OPINIÃO

O impeachment nunca foi uma solução para a crise política

24/05/2016 15:18 -03 | Atualizado 27/01/2017 00:31 -02
ASSOCIATED PRESS
Brazil's President Dilma Rousseff addresses the nation at Planalto presidential palace in Brasilia, Brazil, Thursday, May 12, 2016. Speaking hours after the Senate voted to suspend her on Thursday, Rousseff blasted the impeachment process against her as "fraudulent" and promised to fight what she characterized as an injustice more painful than the torture she endured under a past military dictatorship. (AP Photo/Eraldo Peres)

O trauma que a sociedade brasileira está vivendo com o enfraquecimento da democracia no País e o luto com a recente perda de significativas conquistas institucionais da última década, deixam claro que o impeachment nunca foi uma solução para os nossos problemas, pois o mesmo serve apenas para esconder ainda mais a verdadeira crise estrutural que estamos vivendo neste início de século XXI.

É absolutamente necessário lutar pela preservação das conquistas sociais e institucionais neste grave momento da nossa história, mas simultaneamente, quero utilizar esta coluna para alertar sobre a emergência das revoluções que estamos vivendo em escala global e que, com a volta ou não de Dilma Rousseff, os verdadeiros desafios para o desenvolvimento do Brasil já estão definidos e são os mesmos para todos os outros países daqui pra frente.

Quero compartilhar aqui, o tema de uma palestra que fiz a convite do Banco Mundial, em que abordei pela primeira vez o que defini como "As cinco grandes crises" que, a partir de 2008, mudaram significativamente o rumo de nossa civilização.

A primeira e principal delas foi deflagrada com a crise financeira nos Estados Unidos, invertendo os rumos da economia mundial e transferindo o poder de Wall Street para o Vale do Silício. A influência que grandes bancos e fundos de investimento exerciam sobre os corações e mentes brilhantes de jovens executivos do mundo todo foi substituída pelo entusiasmo e criatividade das empresas de tecnologia que lideram os processos de inovação mais sofisticados do mundo.

No mesmo período, a segunda grande crise está associada com as mudanças climáticas, amplamente divulgadas pelo documentário "Uma verdade inconveniente" que venceu o Oscar de melhor documentário, dando a Al Gore o Nobel da Paz e ajudando a trazer, anos mais tarde em Paris, as duas principais potências mundiais para o mesmo lado do debate com o intuito de reduzir o impacto da ação humana no aquecimento do planeta.

A terceira grande crise está relacionada com uma previsão da ONU afirmando que, a partir de 2008, mais da metade da população mundial estaria vivendo em aglomerados urbanos. Isso acabou se tornando realidade em 2012 quando 3,6 bilhões de pessoas passaram a residir em centros urbanos, o que acelerou o surgimento de graves problemas como a mobilidade urbana, segurança e acesso aos serviços públicos ao redor do mundo, trazendo as cidades para o centro da agenda de governos e organizações não-governamentais ao redor do mundo.

Paralelamente a isso, em 2012, a revolução digital, nossa quarta grande crise, alcançava dois marcos que mudariam o mundo para sempre. Tanto o Facebook, a maior rede social do mundo, quanto a venda de smartphones alcançavam a marca de 1 bilhão de usuários. Assim, com mobilidade e conectividade, a sociedade em rede passava, definitivamente, a orientar o futuro da economia e da cultura.

Com isso, chegamos a nossa quinta e última grande crise que determinaria a partir de então, os novos rumos da civilização. Com a chamada Primavera Árabe, a onda de protestos, revoltas e revoluções populares contra governos árabes eclodiria em 2011, e mostraria ao mundo que mais profunda do que qualquer um das quatro grandes crises anteriores, a crise institucional passaria a orientar o debate sobre representatividade, poder e o futuro da democracia.

Com a repressão de governos, a Primavera Árabe serviria de inspiração para movimentos ao redor do mundo em países em desenvolvimento e mostraria, claramente, que comunidades do mundo inteiro vivem, desde então, a sensação de que as instituições não representam o espírito do tempo. Esse sentimento generalizado de que ninguém nos representa, de que não podemos confiar em governos e instituições é um caminho sem volta, definido pela urgência por transparência e pela nova era da informação. Assim, uma nova geração de líderes precisará alcançar seu lugar para construir as novas bases dessa sociedade.

O que estamos vivendo hoje no Brasil é resultado dessas cinco grandes crises com alguns ingredientes tropicais.

Por isso tudo, acredito que nós estamos vivendo uma grande revolução cultural, econômica e social muito mais profunda do que imaginamos. Uma revolução que, simultaneamente, abre oportunidades para protagonistas, empreendedores e líderes criativos e que dá voz a pessoas inconformadas do mundo inteiro testarem e validarem alternativas, conceitos e modelos inovadores capazes de reorganizar comunidades e indústrias inteiras tendo a criatividade e o empreendedorismo como suas principais ferramentas.

Inspirados por essa nova era, faço minha aposta nos jovens. Afinal, são eles que estão sonhando, desenhando e empreendendo o futuro. Minha aposta é que os jovens devem estar no comando dos principais processos de inovação. E é a partir do incentivo aos jovens (não necessariamente de idade, mas de mentalidade) que querem criar, sonhar e construir novas referências institucionais, culturais, econômicas e sociais é que seremos capazes de produzir as saídas para um novo desenvolvimento que nos tire dessa grande crise existencial que gira em torno do próprio rabo chamado passado.

O mundo já mudou e somente a energia e o entusiasmo dos jovens conseguirá recuperar o tempo perdido.

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