OPINIÃO

Mães deslocadas

08/05/2015 15:50 -03 | Atualizado 26/01/2017 22:02 -02
Victoria Fadden, Alamy

2011. Parquinho do prédio onde eu moro. Três ou quatro mães ao meu lado, cada uma com um carrinho de bebê à sua frente ou uma criança pequena serelepe brincando sob seu olhar.

- Espera, eu sou a mãe desse bebê aqui na minha frente, certo? - perguntei a mim mesma. Mentalmente, é claro. Afinal, eu não estava louca. Quer dizer, talvez eu estivesse meio louca. Ou nem tanto: eu era apenas uma mãe deslocada no meu novo papel. E, à minha volta, aquelas mães me pareciam perfeitamente adaptadas à função. Quando o filho comia, elas limpavam graciosamente sua boquinha. Quando narizes escorriam, lenços apareciam. Bananas previamente picadas surgiam em tupperwares coloridos. Eu olhava aqueles movimentos perfeitos e olhares confiantes e pensava: não sou uma delas.

No entanto, meu carrinho de bebê estava ali, à minha frente. Com minha pequena pegando no sono dentro dele. Ela começou a chorar, eu a peguei no colo e pensei, com menos delicadeza do que eu gostaria: "Eu sou mãe, PORRA. Por que me sinto tão desencaixada?"

Minha Valentina tinha dois meses e eu já me preocupava com os lanches impecáveis que eu deveria mandar para a escola em que ela ainda não estudava. Eu questionava minha capacidade de manter os uniformes limpos e passados e me sentia mal por, vira e mexe, atrapalhar a cômoda dela: "Estava tudo tão dobradinho...", eu ouvia a diarista dizendo a si mesma depois que eu procurava um body ou toquinha entre aquele universo de roupinhas minúsculas que eu ainda não dominava. Sou meio bagunceira, sabe. E, pra piorar, uma bagunceira sem muita autocrítica: sempre acho que dobrei superbem uma roupa quando, na verdade, só fiz um bolinho pateticamente amassado. Não sou de fazer bem uma cama. Cozinho bem, mas nunca me arrisquei a fazer panquecas em formas de coração ou bolos confeitados como os do Pinterest. E, na minha cabeça, esses eram requisitos imprescindíveis para ser uma mãe, ou ao menos uma mãe digna dessa palavra tão carregada de sentido, "mãe". Eu queria ser uma MÃE assim, em caixa alta.

No entanto, lá estava eu, me sentindo totalmente desencaixada no parquinho. De repente, eu me sentia na escola novamente. Mais uma vez, eu estava diante da roda das meninas populares e tudo o que eu queria era compartilhar aquela desenvoltura toda e fazer parte daquele grupo.

Ter um filho mexe com a nossa identidade, assim como ter uma profissão, um relacionamento, um hobby, assim como qualquer coisa: vamos vivendo e criando uma imagem não só para os outros, mas para nós mesmos. Somos tantos, tão vastos, o tempo todo, e os rótulos, coitados, não dão conta da nossa vastidão. Mesmo assim, nós os usamos para nos organizar não só para os outros, mas para a gente. Sou adolescente (preciso bater a porta do quarto e fazer drama por qualquer coisa). Sou adulta (preciso ter o controle de tudo). Sou filha (quando estou com minha mãe, sou dependente, briguenta e esqueço tudo que aprendi). Sou jornalista (trabalho muito, ganho pouco, sei de tudo que se passa e não tenho tempo pra nada). Sou médico (sei das coisas). Sou homem (não choro e estou sempre a fim de sexo). Sou mulher (preciso ser delicada e gostar de comprar roupas).

Sabemos a quais idealizações os rótulos correspondem e às vezes, de um modo meio ridículo, somos de novo crianças na escola, querendo o conforto de nos sentirmos encaixados em tudo de bom e de ruim que aquele rótulo abriga. Queremos pertencer aos grupos. Ei, por que fiz isso, se sou adulta? Preciso gostar disso e detestar aquilo por ser brasileira?

Espere um pouco... Mais um componente da minha identidade vem vindo lá de fora, da tal sociedade, e esse é dos grandes: sou mãe?

Ai, meu Deus. Agora ferrou! Como acomodar essa novidade tão grandiosa dentro de mim? Como internalizar essa mudança? Com ver o mundo a partir de agora... Como eu vejo este fato: sou mãe? Como encaixo essa coisa enorme em todas as outras coisas que também sou? Sobretudo: como posso ser mãe se não gosto de arrumar minha cama, se nunca me lembro de levar lenços na bolsa e ainda assisto às reprises de Friends?

Alimentamos crenças mentirosas o tempo todo. Idealizamos o conteúdo que tem que estar dentro de cada embalagem. Tive isso quando entrei na faculdade de filosofia: eu, que sou extrovertida, preciso estar sempre séria? E, para ser escritora, não posso falar besteira, jamais errar uma crase e, de preferência, nascer de novo, dessa vez na forma de um velhinho de barba? Para ser esposa, tenho que ter cara de moça ajuizada. E agora, para ser mãe... preciso dobrar as roupas perfeitamente, fazer lindas dobraduras com papel machê e ter sempre à mão uma fruta picada em um tupperware?

Não. Não preciso.

À noite, em casa, tomando meu vinho, eu me lembro das obviedades que vivo esquecendo e do bom senso que às vezes me abandona. No sofá, sozinha, já não me confundo com meus rótulos, minhas tarefas, meus parentescos e funções. Sou tantas coisas, tenho tantos sentimentos, fases e vozes aqui dentro. Somos todos assim. Complexos. Múltiplos demais para caber em um estereótipo. Indivíduos podem até se aproximar das idealizações - há escritores velhinhos de barba, há filósofos reclusos, mas também escritores de 16 anos, filósofos que abrem uma escola feita de bambu em alguma ilha no pacífico (não sei de nenhum, mas deve ter). Tem de tudo.

Em algum momento da minha vida, criei para mim mesma, e acreditei, que mães dominam as tarefas domésticas, picam frutas em losangos perfeitos se necessário for e adoram organizar eventos como festas do pijama e piqueniques no parque. Eu também tinha crenças negativas: mães dormem mal, nunca têm tempo para si mesmas ou para os amigos, estão sempre cansadas, não querem fazer sexo, não têm tempo pra ler, não se interessam pelo mundo lá fora e estão sempre gritando com seus filhos porque, afinal, crianças pequenas são terríveis e mães precisam gritar. Precisam?

Opa, eu tinha um problema. Eu não era nada disso. Eu acreditava que tinha de ser assim, mas sabia que eu não era assim, e daí a sensação de deslocamento no parquinho. E do deslocamento para a idealização é um pulo: na minha cabeça, aquelas mães à minha frente não padeciam de nenhuma incerteza ou incompetência. Faziam bolos perfeitos e estavam sempre cansadas, como manda o figurino. E não refletiam sobre essas questões, de jeito nenhum: para elas, tudo era fácil e natural. Para o bem e para o mal, correspondiam ao estereótipo materno. Eu, não. Eu era errada.

Foram necessários muitos instantes solitários no sofá pra eu perceber que existem mães de todo tipo. Sempre soube disso racionalmente, mas era preciso ressignificar, dentro de mim mesma, a palavra "mãe", e isso levou tempo, foi um processo. Acho que foi só depois do aniversário de um ano da minha filha. Não me lembro bem. Mas me lembro de que, aos poucos, fui me libertando. Aos poucos, fui aceitando que as mães diferem muito entre si. Em termos de idade/profissão/criação/classe social/cidade de origem/privilégios/dificuldades/signo/ascendente... E, acima de tudo, em termos da apropriação que fazem desse novo e enorme componente de sua identidade: desse ser mãe.

Quanto mais eu conseguia assimilar a maternidade na minha vida, mais livre eu me sentia, no sentido de me permitir ser quem eu era... mesmo sendo mãe. Mesmo com essa gigante mudança na minha vida, na minha rotina, no meu universo pessoal. Não que tudo seja relativo: na maternidade, como na vida, acredito que certos comportamentos são melhores do que outros. Tratar bem seu filho é melhor do que tratar mal. Ter harmonia em casa é melhor do que viver em um ambiente de briga. Mas esses são parâmetros vagos e cordatos, que se curvam à mínima dose de bom senso. Nos pormenores, não há mães melhores ou piores: há o que somos. E, pra mim, assumir esse "o que somos", ou seja, nos permitir expressar nossa natureza e nossa individualidade (também) na maternidade em vez de olhar para as mães supostamente perfeitas à nossa volta no parquinho é uma das melhores maneiras de vivenciar a intensa e grandiosa experiência de ter e criar um filho e de, afinal de contas, ser, do nosso jeito, uma boa mãe.

Um feliz dia das mães para todas nós!

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