OPINIÃO

Como o feminismo branco de Hollywood apagou personagens negras de histórias originais

Precisamos lutar para que os filmes não mais apaguem as discussões de raça e sua relevância na experiência do que é ser uma mulher nesse mundo.

29/06/2017 14:35 -03 | Atualizado 29/06/2017 14:36 -03
Divulgação
Os filmes 'Mulher Maravilha' e 'O Estranho que nós amamos' apagam personagens negras das histórias originais.

Três grandes produções recentes de Hollywood foram laureadas como sendo feministas, mas propositalmente apagaram ou diminuíram a presença de mulheres negras a um mínimo inegavelmente suspeito: a série da The Handmaid's Tale, da Hulu; e os filmes Mulher Maravilha, dirigido por Patty Jenkins, e O Estranho que nós amamos, de Sofia Coppola. Será coincidência ou racismo?

É preciso mesmo bater nessa tecla e fazer esse recorte. Concordo com uma amiga, que celebrou muito o filme da Mulher Maravilha, nos comentários que fez sobre as críticas advindas do fato da atriz Gal Gadot, que estrela o longa, ser sionista. E o fato de muitos homens (machistas e inconformados) estarem se aproveitando disso para gongar o filme. Para ela, esse mesmo deve ser usado também com atores e diretores sionistas de Hollywood, não apenas com Gal.

Justo. Ainda assim, entendo que quando se tratam de produções feministas, seremos severas nos julgamentos porque feminismo simplesmente não é bagunça. O feminismo negro não está aí há literalmente séculos lutando por seu espaço e reconhecimento para, em pleno 2017, ainda se ver mais uma vez excluído do movimento.

A adaptação do clássico e distópico livro O Conto da Aia, de Margaret Atwood, para a tevê retrata um universo no qual mulheres são apenas receptáculos para bebês em um Estados Unidos transformado em Gilead, sob um regime totalitário e fundamentalista. Qualquer semelhança com a realidade não é mera coincidência, já que os retrocessos em direitos reprodutivos têm avançado a passos largos durante o mandato de Donald Trump. Por isso mesmo, o lançamento da série foi muito aclamado por dar mais visibilidade a uma obra tão visionária dos anos 70.

O problema é que, apesar de endereçar as agruras da tomada total de direitos femininos, os produtores decidiram não incluir raça como um fator determinante na história. Há aias negras e o grande lance é que elas são tratadas da mesma forma que as brancas nesse cenário. É como se a escolha do casting "não visse cor" - todas as mulheres são igualmente subjugadas pelo sistema.

Entendo como pode ser novidade para alguns de vocês que pessoas sejam vítimas de sistemas legitimados por sua nação, compatriotas, e deus. Mas eu sou preta e mulher e sulista. Isso pra mim é uma terça-feiraTressie McMillan Cottom

Apesar de ser ficção que se passa em um futuro distópico, não existem razões para se imaginar que, no dilema proposto, o racismo tenha sido abolido, mas o machismo não. Ignorar esse elemento, especialmente em tempos de Black Lives Matter, igualando as dificuldades enfrentadas por mulheres brancas e não brancas é no mínimo insensível e, na melhor das hipóteses, conveniente.

A literatura ocidental possui mesmo uma linhagem de clássicos que comovem multidões sob a seguinte hipótese: "Mas e se essa tragédia tivesse acontecido com os brancos?". O livro Guerra dos Mundos, escrito em 1897 por H.G. Wells, poderia ser resumido em um tweet: "E se os marcianos fizessem com a Inglaterra o que os ingleses fizeram com a Tasmânia?", em referência à colonização inglesa da ilha.

No caso de O Conto da Aia, a socióloga afro-americana Tressie McMillan Cottom, foi certeira ao dizer: "Entendo como pode ser novidade para alguns de vocês que pessoas sejam vítimas de sistemas legitimados por sua nação, compatriotas, e deus. Mas eu sou preta e mulher e sulista. Isso pra mim é uma terça-feira".

Já o filme da Mulher Maravilha foi alvo de críticas pelo pouco ou quase nenhum destaque a personagens negras, mesmo que nos quadrinhos existam mulheres que eram importantes na história. O filme foi um sucesso de bilheteria e celebrado por tudo o que representa para as mulheres, mas de que mulheres estamos falando?

A ideia de que devemos celebrar qualquer avanço solitário de mulheres brancas como se elas representassem todas as mulheres é uma afronta ao feminismo. É a mesma lógica racista das sufragistas americanas que deliberadamente se opuseram a lutar pelo direito das negras ao voto. Que conquista é essa que contempla apenas o mais privilegiado grupo de mulheres desse nosso mundinho ocidental?

Para fechar a tríade, a diretora Sofia Coppola está lançando seu novo longa, O estranho que nós amamos. A história se passa no sul dos Estados Unidos em plena Guerra Civil, em uma casa na qual vivem sete mulheres. Todas são brancas. O livro no qual o roteiro foi inspirado, A Painted Devil, traz uma mulher negra escravizada como parte importante da trama. Mas Sofia decidiu excluir essa personagem e justificou sua escolha dizendo que "queria focar nas questões de gênero, não de raça".

Além disso, a diretora disse ao Buzzfeed que "não queria passar por cima de um tópico tão importante de forma leve. (...) Garotas jovens assistem meus filmes e essa não era a maneira que eu queria retratar uma personagem Afro-Americana".

Ninguém disse que ela precisaria tocar no assunto de forma superficial e é mesmo muito conveniente se dizer atraída por uma história feminina, desde que todas as personagens sejam da sua cor. É conveniente também que ela tenha a liberdade de evitar um assunto chato: o fato de que mulheres brancas foram cúmplices na escravidão do povo negro, no mínimo.

Eu lembro de quando a atriz de Game of Thrones, Maisie Williams, se viu em apuros ao afirmar que devemos deixar de chamar as pessoas de feministas. Ela defende que o feminismo deve ser o pensamento básico, e que deve-se nomear e apontar quem é sexista. Realmente foi uma declaração equivocada, pois no mundo em que vivemos, claramente ainda precisamos falar muito em feminismo até que ele seja o padrão. Mas, usando essa lógica, devemos parar de chamar de feministas filmes e produções que não sejam interseccionais.

Eu sei o quanto somos carentes de ver boas representações femininas no cinema, mas eu não me tornei feminista para ver bons filmes. Eu me tornei feminista porque acredito que o mundo precisa melhorar -e muito - para todas as mulheres, especialmente aquelas cuja existência soma ainda outras camadas de opressão. Não dá pra bater no peito e se dizer interseccional para depois minimizar importantes questões de representatividade em obras que estão faturando - e muito - às custas do movimento.

Se o momento atual de Hollywood é mesmo uma conquista do tanto que já reclamamos até aqui e lhes estendermos o benefício da dúvida, nosso dever é continuar criticando até que os filmes melhorem. E deixem, por exemplo, de apagar as discussões de raça e sua relevância na experiência do que é ser uma mulher nesse mundo.

*Este artigo é de autoria de colaboradores ou articulistas do HuffPost Brasil e não representa ideias ou opiniões do veículo. Mundialmente, o HuffPost oferece espaço para vozes diversas da esfera pública, garantindo assim a pluralidade do debate na sociedade.

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