OPINIÃO

Uma tribuna digital

27/01/2014 22:08 -02 | Atualizado 26/01/2017 20:51 -02

As letras que você está lendo neste instante não são pigmentos impressos sobre um papel.

Isso

muda

tudo.

Dígitos são maleáveis, flexíveis, podem ser recombinados infinitamente para gerar novos significados, fluxos que serão remixados e farão sempre parte, nunca o todo. Por isso não há lugar na sociedade contemporânea digital para rigidez, intransigência, categorização e birra.

Somos relações compostas por dígitos, e portanto não há lugar para preconceitos, ideias imutáveis, verdades absolutas, nem qualquer reacionarismo. Não há lugar para proibir direitos a gays, para oprimir mulheres, para restringir voz a negros, para explorar trabalhadores, nem para qualquer censura ou patrulhamento.

O Huffington Post é um jornal nascido sob a visão de mundo da internet, e por isso hoje é um dos principais espaços de debates progressistas do mundo. Quem acompanha as edições de outros países sabe que esta tribuna foi desenhada para facilitar as conversas de tod@s -- e não apenas de alguns colunistas ilustrados. Como editor de blogs, estou apostando nisso para a edição brasileira que nasce hoje, o Brasil Post.

Como é possível notar ao navegar, o site é um pouco diferente do que se está acostumado nos jornais tradicionais. Se você tem um blog e quer atingir outras audiências, republique seus posts aqui. Se você quer fazer comentários eventuais, sem compromisso de periodicidade, faça aqui. Se você quer influenciar algum tomador de decisão ou algum processo escrevendo sempre, escreva aqui -- comece comentando neste post ou envie um email para blog@brasilpost.com.br e seguimos a conversa. Neste instante, já somos mais de 100 vozes blogando, pessoas de muitos tipos, mas que eu espero serem ainda mais diversas com o tempo.

Durante minha vida profissional, experimentei duas vezes com bastante intensidade o gosto da abertura. A primeira foi quando idealizei o Festival BaixoCentro, entre 2011 e 2012. Fizemos acontecer coletivamente duas semanas de intervenções urbanas nos arredores do Minhocão, uma aberração arquitetônica de São Paulo. Trocamos os editais e qualquer outra fonte de dinheiro pelo financiamento coletivo via internet (crowdfunding). Rompemos com a curadoria das atividades inscritas, e praticamos a cuidadoria (tod@s se apresentaram, e cuidamos para que isso acontecesse). Bastava querer para estar junto.

A segunda foi subsequente, entre 2012 e 2013, quando estive no time da plataforma de abaixo-assinados Change.org. Qualquer pessoa, em qualquer lugar, pode usar as ferramentas do site para iniciar e vencer campanhas sobre qualquer coisa. Lidei com os mais radicais e com os menos politizados, com os cidadãos mais ingênuos e com os lobistas mais espertos. O desafio era fazer o debate ser profícuo, resultar em algo, ir para a frente.

Note que os dois exemplos são de experiências fora do jornalismo. Depois de anos na imprensa brasileira, não via mais porque repetir alguns padrões e lógicas que já não faziam sentido para mim, pessoal e profissionalmente. O modelo do Huffington Post -- e portanto do Brasil Post -- renova minha esperança de experimentar no jornalismo valores como a transparência, a abertura, o maleável, o flexível, a diversidade, o digital. Sempre parte, nunca o todo.

Estou trabalhando para que esta tribuna seja assim. Quem quiser outra coisa, que imprima pigmentos em um papel.