OPINIÃO

Quantas vidas perdidas valem o aumento que a PM do ES quer?

Um aumento não vale uma centena de vidas. E um silêncio não pode ser ignorado.

08/02/2017 16:36 -02 | Atualizado 08/02/2017 18:56 -02
Paulo Whitaker / Reuters
Policial detém suspeitos de roubar lojas em Vitória, no Espírito Santo

O mês era abril. O ano era 2015. O governador Paulo Hartung (PMDB) fazia revista a tropa durante a comemoração dos 180 anos de existência da mais antiga instituição do Estado do Espírito Santo, a Polícia Militar. No lugar do tradicional "Viva!", quando convocados pelo chefe do executivo, autoridades civis e militares ficaram...caladas. Era um aviso que os policiais já estavam revoltados com a falta de um reajuste salarial, com o corte na verba de manutenção de viaturas e de gasolina para patrulhas. Uma justa revolta para quem sai de casa sem a certeza de um retorno, pondo sua vinda em risco em prol de um todo, enfrentando uma criminalidade armada até os dentes.

Quantos outros corpos vão precisar de ser jogados no chão do Instituto Médico Legal - por não suportar tanta demanda?

O caos que hoje vive o Espírito Santo trata-se de uma tragédia anunciada, que agora faz Paulo Hartung, seu vice Cesar Colnago (PSDB) e André Garcia, seu Secretário de Segurança Pública, admitirem incapacidade de gestão, omissão e decretarem intervenção federal. Escolas, faculdades, bancos, comércios de toda ordem estão fechados. As ruas estão vazias. Quando não, estão tomadas de criminosos protagonizando tiroteios, arrastões, arrombamentos, incêndios e mortes. Noventa mortes. Noventa. Porque a polícia militar tem a pachorra de vir à público dizer que está aquartelada por meia dúzia de donas de casa. A população refém de uma corporação omissa.

Quantas vidas perdidas valem esse aumento de 43% que os PM's exigem? Quantos outros corpos vão precisar de ser jogados no chão do Instituto Médico Legal - por não suportar tanta demanda? Quantas mães, pais e irmãos vão precisar de chorar a morte de civis honestos vítimas desse absurdo em forma de greve já decretada como ilegal pela justiça? Quarenta e três por centro de aumento valem essas 90 mortes? Os policias vistos rindo do alto do batalhão acham justo? As mulheres - muitas com latões de Brahma na mão e dançando funk - protestando em frente ao Batalhão acham honesta essa troca?

Do outro lado da moeda, há uma intransigência que beira a arrogância.

A mesma corporação que acha justa uma melhor remuneração - e o acréscimo do recebimento de um ticket alimentação - pela insalubridade do ofício é a mesma corporação que agora põe em chegue sua honestidade, seu ideal de bem estar social, de patriotismo. Quando uma categoria armada e fardada cruza os braços e assiste de camarote a desgraça de uma sociedade, ela se coloca no mesmo patamar de toda a escória social que vem espalhando pânico por ruas do interior e da região metropolitana de Vitória. É terrorismo. É traição.

Noventa mortes. Quantas vidas perdidas valem um aumento?

Do outro lado da moeda, há uma intransigência que beira a arrogância. Aos de fora do ES, o governador Paulo Hartung, de forma pejorativa, é tratado por seus desafetos e críticos políticos como Impherador. E, tal qual um, como narra a história antiga, age sem diálogo, arrogância e a soberba que não cabe para quem precisa de uma categoria do seu lado e de forma urgente. Hartung não ouviu - ou não quis - o silêncio que os militares o entregaram em abril de 2005. Hoje, aquele eco se transformou em gritos de socorro. O mesmo governador aclamado nacionalmente por sua postura de arrocho fiscal é o mesmo que não ouviu os PM's. Hartung veio à público, em tom de enfrentamento, dizer que o aumento acarretaria numa desordem dos cofres públicos. Mas ele não abre mão de R$ 5,4 mil/mês do dinheiro do povo na compra de peixes e mariscos para refeições na residência oficial.

Não podemos conviver com um Secretário de Segurança que é funcionário da Prefeitura de Caruaru.

E não só. Certa vez, o senador Magno Malta (PR), me disse sobre o atual Secretário de Segurança, André Garcia: "Nós precisamos de alguém que conheça o Estado. Não podemos conviver com um Secretário de Segurança que é funcionário da Prefeitura de Caruaru. Se ele fosse tão bom, Eduardo Campos teria colocado ele como Secretário de Pernambuco. E olha que lá [PE] ele conhece. Aqui ele nem conhece. Será que ES não tem ninguém que tenha o mínimo de noção? Ou tem que contratar um funcionário para mostrar para o Secretário no mapa aonde fica o Morro de Jaburuna?". Se André Garcia realmente não conhece o morro, como acusou Magno, não se sabe. Mas que lhe falta resiliência, é notório.

Nesta manhã, criminosos atearam fogo num carro roubado na rua da minha casa. O veículo está como o Espírito Santo: em chamas, próximo ao diagnóstico de perda total.

Um aumento não vale uma centena de vidas. E um silêncio não pode ser ignorado.

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Crise de Segurança no Espírito Santo