OPINIÃO

O fim do Movimento Olímpico brasileiro?

Rio 2016 sob investigação. Nuzman preso. Comitê Olímpico Brasileiro suspenso. Seria esse o fim do Movimento Olímpico no Brasil?

09/10/2017 10:55 -03 | Atualizado 09/10/2017 11:01 -03
Bruno Kelly / Reuters
Ingenuidade seria pensar que o COI faria algo diferente diante do lodo que afunda o seu "maior tentáculo" na América do Sul.

Confesso que relutei mentalmente em escrever sobre o assunto. Falar dos fatos depois do acontecido sempre tem um quê de oportunismo na visão de quem "sempre" exigiu por mais transparência na gestão do esporte Olímpico no Brasil.

Mas sou daqueles que "morre pela boca" e, para a minha satisfação pessoal, posso dizer que na minha caminhada profissional e dentro dos estudos olímpicos nunca precisei de favores de quem hoje dorme com dificuldades.

Dito isso, a notícia da prisão do presidente do Comitê Olímpico Brasileiro (COB) e do Comitê Organizador dos Jogos Olímpicos Rio 2016, Carlos Arthur Nuzman, não chega a ser surpreendente. Principalmente depois que a Operação Unfair Playentrou em ação para revelar as entranhas das relações de poder na compra de votos para a cidade do Rio de Janeiro ser escolhida a tão sonhada sede dos primeiros Jogos Olímpicos na América Latina.

Diante do maior escândalo de corrupção no sistema de escolha de sedes Olímpicas desde a candidatura da cidade americana de Salt Lake para os Jogos de Inverno em 2002, o Comitê Olímpico Internacional (COI) obviamente foi impiedoso. Disparou sua "bala de prata" naquele que seria o coração do Movimento Olímpico brasileiro, suspendendo o COB.

Ingenuidade seria pensar que o COI faria algo diferente diante do lodo que afunda o seu "maior tentáculo" na América do Sul. Quem estuda a história do COI sabe que ele (salvo raríssimas exceções) jamais foi uma entidade proativa ou até mesmo revolucionária na maneira de se pensar o esporte. Profissionalismo esportivo, mulheres no esporte, proteção da marca olímpica, antidoping e impacto ambiental são alguns exemplos nos quais o COI "agiu" após o acontecido.

Atualmente, o produto "Jogos Olímpicos" está tão em baixa entre a Geração Y que o COI resolveu "inovar" no inchado programa olímpico e incluiu os "esportes radicais" como o surfe e o skate em 2020 no Japão; e já estuda a inclusão de e-sports em 2024.

A Agenda 2020 também pode ser pensada como a "grande solução" do COI para a falta de credibilidade do seu produto, rejeitado inúmeras vezes em consultas populares de cidades pré-candidatas a sediar o "maior espetáculo esportivo do planeta".

Então, diante da promessa de que o Rio 2016 foi o último "megaevento" olímpico que sangrou os cofres públicos de uma cidade-sede, o COI foi lá, colocou em baixo do tapete a mea-culpa e tirou o pequeno esparadrapo que cobria essa ferida aberta e dolorida; afastou Nuzman, suspendeu o COB e acabou com qualquer relação com o Comitê do "Rio 2016".

Seria esse o fim do Movimento Olímpico no Brasil?

A "infecção generalizada" que tomou conta da maior instituição olímpica no País, não representa de maneira efetiva o Movimento Olímpico brasileiro. Esse é (felizmente) maior que os Jogos Olímpicos Rio 2016 e o próprio COB.

Existem espalhados pelo nosso país iniciativas que procuram ir muito além do "ouro". Ações socioeducativas através do esporte que atuam na "verdadeira ferida" brasileira, com crianças e adolescentes em situação de vulnerabilidade.

Projetos como a Vila Olímpica da Maré no Rio de Janeiro e da Fundação Tênis em São Paulo e no Rio Grande do Sul são exemplos desse universo de instituições e profissionais que acreditam no valor educacional do esporte. Não para aumentar a posição do Brasil no quadro de medalhas, mas para quem sabe fazer a diferença na hora em que o jovem brasileiro é convocado para o tráfico de drogas e para a criminalidade.

Mas esse "Movimento Olímpico" por muitas vezes teve no COB uma porta fechada. O fato de ser a instituição guardiã do "Movimento" no Brasil quase sempre significava protecionismo contra a "marca" olímpica. E de tanto "proteger" o que era "seu", o COB hoje se tornou uma antítese olímpica.

Dessa forma, a suspensão do COB é uma oportunidade de rever aquilo que o fundador do COI e dos fundamentos da filosofia olímpica, Pierre de Coubertin, pensava lá em 1913:

"Para que cem se dediquem à cultura física, cinquenta têm de praticar desporto; para que cinquenta pratiquem desporto, vinte têm de se especializar; para que vinte se especializem, é necessário que cinco se mostrem capazes de realizar proezas extraordinárias"

O que Coubertin queria dizer com essa frase é que a "pirâmide olímpica" deveria ser sempre voltada para a educação através do esporte. No sentido Darwiniano das coisas, o atleta de alto-rendimento é parte de uma "seleção natural" daqueles treinados para competir.

E a "verdadeira nação olímpica" seria reflexo de um sistema de investimento na educação esportiva e não somente pela distribuição de "incentivos" para atletas já consagrados.

Dessa forma, o sentimento ao ver "heróis ou heroínas" subindo na posição mais alta do pódio, ao som de um pujante hino nacional, seria mais do que um ato patriótico-nacionalista; serviria para inspirar jovens a aderir ao esporte e realmente representaria a vitória de um todo – e não as raras exceções, reflexos quase do acaso e do esforço de atletas e seus familiares.

Portanto, é necessário que se entenda quem deve receber prioritariamente o "ouro" Olímpico na sociedade brasileira. A suspensão do COB abre uma oportunidade única de se mudar todo sistema que envolve o esporte Olímpico no nosso país. Uma estrutura de esporte baseado nos valores, fortalecendo a nossa cultura esportiva e sendo a ferramenta educacional que tanto precisamos no Brasil.

O "movimento" olímpico preconizado pelo COB está suspenso. Basta saber se isso representará a troca por um outro com ême maiúsculo.

*Este artigo é de autoria de colaboradores ou articulistas do HuffPost Brasil e não representa ideias ou opiniões do veículo. Mundialmente, o HuffPost oferece espaço para vozes diversas da esfera pública, garantindo assim a pluralidade do debate na sociedade.

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