OPINIÃO

Virar sereia me deu força e liberdade

Provavelmente vou bater minha cauda o máximo que puder, mas, mesmo sem a cauda, sempre serei metaforicamente uma sereia de coração.

17/08/2017 19:33 -03 | Atualizado 17/08/2017 19:33 -03

Pode ser outono ou início da primavera, não importa, tiro os sapatos e coloco os dedos dos pés na água fria do lado ou sinto o toque suave das ondas na minha pele. Encho minhas mãos com a água cristalina e jogo no rosto, sentindo instantaneamente meu coração bater mais devagar, como se estivesse sendo batizada pela própria Mãe Natureza. Absorvendo o oceano com todos os sentidos humanos; o golpe das ondas, os sons delas quebrando, o cheiro de sal e a visão do horizonte azul acalmam minha mente e leva as preocupações embora. Desde criança, sempre fui a primeira a entrar na água e a última a sair -- minha avó ri e me chamava de golfinho.

linda mermaid

Crescer com a história da Pequena Sereia, cuja versão para o cinema foi lançada no ano em que nasci, em 1989, e morar muito perto da estátua de Den Lille Havfrue baseada no conto original de Hans Christian Andersen – a magia sempre esteve por perto. Com quatro anos de idade, desenhava sereias de todas as cores e formas; até mesmo gatos e cachorros tinham caudas de sereia. Procurei tesouros perdidos no riacho e, sempre que passávamos de carro perto do mar, olhava para as ondas brilhantes, achando que vislumbraria uma cauda de sereia na superfície.

Durante anos, minha paixão por sereias se manteve vívida, tomando a forma de uma grande coleção de livros, filmes, obras de arte, figurinhas, bem como livros de histórias mitológicas. Sereias eram meu tema predileto na escola de arte. Eu era conhecida como a sereia entre meus colegas de classe e professores. Estudando na universidade para me tornar professora, usei minha paixão pelas sereias de forma acadêmica e escrevi um ensaio sobre sereias com uma abordagem linguística. Então, finalmente aconteceu; pude incorporar uma sereia fisicamente. Em 2012, comprei minha primeira cauda.

linda mermaid

Um amigo próximo é um fotógrafo incrível, e conversamos vagamente sobre fazer uma sessão de fotos de sereia no mar. Naquela época, eu era uma menina tímida, que raramente se arriscava. O ensaio pareceu esse sonho ambíguo, com um preço alto e sem data definida. Aí passei por um rompimento doloroso. Eu decidi fazer as fotos para mim mesma e para mais ninguém. Encomendei a cauda e reservei uma data. Quando vi o resultado fantástico; os lindos retratos de sereia, não pude deixar de sorrir. Me senti forte, linda e independente. A sereia me ajudou a superar o fim do relacionamento e a acreditar em mim mesma – é isso que as sereias vieram a representar para mim na vida adulta.

Quando era criança, ficava encantada com o brilho e as maravilhas. Na adolescência, tive medo que meu amor pelas sereias significasse um coração tão frio quanto o oceano, que ficaria sozinha para sempre, que quem quer que se aproximasse morreria afogado. Adulta, percebi que elas são um ótimo exemplo, especialmente para mulheres jovens, porque como uma sereia você é forte e independente, porque ninguém pode fazer qualquer coisa com você ou com seu corpo. Elas são poderosas o suficiente para afogar quem quer que passe dos limites, mas eles também podem escolher amar.

Como os vários mitos e histórias me ensinaram, nenhuma sereia é igual à outra. Elas podem ser como sirenes destrutivas, que cantam para afogar os marinheiros, ou então sereias do bem, cuidam do mar e dos viajantes marítimos. Isso faz parte do seu charme e apelo; elas não podem ser definidas e categorizadas meramente como boas ou más. Assim como os seres humanos, somos sempre um pouco de ambos, e podemos escolher o que deixar de lado. As sereias vêm em todas as formas, cores e gêneros. Para mim, ser sereia é liberdade. Quando eu deslizo minha cauda e mergulho, é como entrar num mundo diferente. Tudo fica repentinamente em silêncio ao seu redor e você está sem peso, flutuando ou nadando rapidamente.

Ser sereia também significa responsabilidade. Como minha persona de sereia, Athiraa, trabalho em festas infantis, eventos e caridade. Quando me preparo para conhecer crianças, me arrumo com muito amor; uso um sutiã feito à mão com conchas reais, escamas azuis no rosto e geralmente faço algumas técnicas de voz e respiração para ficar mais tempo debaixo d'água. Às vezes entro de cadeira de rodas, porque como a sereia vai se deslocar na terra? Quero que as crianças sintam que conheceram uma sereia da vida real, na água ou numa foto comigo. Quando você é uma criança pequena, tem de poder acreditar na magia e criar memórias maravilhosas e nostálgicas. Isso aumenta sua capacidade de ser criativo e imaginativo. Se eu puder fazer uma infância um pouco mais mágica, atingi meu objetivo.

Como professora, eu tenho os fins de semana e feriados livres para me dedicar à minha paixão. Consigo um bom equilíbrio entre meu trabalho como professora e também como sereia. Sempre fui a sereia da escola ou a sereia do trabalho, e amigos, familiares e colegas de trabalho são muito solidários! Meus amigos sempre me mandam tudo o que encontram relacionado a sereias, e meus colegas de trabalho me fizeram participar de festas infantis e apareceram com seus filhos em eventos. Ainda tenho muitos planos para minha vida de sereia, e você ainda vai ouvir falar muito de mim. Provavelmente vou bater minha cauda o máximo que puder, mas, mesmo sem a cauda, sempre serei metaforicamente uma sereia de coração. Isso permeia todos os aspectos da minha vida e me traz muita alegria.

*Este texto foi originalmente publicado no HuffPost US e traduzido do inglês.

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