uma mulher do mercado de tecnologia cuja influência chegue perto de Mark Zuckerberg, Bill Gates ou mesmo do agora desaplaudido Travis Kalanick. Esse desprestígio não precisa de um nome novo e descolado: é o velho machismo de sempre trabalhando para cercear oportunidades e afastar mulheres de clubinhos liderados por homens, pois elas costumam ter este hábito terrível de exigir respeito e não compactuar com a própria desgraça.

E, enquanto ele reinar em espaços de tecnologia, nem mesmo os mais altos investimentos em realidade virtual vão salvar os nossos tempos da idade das trevas. Pelo contrário, as maiores revoluções estarão nas vozes daquelas que romperem o silêncio sobre as vilipendiosas práticas do berço da tecnologia.

*Este artigo é de autoria de colaboradores ou articulistas do HuffPost Brasil e não representa ideias ou opiniões do veículo. Mundialmente, o HuffPost oferece espaço para vozes diversas da esfera pública, garantindo assim a pluralidade do debate na sociedade.

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