OPINIÃO

O jeito como Kevin Spacey 'saiu do armário' ficará na história como a pior possível

O ator de 'Star Trek' Anthony Rapp alega que quando tinha apenas 14 anos, mais de 30 anos atrás, ele foi sexualmente assediado por Kevin Spacey.

31/10/2017 18:55 -02 | Atualizado 31/10/2017 18:55 -02
Eduardo Munoz / Reuters
"Não examinemos muito de perto os detalhes da alegada agressão, na qual Spacey teria colocado Rapp em cima de uma cama e se deitado sobre ele."

O ator de "Star Trek" Anthony Rapp alega que quando tinha apenas 14 anos, mais de 30 anos atrás, ele foi sexualmente assediado pelo ator de Hollywood Kevin Spacey.

Spacey respondeu prontamente, dizendo "se eu me comportei então como ele descreve, devo a ele um pedido muito sincero de desculpas por algo que teria sido um comportamento embriagado profundamente inapropriado". Em seguida, Spacey confirma que agora está "vivendo como homem gay".

Não examinemos muito de perto os detalhes da alegada agressão, na qual Spacey teria colocado Rapp em cima de uma cama e se deitado sobre ele. Vamos em vez disso voltar nossa atenção para o que há de muito errado na declaração de Spacey, que não se parece muito com um pedido de desculpas real.

(Tenho grande respeito e admiração por Anthony Rapp como ator. Estou mais do que horrorizado por ouvir seu relato. Honestamente não me lembro desse encontro, que teria ocorrido mais de 30 anos atrás. Mas se eu de fato me comportei como ele descreve, eu lhe devo um pedido de desculpas muito sincero por algo que teria sido um comportamento embriagado profundamente inapropriado, e lamento muito pelos sentimentos que ele descreve que carregou com ele esses anos todos.

Essa história me encorajou a encarar outras coisas em minha vida. Sei que existem histórias aí fora a meu respeito e que algumas delas são alimentadas pelo fato de eu sempre ter protegido tanto minha privacidade. Como sabem as pessoas mais próximas a mim, já tive em minha vida relacionamentos com homens e com mulheres. Amei e tive encontros românticos com homens durante toda minha vida, e opto agora por viver como homem gay. Quero lidar com isto honesta e abertamente, e isso começa comigo examinando meu próprio comportamento.

- Kevin Spacey)

Spacey alega que não se recorda do incidente, e nesse ponto temos que lhe dar o benefício da dúvida, se bem que não se recordar de ter agredido uma criança parece estranho, tratando-se de alguém cujo trabalho envolve decorar falas. No entanto, o uso da frase "se eu de fato me comportei" deixa entender que é possível que o incidente não tenha ocorrido, introduzindo a possibilidade de seu acusador estar mentindo. Não é um bom começo, Kevin – especialmente porque Rapp falou do incidente com amigos e familiares ao longo dos anos. Você conseguiu converter a história em algo a SEU respeito, reconhecendo apenas de passagem o sofrimento imposto a Anthony Rapp.

Chegamos em seguida à primeira desculpa, o "comportamento embriagado" confesso de Spacey. Não sei como é com você, mas muita gente que eu conheço se embebeda de vez em quando. Tenho que admitir que eu mesma já tomei uns drinques a mais em festas de vez em quando. E tenho que reconhecer que é verdade, sim, que quando estamos bêbados às vezes dizemos e fazemos coisas estúpidas. Mas agredir sexualmente um menor de idade não é algo que se possa passar por cima com a desculpa de ter tomado gim e tônica demais, e descrever seu próprio comportamento como "inapropriado" é fazer muito pouco-caso de algo grave. "Comportamento embriagado inapropriado", Kevin Spacey, está longe de ser uma descrição exata aqui.

Lamentavelmente, na era de Harvey Weinstein e aqueles que, inevitavelmente, vão segui-lo, o fato da alegada agressão sexual não me surpreende. Não tenho a menor dúvida de que as acusações feitas a Weinstein, e agora a Kevin Spacey, não passam da ponta do iceberg. O que é especialmente irritante é que Spacey dá a entender que o fato de ter estado "no armário" de algum modo contribuiu para seu comportamento, e que, pelo fato de ele agora estar "vivendo como homem gay", está encarando seu passado e "examinando seu próprio comportamento".

Como publisher do título lésbico DIVA e do site LGBT+ OutNews Global, posso confirmar que a sexualidade de Kevin Spacey é há anos um segredo de polichinelo. Escolher quando ou se sair do armário é uma questão individual de cada um, e não cabe à imprensa "denunciar" as pessoas como gays, a não ser que estejamos expondo a hipocrisia de figuras públicas (por exemplo, deputados que votam contra a igualdade de direitos para pessoas LGBT, sendo que eles próprios são gays). Mas, ao tratar das alegações abertamente e ao mesmo tempo vir a público sobre sua sexualidade, Spacey infundiu vida nova ao velho chavão homofóbico segundo o qual existiria alguma ligação entre a homossexualidade masculina e a pedofilia. Isso só pode alimentar as chamas da homofobia, algo que, vamos encarar a verdade, não é nada bom em um mundo com Donald Trump, a ascensão da extrema direita europeia e as cifras pavorosas de suicídio envolvendo jovens LGBT. Não basta que as pessoas jovens sejam obrigadas a sofrer com sua sexualidade a tal ponto que isso prejudica sua saúde mental –quando incluímos um vínculo entre abuso sexual infantil e homossexualidade, Kevin Spacey se torna culpado não apenas da alegada agressão, mas também de vincular uma orientação sexual absolutamente normal com uma predileção por assédio sexual infantil.

Muitas pessoas que conheço enfrentaram adversidade tremenda e muitas dificuldades para sair do armário, mas foram verdadeiras com elas mesmas e encararam as dificuldades envolvidas. O fato de Kevin Spacey ter assumido sua sexualidade apenas depois de ela ter sido exposta publicamente reforça a visão de que ser gay é algo do qual deveríamos nos envergonhar. Está claro para mim que Spacey tem muito do que se envergonhar, mas sua sexualidade não faz parte dessas coisas.

Spacey, Weinstein e todos os que ainda virão deixam os pais de candidatos a futuros artistas em uma situação difícil. Tenho filhas gêmeas, uma das quais quer ser atriz. Se minha filha ou qualquer outra menina fosse atrás de seu sonho e quisesse procurar fama e fortuna em Hollywood, ela teria que procurar trabalho em um setor onde os abusos de poder – quase sempre cometidos por homens ricos – são endêmicos e frequentemente tomam a forma de assédio sexual, abusos e estupro. Enquanto pessoas como Kevin Spacey tentarem desculpar seus erros de conduta, dizendo que de alguma maneira foram frutos de um consumo excessivo de álcool, estar no armário ou as duas coisas, Hollywood continuará a ser um lugar onde homens e mulheres jovens ou precisam se expor ao risco de sofrer abusos para darem certo, têm suas carreiras devastadas por terem se negado a transar (como foi alegado no caso de Harvey Weinstein) ou são obrigados a esquecer seus sonhos profissionais e procurar outro trabalho.

Kevin Spacey é uma figura poderosa no cinema americano e no teatro londrino. Ele teve uma oportunidade de fazer a coisa certa: pedir desculpas sinceras e aceitar as alegações de Rapp. Em vez disso, divulgou um pedido de desculpas tão pró forma que quase não parece um pedido de desculpas, e, de quebra, conseguiu equacionar abuso infantil com ser gay.

Já é tarde demais para Anthony Rapp, mas não é tarde demais para Kevin Spacey corrigir seu erro. Eu o incentivo a repensar e pedir desculpas direito.

*Este texto foi originalmente publicado no HuffPost UK e traduzido do inglês.

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