OPINIÃO

#EuTambém - e daí?

Que não sejam necessárias décadas de violência e dezenas de mulheres para que, finalmente, algum senso de justiça se manifeste.

25/10/2017 18:41 -02 | Atualizado 25/10/2017 18:41 -02
Mike Blake / Reuters
O produtor de cinema americano Harvey Weinstein foi acusado de ter assediado mais de 30 mulheres.

Até o momento, mais de 30 mulheres já declararam ter sido assediadas ou abusadas sexualmente pelo agora desonrado megaprodutor Harvey Weinstein. Nomes de peso como Angelina Jolie e Lupita Nyong'o estão entre as vítimas.

A comoção resultou em um verdadeiro chacoalhão na indústria cinematográfica em relação à prevalência desse tipo de prática, com outros agressores também sendo identificados. Mulheres do mundo inteiro se uniram sob a hashtag #metoo (#eutambém, em português) para conscientizar amigos e conhecidos sobre o fato de elas, também, terem passado por essa situação, salientando que é muito comum na sociedade.

Nos últimos quatro anos, acompanhei bem de perto escândalos e campanhas similares. Honestamente, entre os muitos artigos e tapinhas nas costas celebrando a coragem das mulheres em compartilhar suas histórias, tento focar a minha atenção nas mudanças reais que toda essa comoção vai deixar de legado e me preocupo com mais um pedestal criado para mulheres - dessa vez, com bases sólidas fincadas na violência.

De forma alguma eu pretendo esvaziar a importância desse tipo de manifestação. Depois de tantas campanhas de sucesso (#primeiroassédio, #meuamigosecreto, entre outras mundo afora), sabemos de cor e salteado quão poderoso é encontrar espaço para falar sobre assuntos que a sociedade prefere nem ouvir.

Cada mulher que se manifesta, seja em um post no Facebook, em uma mesa de bar ou grupo do WhatsApp, ajuda a normalizar esse ato, mostrando que pode acontecer com qualquer uma de nós, e inspira outras vítimas a fazer o mesmo.

A coragem está no fato de que esse tipo de denúncia pode ter consequências negativas - uma mulher, caso diga o nome do seu acusador, pode até mesmo ser processada por isso, além do risco de sofrer o estigma que o machismo coloca sobre as vítimas, culpabilizando-as.

Afinal, essa é a engrenagem por trás do silêncio que não nos protege e serve de escudo para predadores. Por isso, quanto mais mulheres se sentirem seguras para contar suas histórias, melhor conseguiremos pintar um quadro realista sobre as violência que sofremos em nosso dia a dia.

Dito isto, começo a questionar quantas vezes teremos que repetir essas histórias e nos deparar massivamente com elas nas redes sociais até que fique esclarecido de uma vez por todas que a violência sexual é uma epidemia da qual as mulheres são as principais vítimas.

Porque, mais uma vez, somos nós colocando o nosso emocional pra jogo em uma tentativa, a grosso modo, de comover homens em relação a agressões que vêm deles mesmos. Obviamente existe o aspecto de inspirar e alertar outras mulheres sobre o que elas também sofrem.

Mas, em última instância, por mais que 100% das mulheres do planeta estejam alinhadas em relação aos males do machismo, somente uma mudança de mentalidade dos agressores vai nos libertar da condição de vítimas.

São depoimentos emocionantes, mas desagradáveis tanto para quem escreve quanto para quem lê. Lá vamos nós, vítimas, revisitar momentos em que alguém se sentiu no direito de violar nossa privacidade, nossa intimidade. Reviver e compartilhar - sob o risco de sermos questionadas - o que preferiríamos esquecer.

E lá vamos nós, mulheres, aprender que amigas que amamos viveram violências terríveis e nós, impotentes, não pudemos ajudar. Além disso, tenho a impressão de que esse número gigantesco de mulheres (meio milhão em um dia) nos faz sentir ainda menores ao nos colocar diante de um leviatã - mas o esforço para lançar luz sobre ele não pode ser em vão e morrer em um resumo das 10 histórias mais chocantes em uma lista do Buzzfeed.

Trump é presidente. Cosby não está preso. Aqui no Brasil não estamos nem perto de uma denúncia desse calibre em nosso meio artístico. Desde que a história do Harvey saiu, outros homens foram acusados de crimes similares. E o que aconteceu com eles? Harvey escreveu uma carta pedindo desculpas e foi fazer terapia.

É claro que a desgraça profissional dele é uma vitória gigantesca, bem como sua abominação pública, mas ele foi acusado de estupro e, com razão, está sendo investigado pelas polícias de Londres, Los Angeles e Nova York - porque isso é um crime e ele tem que ser preso. Isso, sim, seria um excelente resultado para essa comoção: ver um colosso como Harvey Weisntein, um colecionador de Oscars, atrás das grades.

Também espero, de coração, que mesmo uma só vítima seja suficiente para derrubar alguém tão poderoso quanto o Harvey. Que não sejam necessárias décadas de violências e dezenas de mulheres para que, finalmente, algum senso de justiça se manifeste. E que seja no âmbito criminal, e não apenas no social que, apesar de ser uma grande vitória, ainda está longe de ser o suficiente.

*Este artigo é de autoria de colaboradores ou articulistas do HuffPost Brasil e não representa ideias ou opiniões do veículo. Mundialmente, o HuffPost oferece espaço para vozes diversas da esfera pública, garantindo assim a pluralidade do debate na sociedade.

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