OPINIÃO

Não deu tempo de fazer tudo o que você queria em 2016. E está tudo bem

02/01/2017 18:15 -02 | Atualizado 02/01/2017 18:15 -02
Dynamic Graphics,2007 via Getty Images
Businessman racing against time, Color

"Vai dar tempo."

É essa a frase que eu vivo repetindo para mim mesma, quase como um mantra. Digo sempre quando bate aquele desespero diante de um prazo urgente que aparece do nada no trabalho; do engarrafamento colossal que brota a caminho de um compromisso do outro lado da cidade; do elevador que teima em não descer enquanto cresce aquela vontade de apertar o botão 1, 2, 3 vezes. "Calma, vai dar tempo!". Na maioria das vezes, não dá. Soa familiar?

Não adianta. A ciência tenta interrompê-lo, mas ele é implacável. O tempo passa igual para todo mundo. Ok, o dinheiro te permite retardar certos efeitos ou economizar horas preciosas do seu dia - pagando para que outros façam o que você não pode/quer/consegue fazer. Mas até hoje, 2 de janeiro de 2017, ninguém inventou meio capaz de comprá-lo. O tempo não discrimina. Ele é o mesmo para você, para o vizinho, para mim, para o presidente dos Estados Unidos. A cada dia, todos nós temos as mesmas 24 horas, ou 1440 minutos ou 86400 segundos dos quais dispõe qualquer ser vivo habitante do planeta Terra. E isso é fascinante.

Os últimos dias do ano são apropriados para sentir aquela frustração de não ter conseguido fazer tudo que planejamos quando o novo ciclo de 365 jornadas (no caso de 2016, 366) ainda estava para começar. Quantos livros não terminados, quantos quilos não eliminados, quantos hábitos nocivos que você queria ter largado ainda permanecem na sua vida? Foi um longo ano, mas que pelo menos para mim parece ter passado mais rápido do que o normal - tenho a impressão de que muito mais aconteceu em muito menos tempo. Coletivamente, 2016 foi excepcionalmente ruim - corrupção, intolerância, perdas irreparáveis, crise, violência, decisões políticas inacreditáveis... só 12 meses mesmo, tem certeza? Sim, isso tudo aconteceu. A gente piscou e o ano acabou.

Particularmente, só acho que passou tão rápido porque a gente não parou. E no meio da correria esqueceu do que realmente importa: de viver leve, de buscar aquela realização pessoal que depende de você, e só de você. De ir atrás de cada item daquela lista de resoluções porque ele é importante, de dedicar a cada um o tempo que ele merece. Há tempos é assim: a gente vive correndo, no automático, sem perceber a vida passar. Quer maneira mais eficaz de fazer o tempo voar?

Em algum momento cansei de brigar com o relógio. Percebi que, por mais que tudo ao meu redor tente me convencer do contrário, não dá para viver assim. Foi necessário mudar para a cidade mais acelerada do mundo para me dar conta disso e entender que, para sobreviver, é importante viver devagar. Cheguei a Nova York há pouco mais de dois anos mas, pelo tanto que já vivi, parece que faz bem mais. Tudo porque ela é uma cidade que, como nenhum outro lugar, alimenta em nós uma vontade louca de esticar as horas, de querer fazer tudo caber num espaço limitado de tempo, de experimentar tudo que ela tem a oferecer todos os dias, toda hora, sem pausa. Difícil parar em um lugar que te bombardeia o tempo todo com informação, novidade, onde tudo é imperdível e a fomo, a sensação de estar sempre perdendo alguma coisa, bate feroz.

Minha relação com o tempo sempre foi meio louca, mas foi em NYC que isso se potencializou e eu reconheci em mim uma acelerada em tratamento. Tomei consciência disso e comecei, aos poucos, a fazer pequenas mudanças aqui e ali. Olhando os avanços que obtive com o pouco que fiz, vi que vale a pena. Vale a penar dar a cada hora, cada momento, cada dia o devido valor que eles têm. Mas requer um esforço enorme, e eu sei que ainda tenho um longo caminho a percorrer.

Começo hoje esse blog como um compromisso - agora público - com a minha vontade de viver uma vida mais devagar e de compartilhar com vocês esse caminho. Tenho em mim todos os males que a tecnologia, ainda que facilitadora e transformadora das nossas realidades, traz: não saio de casa sem relógio, sou viciada em internet e não largo meu celular. Tenho uma dificuldade imensa em me desconectar. Adicione aí à mistura, como cenário, uma cidade onde é tão difícil parar. Boom. Vamos ver no que vai dar.

Minha principal meta para 2017 é desacelerar. Vai ser interessante dividir isso aqui com vocês, e tenho certeza que a gente vai ter muito o que falar. Com calma. Tudo bem, temos todo o tempo do mundo.

Feliz ano novo!

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