OPINIÃO

Na reação às denúncias de estupro, fãs devem manter em mente que não são eles as vítimas

"Precisamos não cair na armadilha desse luto que nos cobre ao descobrirmos que algum diretor de cinema é um estuprador."

16/11/2017 15:38 -02 | Atualizado 16/11/2017 15:38 -02
Montagem
Woody Allen, Harvey Weinstein e Kevin Spacey são acusados de estupro e assédio.

Gente, por favor. No bojo das acusações de crimes sexuais cometidos por tantos famosos de Hollywood, minhas timelines se tornaram um muro das lamentações de fãs órfãos. "FULANO TAMBÉM!?", perguntam, incrédulos, ao se deparar com a notícia de que um ídolo foi acusado de assediar ou abusar de uma mulher.

Acreditem, eu sei por experiência própria o quanto essas descobertas podem ser chocantes. Mas, poxa, nós já estamos há tanto tempo falando sobre a prevalência do estupro e do assédio na vida das mulheres, será que somos assim tão inocentes de acreditar piamente nas personas públicas dos homens de Hollywood, como se o fato de os vermos apenas em momentos de ficção e representação os isentasse de uma vida particular permeada de violações da intimidade alheia?

Estamos falando de homens poderosos, blindados por sua fama em uma indústria famosa por histórias que se abafam nos bastidores. Não sejamos inocentes. É verdade que dói muito descobrir que alguém por quem nutrimos algum tipo de admiração seja um maníaco sexual, mas isso não nos torna vítimas enquanto fãs.

Durante muito tempo, eu me peguei refletindo sobre a questão de separar o homem da obra. Mas depois de um tempo, eu percebi que poderia ter economizado muita mufa no processo ao chegar à conclusão de que é preciso abandonar esses homens e tudo o que eles já produziram como se fosse uma casa pegando fogo. Estamos em pleno século XXI, no auge do entretenimento, não faltarão conteúdos midiáticos produzidos por não-criminosos para saciar a nossa sede de filmes, séries, músicas e afins.

Se temos um compromisso real em tornar o mundo um lugar mais seguro para mulheres e vítimas de assédio, precisamos também não cair na armadilha desse luto que nos cobre ao descobrirmos que algum diretor de cinema, por exemplo, é um estuprador.

Porque quando se coloca o foco na dor que sentimos, é como se a grande traição fosse, na verdade, contra o fã: como ousa este homem trair a minha confiança? Mas que droga, agora vou sentir culpa assistindo meus filmes preferidos! Você não podia ter feito isso comigo!

De forma geral, temos poucas oportunidades de demonstrar claramente o nosso apoio a vítimas de violência sexual, e o abandono completo da produção artística de predadores sexuais certamente é uma delas. Por melhores que possam ser os filmes do Woody Allen, não dá pra fechar com um cara que, além do seu passado tenebroso, ainda teve a pachorra de defender o Harvey Weinsten.

Não estou chateada porque não posso mais ver filmes do Brett Ratner já que ele é um estuprador, estou chateada porque um estuprador teve a oportunidade de produzir e dirigir filmes milionários às custas do silêncio de suas vítimas - há uma relevante diferença.

Se acreditamos e apoiamos as pessoas que sofreram as violências denunciadas, a nossa tristeza por não nos sentirmos mais confortáveis de ser fãs de quem as violentou não significa absolutamente nada. Essa tragédia é 100% sobre quem a sofreu na pele e busca justiça, não sobre nós que, com um mínimo de esforço, podemos encontrar outros ídolos na miríade de possibilidades que o entretenimento oferece.

*Este artigo é de autoria de colaboradores ou articulistas do HuffPost Brasil e não representa ideias ou opiniões do veículo. Mundialmente, o HuffPost oferece espaço para vozes diversas da esfera pública, garantindo assim a pluralidade do debate na sociedade.

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