OPINIÃO

Até quando o Brasil será um País que não valoriza a diversidade?

As empresas já adotam discursos inclusivos e diversos, mas precisam adotá-los na prática.

02/08/2017 17:39 -03 | Atualizado 02/08/2017 17:40 -03
Ueslei Marcelino / Reuters
Mulheres são minoria na Câmara dos Deputados: apenas 8,6%.

Em tempos onde parecemos estar vivendo a vanguarda da discussão e da reflexão sobre a valorização da diversidade, as notícias permanecem as mesmas: "Mulheres ganham 23% a menos que homens", "Brasil lidera o ranking de assassinatos de transsexuais", "Jovens negros representam 75% dos casos de homicídio no País", "Pessoas com deficiência são 2,6% nas 500 maiores empresas brasileiras, "a cada 90 minutos, uma mulher morre vítima do feminicídio no País".

Na boca do povo, estão as polêmicas sobre blackface, o caso Maísa versus Dudu Camargo, José Mayer versus Su Tonani, Maju, Thaís Araújo e Ludmilla sendo vítimas de racismo na internet e a Mallu Magalhães e seu preconceito reverso. Ufa, se dá até para perder o fôlego, imagina o ânimo!

Mas afinal, o que acontece realmente? Estamos avançando ou retrocedendo? Essa é a pergunta que sempre me fazem quando levanto o tema da valorização da diversidade no País. Pois bem, a resposta é que estamos avançando e retrocedendo, sempre e ao mesmo tempo.

Vejamos, a diversidade faz parte da vida e está presente em todos nós, expressas em nossas características, singularidades, semelhanças e diferenças. Mas a inclusão e a equidade são uma escolha pela qual devemos lutar diariamente.

Trata-se de uma mudança de cultura, de vieses inconscientes que têm guiado a nossa vida. Uma mudança na forma como pensamos a sociedade brasileira e como enxergamos e interagimos com mulheres, negros, LGBTs, idosos, jovens, pessoas com deficiência, de diferentes religiões, entre milhares de outros exemplos, façamos ou não parte desses grupos.

Como toda mudança, esta também demanda esforço, persistência e entendimento de que, na história da humanidade, a luta por justiça e igualdade é uma constante. Já tivemos ondas contrárias, enfáticas, mas que cedo ou tarde se enfraqueceram.

E mais ainda, a clareza de que uma mudança efetiva não pode ocorrer somente da porta para fora. Mas, fundamentalmente, da porta para dentro das empresas, do governo, da sociedade, de nossas casas, nossas famílias e de nós mesmos.

Um dos casos que tenho refletido em profundidade são as séries de posicionamentos de marcas em prol da diversidade. Gosto bastante desse crescente movimento, acredito até que essas ações podem ter um papel de educar a sociedade para a aceitação. E reforço, há algumas empresas com iniciativas fantásticas e transformadoras.

No entanto, é fundamental que uma empresa já tenho feito a lição de casa antes de comunicar "da porta para fora". Por isso, recentemente lancei o termo diversitywashing em analogia ao termo greenwashing muito utilizado na Sustentabilidade que significa "lavagem verde".

O meu diversitywahsing pode ser utilizado em referência às empresas que se posicionam de forma superestimada em relação ao que realmente realizam na gestão para a diversidade. Elas fazem que os diversos sintam conexão com o produto e serviço, sem que venham a – de fato – ter possibilidades reais de ingressar nestas mesmas empresas, ou de nelas ascender profissionalmente.

Não basta ver esse público como consumidor potencial. É fundamental, sim, vê-lo como funcionário ou funcionária potencial, gestor potencial, conselheiro potencial, estrategista potencial.

Na hora do voto, como político potencial. Uma das coisas que definitivamente não entendo, por exemplo, é por que o Brasil tem 8,6% de mulheres na Câmara enquanto, segundo dados da União Interparlamentar, Ruanda tem 63%, Senegal tem 43%, Afeganistão tem 27%, Arábia Saudita tem 19% e Índia tem 11%. E, principalmente, por que as pessoas desconhecem esses dados e sempre se mostram tão surpresas quando eu os comento.

Esses números são apenas uma pequena demonstração de que ainda há muito o que se fazer no Brasi em termos de inclusão de diversos. E saber exatamente quem somos e onde estamos, como país e como indivíduos, quando o tema é valorização da diversidade é o primeiro passo para isso.

*Este artigo é de autoria de colaboradores ou articulistas do HuffPost Brasil e não representa ideias ou opiniões do veículo. Mundialmente, o HuffPost oferece espaço para vozes diversas da esfera pública, garantindo assim a pluralidade do debate na sociedade.

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