OPINIÃO

Por que nunca mais criticarei outros pais

10/08/2014 15:39 -03 | Atualizado 26/01/2017 21:46 -02

"Não há crianças difíceis, há apenas pais que não sabem administrá-las." É o que ouvimos às vezes durante um almoço de família, em compras no supermercado ou na sala de espera do médico. Durante anos eu fiz parte dessas pessoas que pensavam que uma criança não devia ter uma chupeta na boca depois de 2 anos, ser empurrada em um carrinho depois dos 3 e ter crises na rua. Eu olhava com um ar crítico para esses pais que pareciam antiquados (enquanto, na verdade, talvez não sejam).

Depois eu tive filhos.

Primeiro foi Mia, que dormiu à noite desde que saiu da maternidade, que sempre comeu bem, que nunca usou chupeta (30 segundos para dormir durante alguns meses, no início) e que nunca teve uma crise em uma loja (pensando bem, nem em casa).

Isso me confortou na ideia de que era apenas um problema dos pais. Que tínhamos feito boas opções, que tínhamos um pouco de sorte e que - mágica! - tínhamos uma filha muito bacana. Eu pensava que era simplesmente isso. Ainda nesse período, às vezes critiquei outros pais.

Depois veio Adam. Aquele de quem diziam meses antes do nascimento: "Você vai ver, com ele não será tão simples". Eu queria estrangular essas pessoas, hoje, essas bruxas. Adam levou três meses para dormir à noite (o que não é nada, para falar a verdade) e de repente tinha uma personalidade "brava". É uma criança que não se pode contrariar, que não suporta a frustração (em particular a de não conseguir se comunicar). É uma criança que se mexe, corre, grita, bate quando está entusiasmado porque não presta atenção.

É também uma criança que rola pelo chão quando não está contente (portanto, isso é inato), que força os limites até os romper.

Para os outros, no entanto, Adam ainda é uma criança fácil. Sorridente e até charmoso, esperto, entusiástico, muitas vezes digo a mim mesma que ele tem um fundo bom. Isso não o impede de ser colérico, impaciente, violento com sua irmã ou comigo (enquanto pode ser muito delicado com os objetos ou os alimentos) e barulhento.

Com Adam, entretanto, nós não mudamos nada. Enfim, sim, tivemos de castigar mais cedo, e me vi a gritar (embora eu deteste isso, não serve para nada), nossa paciência é mais limitada. Tivemos até aquela conversa um pouco patética de qual esporte mandá-lo praticar para "canalizar" a energia. Porque eu o adoro, mas não quero deixá-lo mandar em casa. Ainda mais que ele já manda em sua irmã mais velha.

Agora eu vejo com um olhar benigno os pais de crianças com chupetas, os que preferem sair com um carrinho (sei o que é carregar uma menina de 3 anos e meio nos ombros durante todo o trajeto), os que olham impotentes enquanto seus filhos rolam no chão em público. Os que fazem parte do #timecoruja nas redes sociais e que trocam uma piada na hora da mamadeira às 4 da manhã. Tenho vontade de abraçá-los. Há crianças bem mais complicadas de administrar que outras, e conheço pais que lutam para sair disso. Muitas vezes é uma fase, tudo passa. Mas é preciso muita coragem. Não sei se faço parte desses, mas eles merecem uma medalha, acreditem.