OPINIÃO

Acredite, a criatividade vai nos salvar

11/03/2014 15:19 -03 | Atualizado 26/01/2017 21:12 -02

Um dilúvio marcou o desfile das campeãs do carnaval neste fim de semana. Enquanto isso, moradores de São Paulo agradeciam aos céus a chuva forte que (apesar do trânsito) conseguiu manter o nível do maior reservatório de água do estado com 16% de sua capacidade, o pior desde que foi construído há 40 anos, segundo a Sabesp. Ao mesmo tempo, no Rio de Janeiro, os moradores da cidade vibravam com o fim da greve dos garis que, após 8 dias de paralisação, trabalharam neste final de semana para retirar 18,2 mil toneladas(!) de resíduos, pelas contas da Comlurb.

Depois de uma semana inteira de apreensão e certo desespero, paulistanos e cariocas respiraram aliviados mais uma vez pensando: "Ufa! Não foi desta vez que tivemos que resolver o problema". Afinal, nós sabemos que estamos acostumados com a ideia de abundância de recursos naturais e, por isso, somos viciados em desperdício.

Para nós, sair desta zona de conforto é quase uma agressão aos bons costumes. Prova disso é que no Sistema Cantareira (o mesmo dos 16%), o desperdício de água corresponde a 40% de sua capacidade, água suficiente para matar a sede de 3,5 milhões de pessoas. E você sabe que lavar a calçada não é o único exemplo.

Em relação ao lixo nem se fala. Se fosse separado corretamente, o lixo do Rio de Janeiro seria capaz de gerar energia elétrica suficiente para as comunidades da Rocinha, Vidigal e do Alemão juntas. Você acha essa ideia absurda? Pois saiba que no Japão, 62% do lixo já tem essa finalidade e na Europa, mais de 20 milhões de pessoas já recebem eletricidade por causa do lixo.

Isso sem falar que, apenas no ano passado, o desperdício de energia elétrica em todo o Brasil chegou a mais de 10% de tudo o que foi produzido. O volume daria para abastecer os estados do Rio de Janeiro e Ceará por um ano.

O resultado deste comodismo generalizado já provocou um rombo de R$ 11,4 bilhões no setor elétrico brasileiro que, se continuar, pode chegar a R$ 25,6 bilhões até dezembro. Mesmo com todos estes indicadores, por que o Brasil não consegue mudar o seu jeito de ser?

Porque enquanto o Brasil continua viciado no desperdício, ainda não foi capaz de valorizar e reconhecer a virtude da criatividade do seu povo, matéria-prima fundamental para a inovação. Afinal, apesar de toda a alegria inocente do carnaval, símbolo da criatividade brasileira, ainda somos o 64ª colocado no Índice Global de Inovação, no qual caímos 11 posições nos últimos dois anos.

Afirmar que a criatividade do povo brasileiro não tem o seu devido valor reconhecido é pouco. Basta analisarmos o número de pedidos de patentes feitos à Organização Mundial de Propriedade Intelectual para perceber que capital humano, pesquisa e conhecimento, indicadores diretamente ligados ao incentivo à criatividade, estão fora da agenda de prioridades dos principais setores do país. O resultado é que, em 2012, enquanto os Estados Unidos entraram com 50.000 pedidos de patentes e a China com 17.000, o Brasil entrou com apenas 600 pedidos.

A inovação só nasce em um ambiente apropriado para a interação entre conhecimento, criatividade e espírito empreendedor. E como dizer que o Brasil acredita nisso quando investe apenas 1% do PIB em pesquisa e desenvolvimento, contra uma média de 2,3% dos países da OCDE como Suíça, Suécia, Reino Unido, Holanda e EUA. Aliás, considerados os cinco países campeões da inovação?

A festa acabou, mas enquanto continuarmos jogando no lixo todo o potencial da criatividade brasileira, o desperdício de água, energia elétrica será um mero detalhe de um futuro obscuro e preocupante. Que piorará a cada carnaval.

Lembre-se, só a criatividade pode nos salvar.