OPINIÃO

Você sabe nadar?

05/05/2014 17:18 -03 | Atualizado 26/01/2017 21:28 -02
Divulgação

No dia 13 de abril, fiz um freela para um jornal local depois de saber que os familiares de uma inglesa morta em setembro do ano passado estavam angustiados com a lentidão da Justiça brasileira e viriam a Manaus saber por que tanto descaso. Foi um furo, que repercutiu bastante localmente e fora do País.

Como repórter, tenho de manter o tom imparcial nas reportagens. Mas não há como não se emocionar e se chocar com a triste história de Charlie Metcalf e sua família. Imagina você sair em férias para uma cidade exótica e linda e um membro de sua família morrer de forma trágica? Pior: os virtuais responsáveis por sua morte não serem punidos e sequer processados sete meses depois do ocorrido? Charlie e uma de suas filhas, Natasha, saíram frustrados, muito frustrados de Manaus no mês passado. E tristes.

Gillian Metcalf morreu no dia 5 de setembro do ano passado depois de um choque entre duas lanchas de pequeno porte no rio Negro, quando iam para um hotel de selva. Embora o inquérito tenha apontado (depois de perícia da polícia civil e da Marinha) os dois pilotos das lanchas como culpados, até hoje nenhum foi punido pelo acidente. O processo tramita, lentamente, no Ministério Público Estadual.

Ontem, domingo, o The Sunday Times, um dos principais jornais da Inglaterra, fez longa reportagem sobre o caso chamando a atenção ao perigo que são os barcos que circulam pelo rio Negro com turistas. O jornal não foi sensacionalista. Eu mesma, nativa, tenho medo de passear de barco em Manaus se não conhecer o piloto (na verdade, só ando em lanchas de parentes ou amigos que, realmente, têm licença para pilotar).

Se é um barqueiro que você contrata para atravessar o rio, não tem como saber se o sujeito é realmente apto a estar fazendo aquele trabalho. Não tem mesmo, até porque ele (o barqueiro) pode ter uma carta falsificada. Um dos pilotos de uma das lanchas envolvidas no acidente que matou Gillian tinha a carta de motorista (de lancha) falsificada (o inquérito está na Polícia Federal, já que quem emite o documento é a Marinha).

Embora torça para que tudo dê certo durante a Copa, entendo a preocupação do jornal inglês. Eu também teria. Porque a fiscalização já é falha aos motoristas que dirigem seus carros loucamente por aí, imaginem os que pilotam barcos? Sim, é pior.

Casos como os de Gillian, de morte depois de um choque entre lanchas, são raros. Mas acredito que por sorte, de verdade, muito mais por sorte do que pelo fato de haver fiscalização ou destreza nos profissionais que vivem disso, de pilotar barcos.

Eu não tenho nenhum conselho a dar a turistas que querem passear de barco durante a Copa. Poderia dizer: "não entre num barco, é perigoso". Mas quem sou eu. Só posso dizer que eu não me arrisco. E sei nadar muito bem. Gillian também sabia.