OPINIÃO

Na gangorra de direitos e violações, quem continua a sofrer é a população LGBT

Política e religião atuam conjuntamente para impedir avanços de cidadania.

19/09/2017 17:11 -03 | Atualizado 19/09/2017 17:11 -03
Pilar Olivares / Reuters
Fomos denominados por Sérgio Buarque de Holanda como uma população de homens e mulheres cordiais, mas na verdade temos um preconceito introjetado.

Uma pandemia assola o Brasil. Foi a primeira coisa que pensei quando vi que a Justiça do Distrito Federal concedeu uma liminar que permite a psicólogos o tratamento de gays e lésbicas. Segundo a escala Kinsey, da década de 50, cerca de 10% da população seria composta por homossexuais.

No Brasil, representaria dizer que, dentre 204 milhões de habitantes, pelo menos 20 milhões seriam gays ou lésbicas. Se fossemos levar a liminar a sério, seria o equivalente a uma pandemia de 20 milhões de cidadãos brasileiros que poderiam ser considerados doentes.

Nossos dados já são assustadores o suficiente. O Brasil é um dos países mais perigosos do mundo para a diversidade sexual. Um homossexual é assassinado a cada 28 horas e estamos no topo do ranking do assassinato de transexuais.

Claro que podemos citar também alguns avanços. Em 2013, houve a aprovação da união estável entre casais do mesmo sexo e, mais recentemente, a constituição do "compromisso das empresas com os direitos LGBT", que traz os 10 compromissos das empresas com as causas LGBT.

E, ainda, o Congresso que aprovou definição de família como duas pessoas. Em 2016, o IBGE nos informou que o número de casamentos gays cresceu cinco vezes mais que entre homem e mulher.

São inúmeros os avanços e também os retrocessos envolvendo aspectos de legislação, estatísticas de violência e do mercado de trabalho. Mas como entender tamanhos altos e baixos em um País que tem se mostrado praticamente bipolar em relação aos avanços dos direitos LGBTs? A resposta é complexa, mas acredito que quatro fatores reforçam esse processo aqui.

Primeiro, o Brasil é o País do preconceito velado. Fomos denominados por Sérgio Buarque de Holanda como uma população de homens e mulheres cordiais, mas na verdade temos um preconceito introjetado. Estamos dentro do armário e constantemente aguardando momentos oportunos para sair faceiramente e fazer estragos.

Segundo, o Brasil é uma pátria extremamente católica. São 123 milhões de brasileiros católicos. Bem como vivemos um contexto de crescimento exponencial da religião evangélica. Embora o papa Francisco seja um excepcional líder religioso que traz uma fala extremamente inclusiva, muitos religiosos ainda se utilizam de distorções dos textos sagrados para disseminar o ódio contra a comunidade LGBT.

Terceiro, a bancada evangélica, extremamente poderosa no Congresso, articulada e pressionada por prestar contas e mostrar algum resultado para seus eleitores, aproveita-se de um tema ainda polêmico na sociedade para fazer palanque ou palco.

Quarto, mas não menos importante, como diz a lei da física "a toda ação corresponde uma reação de igual intensidade e sentido contrário". Na sociedade, essa lei da física se expressa de forma que todo avanço nos direitos LGBT+ (ou qualquer outro grupo) é seguido de um ruído enorme entre pessoas raivosas, preconceituosas ou somente desinformadas, gerando ondas de retrocesso.

Nesta gangorra de direitos e violações, quem continua a sofrer é a população LGBT do País, considerada cidadã no exercício de deveres, mas não considerada cidadã no atendimento a seus direitos.

*Este artigo é de autoria de colaboradores ou articulistas do HuffPost Brasil e não representa ideias ou opiniões do veículo. Mundialmente, o HuffPost oferece espaço para vozes diversas da esfera pública, garantindo assim a pluralidade do debate na sociedade.

As imagens da 21ª Parada do Orgulho LGBT de São Paulo