OPINIÃO

Secretário de Segurança Pública de São Paulo mostra que não entende nada sobre estupro, nem economia

03/06/2016 19:22 BRT | Atualizado 03/06/2016 19:22 BRT
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Anadolu Agency via Getty Images
SAO PAULO, BRAZIL - JUNE 01: Thousands of women holding banners and shouting slogans, attend demonstration against the government of interim president of Brazil, Michel Temer in the Paulista Avenue in Sao Paulo, Brazil on June 01, 2016. The demonstrators also protested against the new minister named Fatima Pelaes (PMDB-AP) that is against abortion, including in cases of rape. (Photo by Dario Oliveira/Anadolu Agency/Getty Images)

O novo secretário de Segurança Pública de São Paulo, Mágino Alves Barbosa Filho, traçou um paralelo inusitado, para dizer o mínimo, entre crise econômica e estupro.

Em entrevista ao blog da Sonia Raci, no Estado de S. Paulo, Barbosa Filhou soltou a seguinte frase: "infelizmente esse crime [estupro], como outros, é um pouco da consequência dessa crise que estamos vivendo". "Por quê?", questionou a colunista. "Desemprego", o secretário respondeu.

Não entendeu? Pois ele explica melhor:

O camarada perdeu o emprego. Ele começa a se desesperar, começa a beber. Um monte de gente, que nunca cometeria qualquer tipo de crime, hoje está praticando o pequeno ilícito e, às vezes, até esses crimes mais graves. O crime de estupro atualmente é um tipo mais aberto - aquele beijo forçado, uma situação de uma carícia imprópria configura o crime de estupro.

Quer dizer, a crise econômica leva ao desemprego, que leva ao desespero, que leva ao alcoolismo, que leva ao estupro. No fim das contas, a culpa é de qualquer um, menos do estuprador.

A fala do secretário é uma afronta à luta das mulheres por respeito e direitos na medida em que desresponsabiliza os homens que cometem tal crime. Não foi à toa que a diretora executiva da ONU Mulheres, Phumzile Mlambo-Ngcuka, classificou a violência contra a mulher como "a violação de direitos humanos mais tolerada no mundo".

Afirmações como a de Barbosa Filho servem para justificar o injustificável e são muito utilizadas tanto pelos agressores, quanto pelas próprias vítimas, que têm dificuldade em se reconhecer como tais.

"O agressor tem sua responsabilidade atenuada, seja porque não estava no exercício pleno da consciência, ou porque é muito pressionado socialmente, ou porque não consegue controlar seus instintos", descreve o relatório do Ipea "Tolerância social à violência contra as mulheres" (março-abril/2014).

Ao dizer que o estupro parte de gente que "nunca cometeria qualquer tipo de crime", o secretário ainda transfere ao agressor o papel de vítima. Ou seja, ele nunca faria isso, só fez porque... [estava embriago, estava estressado, ela usou uma roupa curta, ela o desrespeitou].

Barbosa Filho deu hoje um exemplo de como não entende nada sobre estupro ou as reivindicações dos movimentos feministas que têm tomado as ruas do Brasil.

Não, secretário. A culpa não é da economia, nem do álcool. Quando se trata de estupro, só há uma pessoa a ser culpada: aquela que comete o crime.

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