OPINIÃO

O caos em Vitória, um governo omisso e uma PM irresponsável

A criminalidade está à solta, agindo à luz do dia, munida de metralhadoras, coagindo os poucos que ainda não conseguiram voltar para suas casas.

06/02/2017 17:56 -02 | Atualizado 08/02/2017 11:27 -02
Reprodução/Twitter

Acabo de assistir The Purge, um longa americano que se passa nos Estados Unidos dos anos 2022. Lá, uma vez por ano, o governo - agora comandado pelos Novos Pais Fundadores da América - libera todo e qualquer tipo de crime, seja ele assassinato, estupro ou roubo. Durante 12 horas - e com um cronômetro em contagem regressiva ao vivo pelas emissoras de TV -, as ruas ficam desertas, os civis de bem ficam acuados dentro de suas casas, reforçam a segurança dos lares, enquanto nas ruas, toda espécie de barbárie acontece - mendigos são queimados vivos, as casas da periferia são arrombadas, vingadores matam a sangue frio, e os Estados Unidos viram uma terra de ninguém.

Na porta do mesmo Batalhão, as mulheres de alguns deles erguem cartazes, punhos em riste e gritos de pouca ordem.

O que era para ser uma ficção futurista e apocalíptica da sétima arte hollywoodiana, foi apenas um presságio. The Purge é aqui e agora. Estou em Vitória, uma ilhota, a capital do Espírito Santo. Repartições públicas, universidade, escolas, empresas e estabelecimentos comerciais de toda ordem estão com as portas fechadas e a segurança reforçada. Nas ruas, arrastões a todo momento, lojas saqueadas, carros roubados nas principais avenidas, pontos de ônibus aterrorizados e tiroteios perfazendo a trilha sonora de uma segunda-feira de verão. A criminalidade está à solta, agindo na luz do dia, munidos de metralhadoras, coagindo os poucos que ainda não conseguiram voltar para suas casas.

Enquanto isso, no Batalhão Geral da Polícia Militar, na mesma ilhota, policiais militares assistem à tudo, de braços cruzados, bebendo café solúvel e alguns sorrisos no rosto. Na porta do mesmo Batalhão, as mulheres de alguns deles erguem cartazes, punhos em riste e gritos de pouca ordem. E, com isso, forma-se o discurso de que os PM's não podem ir às ruas, porque estão acuados por meia-dúzia de donas de casa. Os mesmos PM's que atacaram movimentos secundaristas de escolas e enfrentaram uma centena de estudantes em protestos recentes na capital. Uma ironia que não vale nem meio pente de carregamento de R-15.

O policiais militares, há sete anos sem reajuste salarial, cruzaram os braços pedindo um aumento legítimo e justo perante sua importância para o bem estar social

O Espírito Santo já registra mais mortes do que toda a média do mesmo mês no ano passado. Carros do Instituto Médico Legal trafegam pela cidade a mil, no lugar dos ônibus, que também tiveram de interromper suas atividades pela falta de segurança. Enquanto isso, Paulo Hartung, o governador, está em São Paulo, tratando de um tumor com a competente equipe do Sírio Libanês, uma vez que, só me resta essa suposição, não há hospitais de qualidade e confiança em todo o solo capixaba. E mais: Hartung aproveitou a temporada na Terra da Garoa para fazer lobby político, uma vez que o Estadão informa nesta mesma tarde que ele está costurando alianças para deixar o PMDB e se lançar para uma candidatura de nível nacional no próximo leito. Prioridades.

O policiais militares, há sete anos sem reajuste salarial, cruzaram os braços pedindo um aumento legítimo e justo perante sua importância para o bem estar social, a segurança pública e a insalubridade de seus cargos. O governo, há sete anos, nada fez. E, agora que o terror está espalhado pela Grande Vitória - região metropolitana que abrange os municípios de Vitória, Vila Velha, Serra, Cariacica e Fundão -, demite o comandante da PM, e só aceita negociação se voltarem às ruas. A PM, logicamente, pensa: se, em sete anos e com trabalho efetivo, nada foi feito, o que garante que agora suas reivindicações serão atendidas?

De um lado, um governo omisso, irresponsável e que demorou quase um domingo inteiro - quando o caos ganhou intensidade - para se comunicar com a população que o elegeu. De outro, uma corporação omissa, que, em prol de uma reivindicação, põe em risco toda uma sociedade, e assiste o caos ser instalado sem nada fazer. Sem peso na consciência. Será mesmo que ambos símbolos do poder público - o executivo os homens da segurança - são representantes da confiança e dependência que lhes são depositadas?

The Purge não é coisa de futuro. The Purge é em Vitória, uma ilha que agora respira derrota e que parece tão longe do Espírito Santo.

Que Deus nos proteja.

*Este artigo é de autoria de colaboradores do HuffPost Brasil e não representam as ideias ou opiniões do veículo. Mundialmente, o Huffington Post é um espaço que tem como objetivo ampliar vozes e garantir a pluralidade do debate sobre temas importantes para a agenda pública. Se você deseja fazer parte dos blogueiros, entre em contato por meio de editor@huffpostbrasil.com.

Crise de Segurança no Espírito Santo