OPINIÃO

A grande falha de 'Master of None'

Atenção: contém spoilers!

24/05/2017 14:31 -03 | Atualizado 24/05/2017 14:34 -03

Aziz Ansari criou um seriado gostoso de assistir e no qual as críticas sociais fazem parte do roteiro de forma leve, quase didática. Entretanto, a escolha de suas principais parcerias de cena mostram que ele ainda precisa incorporar seus discursos ao roteiro para além de sacadinhas bem elaboradas.

Eu tenho uma relação estranha com seriados. Mesmo que eu não goste muito da história, continuo assistindo a algumas simplesmente porque gosto da forma como elas são contadas. É o caso de Love, da Netflix, cujas personagens são absolutamente detestáveis em diversos momentos. Mas algo me prende na narrativa e na estética, e eu acabo assistindo a tudo em maratonas não planejadas.

Master of None é outra dessas. Apesar de a história ser muito melhor, algo me incomoda na forma como o Aziz gosta de se pintar como o cara mais fofo e desconstruído do mundo, trazendo um olhar crítico sobre sua origem indiana, por exemplo, mas permanece preso a muitos de seus privilégios masculinos.

Digo isso porque, tendo terminado de assistir à segunda temporada, ainda estou muito surpresa de enxergar na Francesca uma perfeita manic pixie dream girl — uma expressão, que aparentemente não se usa mais, para descrever personagens femininas que existem apenas para preencher a vida do protagonista de sentido e alegria, cuja existência basicamente se resume a ser uma companheira perfeita e unidimensional.

Ou, como diria o único artigo que li sobre o assunto até o momento, uma euro pixie dream girl. E, se você não quer spoilers, melhor parar por aqui e voltar depois.

É muito frustrante ver como Dev, interpretado por Ansari, somente se apaixonou por mulheres brancas, magras e absolutamente dentro dos padrões de beleza hollywoodianos. E, nessa segunda temporada, seu par romântico tenha sido alguém com quase nenhuma personalidade.

Francesca é a fantasia que se tem de certas mulheres da Europa Ocidental: belíssima, mas humilde e simples no jeito de ser, divertida de maneira leve, quase inocente, e absolutamente chique sem parecer que isso seja um esforço ou que ela se importe com isso.

De certa forma, Francesca me fez lembrar de um outro clichê feminino dos filmes de ficção científica: as personagens de Born Sexy Yesterday (ou "Nascidas Sexy Ontem"), sobre as quais o canal Pop Culture Detective fez uma excelente análise.

Essas mulheres são aliens, sereias, programas de computador; enfim, seres não-humanos com corpos femininos bem dentro do que Hollywood interpreta como sensual. Mas, por terem sido recém-criadas ou simplesmente estarem fazendo seu primeiro contato com pessoas da nossa civilização, possuem uma personalidade e uma mente muito infantis, aprendendo com os protagonistas como o mundo funciona e, na maioria dos casos, também o amor.

É o caso da Leeloo de O Quinto Elemento, da Quorra de Tron: O Legado e até mesmo da Madison, a sereia de Splash: Uma Sereia em Minha Vida. Todas lindas, sensuais e eventualmente desnudas, mas inocentes de tudo. Meninas em corpos de mulheres.

Precisamos falar sobre o outro lado da equação: os heróis masculinos. Tipicamente, ele é um homem direto e viril que, por razões aleatórias, encontra-se sozinho ou insatisfeito com o amor. Ele se sente destituído de direitos ou, quem sabe, sem direção. Ele não consegue ou não quer uma mulher do seu próprio mundo, uma mulher que seja sua igual no que tange ao amor e à sexualidade. Mas ele tem uma coisa a seu favor: ele sabe tudo sobre viver a vida como um ser humano normal. Com certeza, qualquer outro cara na Terra também sabe, o que deveria torná-lo indiferente. Exceto para uma mulher que nasceu ontem, porque como ela presumivelmente nunca conheceu outro homem, ele lhe pareceria como o mais esperto e maravilhoso cara em todo o universo.

A descrição acima, retirada do vídeo citado anteriormente, se encaixa como uma luva em relação à presença de Francesca na vida de Dev. Só que, em vez de vir de outro planeta, ela veio da Itália, país sobre o qual Aziz obviamente tem verdadeira obsessão.

O passado dela é tão vazio de experiências que poderia facilmente se comparar com qualquer Born Sexy Yesterday: vem de uma minúscula cidade italiana, começou a trabalhar fazendo massas com a avó e nunca perseguiu seus sonhos ou concluiu seus estudos, começou a namorar o noivo aos 18 anos e ele foi o único homem de sua vida.

Aos olhos dela, Dev, que no contexto novaiorquino é apenas mais um sujeito lutando para ter sucesso, torna-se a pessoa mais interessante do mundo simplesmente por viver em uma das cidades mais vibrantes do planeta, saber tudo sobre ela e ser bem relacionado por lá.

Em alguns momentos cheguei a me encolher de vergonha porque simplesmente não acredito que alguém possa ser tão desatento —  a não ser que você seja cruel. No episódio "Armasi Un Po", é absolutamente óbvio o quanto Dev está encantado por Francesca e ela continua a agir como se não tivesse a capacidade de entender o que acontece ao seu redor.

Ela não oferece qualquer desafio ou entrega emocional crítica sobre o que os dois estão vivendo juntos, exceto a partir da festa em que Arnold toca como DJ. E, se isso não se der pelo fato de ela realmente ser a personagem vazia e cuca fresca alienada que aparenta ser, então Francesca é, na verdade, muito dissimulada  —  e é difícil acreditar nessa possibilidade conforme ela e Dev passam a conversar abertamente sobre os seus sentimentos.

Master of None é uma série light, quase uma comédia romântica com uma estrela fora do comum, e por isso aceito suas licenças poéticas. Ao mesmo tempo, estamos falando de pessoas com mais de 30 anos aqui. Francesca é vítima de todos os clichês améliepolânicos que se possa imaginar: festa de dança do pijama (sóbria!), uso de camisa branca masculina que fica enorme nela, deitar juntinhos embaixo de uma árvore, encantar-se por algo absolutamente mundano como uma farmácia, falar erradinho de maneira fofa, beijo com vidro no meio... São poucos momentos em que ela age como a adulta que é  —  e isso é justificado pelo passado que deram a ela.

Vale ressaltar minha total compreensão de que nem todas as mulheres são iguais e algumas são mesmo assim inocentes, suaves, doces.

O que me incomoda é que, em geral, apenas elas e essas características dominam a maior parte das personagens femininas escritas com o intuito de ser o interesse romântico em produções audiovisuais. O filme francês A Delicadeza do Amor, por exemplo, foi capaz de trazer como par romântico para a protagonista de Audrey Tatou um homem que, ocupando este espaço, conseguiu ser encantador e um encaixe perfeito para ela ainda que não fosse particularmente um galã ou tivesse os predicados tradicionais dos mocinhos do cinema. Ele era um cara real e complexo. Simples, mas não simplório. Por que é tão difícil que o mesmo aconteça com as mulheres?

E, se digo tudo isso, é porque muito me entristece ver algo assim na série do Aziz. Às vezes penso que ele está se tornando uma espécie repaginada de Woody Allen ao escolher para si pares românticos que seriam bem improváveis na vida real.

Hollywood tem um longo histórico de mulheres estonteantes ao lado de homens absolutamente comuns. E o que acaba nos distraindo aqui é o fato do Aziz ser um cara indiano que fala sobre machismo e racismo, superdesconstruído, mas a série ganharia muito se os interesses românticos dele fossem mulheres que, assim como ele, estivessem fora dos padrões de Hollywood.

Mulheres não brancas, por exemplo, aparecem diversas vezes nessa segunda temporada e ele até mesmo se encanta por algumas, como é o caso do primeiro episódio e daquele intitulado "First Dates" (curiosamente, apesar de tentar com as outras, ele só transa com a mina branca).

Não estou dizendo que Master of None seja necessariamente racista, apenas admito ter grandes expectativas sobre a série e um forte desejo de que acertem a mão. Afinal, é mesmo um dos poucos seriados dispostos a falar abertamente sobre assuntos que me são muito caros, como discriminação e assédio  —  e muito disso vem do próprio Aziz. E aí penso na carta que Yasmin Thayná escreveu para o ator Lázaro Ramos, na qual fala sobre essa cobrança:

Será que um ator ou atriz que não seja negro convive com o mesmo nível de cobrança que vocês? Será que nós — admiradores, fãs, acadêmicos, artistas, escritores, jovens, estudantes  —  pessoas negras em geral que cobramos tanto dos nossos representantes, ou seja, daqueles que nos geram identificação e de quem dizemos "você me representa", cobramos na mesma altura às pessoas brancas que mantêm seus privilégios e dizem não ter nada a ver com isso? Por que atribuímos toda a responsabilidade da luta antirracista a nós e àqueles que "nos representam"? Por que todas as pessoas negras precisam ter falas, posturas e atuações dentro da militância que a gente quer e não na atuação que cada um escolhe para si?

No fim das contas, apenas acredito que amor também pode ser um ato político, e a representatividade de casais compostos por pessoas não brancas na mídia é algo que quase não se vê. É legal falar sobre o que as mulheres passam em aplicativos de relacionamento, mas também é rico usar seu próprio personagem para normalizar o amor por uma mulher que não seja uma cópia moderna das musas do cinema italiano.

Não sou só eu que estou dizendo: recentemente, diversos casais utilizaram hashtag #POCInLove para compartilhar fotos juntos. A tag foi lançada pela conta @PoCBeauty e sua criadora contou para o BuzzFeed News que tomou a iniciativa porque "não há muitas histórias por aí sobre casais que sejam árabe e negro ou filipino e mexicano ou apenas casais de negros com negros e asiáticos com asiáticos".

Eu teria ficado muito mais feliz se pudéssemos ter acompanhado o relacionamento de Dev com a inglesa que ele conhece no primeiro episódio não apenas pelo fato de ela ser negra, mas porque ela era vivida, corajosa, experiente, sagaz e muito mais interessante que a simplória e mal escrita Francesca.

O recado final do Pop Culture Detective para escritores de ficção científica talvez também deva se expandir para outros gêneros: chega de pintar inocência como sexy  —  conhecimento (não apenas em geral, mas sobre quem se é e o que se quer) é sexy, maturidade é sexy.

*Este artigo é de autoria de colaboradores ou articulistas do HuffPost Brasil e não representa ideias ou opiniões do veículo. Mundialmente, o HuffPost oferece espaço para vozes diversas da esfera pública, garantindo assim a pluralidade do debate na sociedade.

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