OPINIÃO

Verão, quentura, calor e mormaço

15/02/2014 14:56 -02 | Atualizado 26/01/2017 20:51 -02
Divulgação/PMM

Eu nem vou falar da ligação que os cientistas fazem do calor com a violência. Até porque Manaus não é a cidade mais violenta do país. Mas como não conheço nenhum ranking das cidades com o trânsito mais caótico do Brasil, faço o meu próprio, curtinho, pois só morei em três cidades, e coloco Manaus na pole position. Quem souber de uma pior, me conte os detalhes. Mas tem de dirigir e morar ou ter morado na cidade, férias não vale.

Tenho carta desde os 18 anos e comecei a dirigir em Manaus. No tempo dirigindo entre São Paulo e BSB, onde o clima também é quente, mas nunca tão quente quanto o de Manaus, comprovei minha teoria (mas é minha, pode não ser a sua). Percebi que, nos dias mais fresquinhos, as pessoas ficam mais simpáticas, em qualquer cidade. Dão passagem no trânsito, lembram de usar a seta, ultrapassam pela esquerda e outras coisas pai d'égua (amazonês).

Em Manaus, tipo uns 15, 30 dias entre dezembro e março (estamos vivendo alguns desses momentos lindos), temos esses dias fresquinhos. Que é quando há uma certa humanização no trânsito. No resto do ano, com temperatura mínima de 35ºC à sombra, tenho medo, medo mesmo, de dirigir aqui. Mas é o jeito, a lesa (amazonês) escolheu voltar e ainda acha a cidade chibata (amazonês) mesmo com os defeitos.

Mas as coisas vão piorar nos próximos dias, nessa cidade onde não é piada: as estações se dividem em verão, quentura, calor e mormaço. Mas por que as coisas podem piorar? Porque uma das principais avenidas de Manaus, uma das mais macetas (amazonês), a Constantino Nery, está com uma faixa azul que anuncia mais caos no caótico trânsito da capital.

Ah, o trânsito nosso de cada dia, unido à pele com muito suor com o calor que só aumenta. Não sou eu que estou dizendo, o caqueado (amazonês) é invenção dos cientistas: a temperatura do planeta vai aumentar quatro graus centígrados nos próximos 50 anos, caso as emissões de dióxido de carbono não sofram reduções consideráveis em um período curto de tempo. E não estão reduzindo.

Pois bem. Na via dessa faixa azul fuleira (amazonês), só deverão circular os ônibus com o pomposo nome BRS (Bus Rapid System). Obviamente para inglês (e outros turistas que vierem na época da Copa) ver. Mas, até lá e depois de lá, temo pelo pior. Como se fosse possível piorar o trânsito da Constantino no início da manhã ou fim da tarde. Mas acho que com a tal via azul é possível sim ceifar ao trânsito os santos minutos que a gente teria, entre trabalho e escola, para ficar de bubuia (amazonês).

Imaginem uma avenida que liga o centro de uma capital a vários bairros e tem apenas três vias de cada lado. Dessas, a prefeitura vai separar uma via para os tais BRS e, os demais veículos (outros ônibus, carros e caminhões), vão ficar restritos a essas duas vias restantes, sob pena de serem multados em R$ 85. Imaginaram?

Faz sentido uma avenida tão importante ter apenas UMA via livre para os demais veículos circulantes? Demais incluindo os outros ônibus, vejam bem. Inclusive os motoras dos BRS que não quiserem esperar o companheiro à frente na via exclusiva. Nós, motoristas de carros de passeio e motos, vamos disputar a via central com os caminhões e, repito, os ônibus que vão querer ficar na via central quando não estiverem pagando passageiro à direita. Ou à esquerda.

Agora, vejam que assustador que achei numa busca no Google, de uma matéria da Veja de 2012: "A região metropolitana que proporcionalmente ganhou mais carros foi Manaus. O aumento da frota foi de 141,9%. A cidade ganhou 209 mil veículos (saltou de 147 mil, em 2001, para 357 mil em 2011)." Sabe quanto a frota aproximada de Manaus hoje, segundo o Detran? 700 mil carros.

É de assustar, não? 700 mil carros circulando em Manaus. De 357 mil em 2011 para 700 mil veículos circulando pelas ruas esburacadas da capital amazonense em 2014. E muitos deles com menores ao volante. Marrapá? (amazonês) É, menores. E embriagados. Uma blitz no fim de semana passado na frente de um bar da capital, o All Night, detectou que 85% dos motoristas bêbados (medição pelo bafômetro) eram menores de 18 anos, portanto, sem CNH. Não disse que as coisas podem piorar?

P.S. Tem um dicionário de Amazonês (Editora Valer) no mercado, escrito pelo Sérgio Freire. Muito divertido.