OPINIÃO

O filho renegado de Deus

13/05/2014 15:47 -03 | Atualizado 26/01/2017 21:36 -02
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Sem enganar a si mesmo, procure em sua memória quantas vezes você atravessou a rua por se deparar com uma pessoa suspeita. Trapos no corpo, barba grande e mal feita e cabelos desarrumados são características que causam incômodo. Se for negro então, beira o pânico. Mas fique calmo, isso não é sua culpa. A sementinha do estereótipo foi plantada pela sociedade na sua cabeça e germina brotos de preconceito. Saber podá-los é o que diferencia seu jardim moral e ético.

Para fins de contexto, cito o termo criado por Francis Galton. Eugenia, que em significado literal quer dizer "bem nascido", é o termo empregado para designar "o estudo dos agentes sob o controle social que podem melhorar ou empobrecer as qualidades raciais das futuras gerações seja física ou mentalmente". Há de se admitir que seja uma área controversa, principalmente, após o holocausto com sua eugenia nazista que foi peça chave para a construção da ideologia de "pureza racial".

Um exemplo disso está no filme norte-americano de ficção científica Gattaca, de 1997 que retrata um futuro onde acontece uma seleção de embriões e apenas os perfeitos são implantados no útero. Portanto, aqueles que não são geneticamente planejados são considerados inválidos e, por conseguinte discriminados pela sociedade. Foi eleito como filme de ficção científica mais plausível pela NASA. O que quer dizer que em breve você poderá escolher todas as características do seu filho. Olhos azuis? Sim, por favor. Acréscimo de 25% no preço de embriões livres de alguma doença hereditária? Eu pago. Cabelos lisos? Esse é meu filho.

Diante dessa realidade, é certo que Arthur Bispo do Rosário seria protagonista de inúmeras situações como essa. Negro, pobre e nordestino, sua figura não seguia padrão estético algum. Mas imagine que falta de respeito cruzar a rua para não se deparar de frente com um dos maiores artistas contemporâneos brasileiros.

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"Um dia, eu simplesmente apareci." Era dessa forma que ele respondia aos curiosos a respeito de sua origem. Foi membro da marinha e pugilista, mas ninguém sabia muita coisa sobre sua pessoa e também se recusava a falar sobre sua família e raízes. Em suas palavras, era filho de Deus. Havia sido adotado pela Virgem Maria e "aparecido" no mundo em seus braços.

A consequência dessas histórias julgada por muitos como insanidade, o rendeu o diagnóstico de esquizofrênico-paranóico em diversos manicômios onde passou boa parte de sua vida. Sua cela na ala de psiquiatria virou seu atelier particular. Equilibrando-se na fina linha entre a realidade e o delírio, utilizava de lixo e sucata para produzir suas obras que eram dedicadas apenas a Deus. Dizia ser o enviado dos céus para reproduzir o mundo em miniaturas.

Toda sua fé e devoção não foram suficientes para livrá-lo do terror dos manicômios que mais parecia um campo de experimentação. Em meio a eletrochoques, lobotomias e tratamentos violentos, Bispo driblava o poder regente do manicômio e utilizava de sobras de materiais hospitalares para criar suas obras em um dos períodos mais obscuros da psiquiatria.

Foi nesse ambiente em que ele criou um universo extremamente particular, um mundo paralelo onde ele era rei. Bordava, fazia colagens, estandartes e assemblages de todo e qualquer material que obtivesse para compor sua arte. Aliás, em vida, não gostava de ser chamado de artista, pois o termo, para ele, não representava sua verdadeira função como um enviado dos céus que foi confiado uma tarefa divina.

Um dos frutos de toda essa religiosidade foi uma das histórias mais célebres a seu respeito. Foi na noite de 22 de janeiro de 1938 que Bispo, conduzido por um imaginário de anjos, seguiu pelo caminho da igreja da Candelária e depois peregrinou pelas ruas do rio e terminou no Mosteiro de São Bento e lá anunciou aos padres que era um enviado de Deus incumbido de "julgar os vivos e os mortos". A história remota a detalhes que Bispo utilizava um estandarte bordado por ele, uma de suas peças dentre sua vasta obra. Nele, o artista registra a frase-síntese de sua vida "Eu preciso destas palavras - Escrita". Para Bispo, a palavra havia status extraordinário, por isso seus bordados são repletos de palavras, trechos poéticos, mensagens e nome de pessoas.

Após esse episódio, foi enviado ao Hospital Nacional dos Alienados na Praia Vermelha, onde sua ficha era marcada como: negro, sem documentos e indigente. Foi transferido para a Colônia Juliano Moreira, hospício considerado na época como "fim de linha" para depois ser remanejado para um engradado de doentes perigosos. Sua cela tinha um colchão fino e um buraco no solo para suas necessidades. Nada digno da inspiração para sua obra. Quando tinha fortes crises, pedia para os funcionários o trancar e por lá ficava meses a fio. Recusava refeições e passava fome, "Vou secar pra virar santo", prometia.

Pois foi nesse período de isolamento que sua arte mais frutificou. Na falta de material, Bispo desfiava seu uniforme e aproveitava fio por fio, não é a toa que o azul - cor das vestimentas do manicômios - se destaca em suas peças. E foi assim que começou a cerzir o Manto Da Apresentação durante toda sua vida para usá-lo no dia do Juízo Final. O manto possui nomes bordados das pessoas que conhece que para ele são merecedoras de subir aos céus, a maioria mulheres.

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Em 1982, a primeira oportunidade de reconhecimento de seu trabalho veio do Museu de Arte Moderna do Rio De Janeiro. O MAM expôs alguns exemplares do universo particular de Bispo numa coletiva que reunia presidiários, menores infratores e idosos em uma exposição com o nome "À margem da vida". O crítico de arte, Federico Morais, ofereceu a Bispo uma sala inteira para exposição no museu onde ele poderia se expressar e se alojar por um tempo. Ele sequer pensou no assunto e morreu na solidão de sua cela sete anos depois.

Nos últimos momentos de sua vida, o reconhecimento já lhe era conferido. Mas foi após sua morte que suas obras foram consagradas no mercado internacional de arte contemporânea. Arthur Bispo do Rosário não pode assistir suas obras viajarem o mundo e nem ouvir, a seu contragosto, o título de artistas vanguardistas cuja obra foi comparada com as de Marcel Duchamp, tamanho reconhecimento que lhe foi dado mundo a fora.

Bispo nunca foi perigoso como disseram. Loucura e lucidez foram apenas duas extremidades nas quais ele perambulou. Como a essência e a aparência, a arte que entretém, é como um tigre de garras limadas. Não fere, não cumpre o que promete. Contudo, no caso do "enviado de Deus", acontece o inverso. Ele pode não oferecer perigo, mas sua arte nos rasga e atravessa como o ataque de um batalhão de felinos