OPINIÃO

O Haiti está aqui

27/02/2014 16:40 -03 | Atualizado 26/01/2017 21:12 -02

O delírio da raça ariana foi o início do surto psicótico mais desastroso do planeta. Se naquela Alemanha a raça "pura" era uma ideia doentia, não há a maior possibilidade de tal ser humano sem miscigenação com outra etnia existir neste século 21. Apesar de toda essa mistura que só traz mais ganhos (no mínimo culturais) para todo o mundo, persiste ainda, muitas vezes sem pudores, o terrível ranço do preconceito, do não querer ser negro, ou meio negro, do não querer ser caboclo, ou meio caboclo, do não querer ser índio, ou meio índio. Ou pior do que não querer ser: tratar mal o outro só porque ele é diferente.

O preconceito disseminado cara a cara é desconcertante e vergonhoso, mas chega a ser imoral (e certamente ilegal) quando a imprensa é quem o espalha. Dia desses estava provocando risos dos alunos na aula sobre o Código de Ética dos Jornalistas. É, eles riram porque o texto do código é lindo e a realidade bem podre. Um dos incisos do artigo 10: "O jornalista não pode (vejam que engraçado: não é não deve, é não pode) concordar com a prática de perseguição ou discriminação por motivos sociais, políticos, religiosos, raciais, de sexo e de orientação sexual".

Na semana passada, um portal de notícias nacional deu um título no mínimo infeliz a uma reportagem: "MPE quer pedir ajuda da ONU sobre surto de imigração haitiana no AC". Apesar de muitos protestos (nem tantos quanto deveriam) nas redes sociais, basta você digitar o título no Google que vai ler a matéria. O título não mudou. Permanece o erro, em todos os sentidos.

Nem mesmo uma simples ida ao dicionário foi capaz de demover o editor responsável não do erro de preconceito humanitário, mas o erro de conceito: aumentar o fluxo de pessoas, imigrantes em algum lugar, não é uma doença. Talvez o editor tenha tido um surto psicótico para fazer o título, sei lá.

A imigração haitiana, que começou logo após o terremoto de 2010, começa (e continua sendo aqui a porta de entrada) pelo Amazonas e Acre. Dá livro e filme a saga que cada um desses homens e mulheres (e muitas crianças, meu Deus do céu...) enfrentam para chegar até nosso país, nosso alardeado país hospitaleiro, do homem cordial descrito pelo pai do Chico Buarque. Cordial com quem mesmo?

Aqui no Brasil eles, os haitianos, acreditam que não só vão ter uma vida melhor, como vão também ganhar dinheiro suficiente para enviar às famílias que vivem em uma realidade algo desconhecida da maioria que lê aqui, a realidade dos que vivem na tal de miséria. Quem mora em Manaus já se acostumou às filas dos sorridentes (ou muito sérios) haitianos nas casas de câmbio, mandando dinheiro para casa. Ou com suas pastinhas com os currículos debaixo do braço, esperando os ônibus nas paradas. Sinto uma ternura imensa ao vê-los, minha reação (felizmente, não estou solitária): que bom que confiaram na gente, em nós, brasileiros. No que posso ajudar?

Nossos negros irmãos de planeta chegam com a esperança de uma vida melhor, mas não contam com o grande preconceito que enfrentam. Pela cor, pela nacionalidade. Os relatos (e algumas reportagens) sobre o "golpe do emprego" é pouco frente ao que se pode ouvir, cara a cara, quando se tem tempo e disposição para conversar com eles, oferecer alguma ajuda. Dia desses ouvi o triste relato de uma moça haitiana que, para não chegar atrasada no trabalho de folguista de babá de noite, trocou o ônibus por um mototaxista. E foi estuprada por ele. Não, não fez BO, teve vergonha. Não, não saiu no jornal. Afinal de contas, para quê?

Há muita gente caridosa, amazonenses, brasileiros que vivem aqui no Amazonas ou no Acre, ajudando a Igreja Católica nesse acolhimento. Mas é muito menos do que precisam. Quem dá emprego aos haitianos tem relatos unânimes do jeitinho deles (muito diferente do chavão triste do jeitinho brasileiro): são trabalhadores, incansáveis, sérios, de pouco papo e muita ação. A seriedade normalmente se quebra e se abre num sorriso se você começa uma conversa em francês.

Tem uma diferença bem interessante do trabalhador brasileiro. Sabem cobrar seus direitos, e na paz. "Se você prometeu pagar um valor e depois vem com conversa para tentar diminuir depois do serviço feito, vai ter um bom argumentador pela frente. Estão apenas cobrando justiça, o que foi combinado", relatou o padre Valdecir Molinari, da Igreja de São Geraldo, em Manaus, porto seguro das centenas de haitianos que continuam chegando por aqui. E não vão parar de chegar: são muito corajosos para se assustarem com histórias de preconceito.

Quando era correspondente do Estadão, insistia nessas pautas, em alertar para o estado das coisas, no quase nulo apoio do Estado aos haitianos, na falta de compaixão das pessoas com nossos irmãos em apuros. Não consegui emplacar muitas matérias, não era de interesse da grande mídia. E ainda não é (quando é, rola esse tipo de aberração como esse título do "surto"). Ano passado, fiz uma matéria ao site Amazônia Real sobre uma creche mantida por voluntários que ajudam a Igreja Católica a cuidar dos pequeninos filhos de haitianos nascidos no Brasil.

Assim com os pais de famílias brasileiros, os haitianos precisam trabalhar e, com famílias longe, não tem com quem deixar seus filhos. A alternativa seria uma creche. Mas não tem creche pública nem para os filhos dos nativos, algum separatista vai comentar. Pois é. Mas aqui estou falando dos haitianos. A demanda de vaga na creche para filhos de haitianas mantida pela Igreja Católica era, no ano passado, triplicada em relação às vagas. O número continua assim: seria necessário três vezes o número de vagas para dar conta da demanda, que só cresce.

As ondas de imigração são realidade perene em todo o mundo. Há os que saem (os búlgaros, os indianos e tantos outros mais pobres) e os que recebem (a França, os Estados Unidos e tantos outros mais ricos). As mudanças nas cores de pele e a mistura de raças vêm junto. Minha esperança quase infantil é que essa mistura de raças inevitável e saudável possa dar cada vez mais espaço à igualdade no mundo, no Amazonas, no Brasil. Não há volta: o Haiti está aqui. De passagem ou não.