OPINIÃO

O tempo da ciência não poderá ser o tempo da garantia de direitos

09/09/2016 11:23 -03
Ricardo Moraes / Reuters
Ianka Mikaelle Barbosa, 18, poses for a photograph with Sophia, 18 days old, who is her second child and was born with microcephaly, at her house in Campina Grande, Brazil February 17, 2016. Single parents are common in Brazil where some studies show as many as one in three children from poor families grow up without a biological father, but doctors on the frontline of the Zika outbreak say they are concerned about how many mothers of babies with microcephaly are being abandoned. With the health service already under strain, abortion prohibited, and the virus hitting the poorest hardest, an absent father is yet another burden on mothers already struggling to cope with raising a child that might never walk or talk. REUTERS/Ricardo Moraes SEARCH "ZIKA SINGLE" FOR THIS STORY. SEARCH "THE WIDER IMAGE" FOR ALL STORIES

Pouco se fala, mas é sempre bom lembrar: há uma epidemia de zika em curso no Brasil. E o protagonista não é o mosquito, mas mulheres e crianças. O procurador-geral da República Rodrigo Janot emitiu parecer na última sexta-feira dia 06 de setembro e defendeu a proteção de direitos constitucionais de mulheres e crianças afetadas pela epidemia, e reconheceu que a maioria são "mulheres pobres e nordestinas, vítimas da negligência estatal". Há várias demandas da vida que devem ser protegidas - serviços de saúde adequados às necessidades das crianças afetadas pela síndrome do zika congênito, acesso universal ao Benefício de Prestação Continuada (BPC), políticas efetivas de planejamento familiar e acesso à informação. Apesar das demandas refletirem direitos básicos, em tempos de epidemia estes direitos vem sendo diariamente violados.

Talvez o esquecimento de que há em curso uma Emergência de Saúde Pública possa ser explicado pela estratificação geográfica e econômica vivida no Brasil. Em tempos de zika milhares de mulheres grávidas ou em idade reprodutiva ainda vivem a angústia de sentir na pele vermelhidões, coceiras e febre passageiras. Mas a surpresa do zika não foi a "dengue fraca" ou a "alergia medonha" de gente acostumada a sentir sintomas de virose dos trópicos, mas sim o nascimento de crianças de cabeças miúdas - o primeiro sinal observado das desordens neurológicas e malformações fetais associadas ao vírus zika.

Milhares de mulheres em idade reprodutiva, grávidas ou cuidadoras de seus bebês vivem a angústia das perguntas ainda sem resposta. Certamente a ciência ainda levará tempo para responder todas as perguntas, mas o tempo da ciência não poderá ser o tempo da garantia de direitos. As respostas a uma epidemia pedem urgência, e infelizmente o tema parece ter perdido espaço na agenda. Nos últimos meses falou-se muito sobre crise econômica e política, Operação Lava-Jato, Jogos Olímpicos e afastamento da presidenta. Estes foram temas discutidos intensamente em mídias sociais e meios de comunicação. As mulheres do sertão nordestino e seus bebês ficaram esquecidos ou, ainda mais perverso, foram transformadas em lendas durante as olimpíadas. É verdade que as sertanejas não andam pelas calçadas de Ipanema, Copacabana ou visitam a Vila Olímpica, mas o Brasil não está resumido à zona sul do Rio de Janeiro ou o centro-sul do País.

Se a história de mulheres e famílias afetadas pelo zika em regiões remotas do Brasil é conhecida por poucos, Debora Diniz conta o que ouviu, viveu e observou em tempos de epidemia. O livro Zika: do sertão nordestino à ameaça global, lançado pela editora Civilização Brasileira nos apresenta com sensibilidade e delicadeza a história da epidemia do vírus zika no Brasil. Diniz se utiliza de múltiplas fontes para dar o seu testemunho da epidemia - aquilo que na ciência chamamos de triangulação. Para escrever o livro ouviu histórias, fez entrevistas com diferentes atores, participou de reuniões e eventos científicos, revisou a literatura científica sobre o tema e monitorou mais de 5 mil veículos de comunicação nacionais e internacionais.

Debora Diniz ouviu homens e mulheres do sertão - são médicos e médicas da assistência, os primeiros a ouvir as queixas da multidão de nordestinos anônimos; cientistas de bancada mas de regiões tradicionalmente pouco reconhecidas que receberam as primeiras amostras de sangue; homens e mulheres que viveram no corpo as consequências da epidemia e resistem apesar do descaso do poder público.

Debora escreveu no tempo da epidemia, faz um manifesto e denunciou o estado de desamparo vivido por mulheres comuns anônimas ou ignoradas pela vigilância epidemiológica. Ela nos lembra que enfrentar o problema do zika é muito mais que notificar números de casos confirmados ou descartados. Combater o mosquito deve ser parte da política pública de saúde, no entanto, mais importante que combater um mosquito que convive há décadas dentro de nossas casas, Debora nos convida a falar sobre direitos de mulheres nos tempos da epidemia. O cuidado das crianças ainda é um dever das mulheres, são elas que deverão ser protegidas pelo Estado para o cuidado de seus bebês afetados pela epidemia. Mas Diniz também não nos deixa esquecer que falar de zika é também é falar sobre direitos sexuais e reprodutivos. Garantir o métodos contraceptivos e aborto seguro é também cuidar da saúde pública.

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