OPINIÃO

Não ensine o ódio a seu filho

17/08/2015 15:02 -03 | Atualizado 27/01/2017 00:31 -02
Reprodução/Facebook

Meu assunto preferido para conversar e ler desde a adolescência sempre foi política. Tanto que fui fazer jornalismo e logo depois mestrado em ciências políticas, lá longe (moro em Manaus), na USP, para saber mais do assunto que tanto me fascina. Política vai muito além do Fla x Flu simplista PT x PSDB: é toda a ação do dia a dia para você conseguir algo para o bem estar comum. Os teóricos clássicos frisam: tudo o que você faz para determinados fins (comuns, não pensando só no seu umbigo) com base ética.

O que rola por aí, contudo, é bem mais político eleito que enviesa toda essa teoria do bem comum para a "ética" do seu bolso, eu sei. E bem mais gente que enche o peito para dizer que "detesta política" e acaba, por vezes no ingênuo "sem querer", escolhendo a ignorância, sendo cúmplice por calar e lavar as mãos para tudo o que se faz de errado em nome dela: a incitação ao ódio, a corrupção velada do dia a dia, a intolerância ao diferente, ao devolver com xingamento um argumento numa discussão.

Sempre considerei a França um dos países mais democráticos do mundo e admirava muito a capacidade desse povo fazer suas manifestações (pacíficas em sua maioria) para mostrar sua insatisfação com ações políticas que estivessem afetando negativamente suas vidas. Por isso, comemorei muito e fui às ruas naquela famosa, a do "gigante acordou" de junho de 2013, quando não houve um motivo só (mas não se viu tanto ódio...). E, não, não levei minha filha e não levaria ainda, tenho medo de gente maluca de direita, esquerda e sei lá o quê que se definam nesse cenário de fim das ideologias.

Naquela passeata de 2013, enquanto meus irmãos e amigos seguravam cartazes protestando contra a Copa ou contra o PT, o meu era simples, evocando um belo reggae: "get up, stand up for your rights!". Traduzindo livre: "levante-se e vá para a rua por seus direitos!".

Para mim, com todo o conhecimento que adquiri em minhas leituras pelo tema pelo qual continuo estudando e apaixonada, o importante é isso: não calar. Votou e não está satisfeito, mesmo tendo ajudado a eleger quem está no poder? Vamos lá, levantar do sofá e ir sim às ruas protestar. Mas, mais importante ainda, é saber argumentar SEM VIOLÊNCIA, ou sem incitá-la (que aliás, é crime, para quem não sabe).

Na eleição, quando votei em Marina (era Dilma, mudei depois da morte de Campos) e depois voltando para Dilma no segundo turno, expliquei para minha filha, com argumentos simples, porque eu estava votando na Coração Valente. Os coleguinhas, na maioria com pais votando em Aécio, riam dela quando repetia minha justificativa, nas palavras de uma criança de 6 anos: "minha mãe vai votar na Dilma porque ela tem uma história de vida contra a injustiça, tem biografia de honestidade e foi uma boa ministra". Sabem o que ela ouvia? "Meu pai disse que lugar de mulher é na cozinha não na política" ou "Mamãe vota em Aécio porque gente do PT é pobre que vive de bolsa", coisinhas assim de dar pena.

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Sabem? Eu me juntaria aos protestantes de domingo, 16, para protestar sobre muita coisa. Pelo péssimo transporte público manauara que não nos permite fazer rodízio de placa para melhorar o trânsito cada vez mais cruel, pelas ruas esburacadas de Manaus, por ver tanto animal abandonado se reproduzindo nas ruas da capital e o CCZ sem vaga para castrar, pelo crescimento incrível de seres humanos dormindo nas calçadas da cidade e crianças pedindo nos faróis e, porque não, pelos vários tropeços de Dilma, como cortar vários bilhões da educação.

Iria protestar se junto aos poucos que sabiam o que foram fazer na rua não encontrasse cartazes de volta à ditadura, de golpe por impeachment sem base, aplausos a Eduardo Cunha, gente pedindo a volta de Sarney (???), mulheres de peito de fora escrito "impeachment já" ou gente dançando micareta com musiquinha fora PT.

Ri muito da dancinha ridícula, mas fiquei absurdamente chocada com um cartaz de uma senhora com cara de vovó (pobres netos, penso sempre nas crianças), desejando a morte para os presos da ditadura em 1964. Também fiquei estupefata com pais levando os filhos para a rua para xingar a presidente de "vagabunda".

O que me preocupa não é um pai ser petista (tá difícil hoje em dia) ou tucano (tá difícil há muito tempo) e fazer o filho adotar o mesmo time que ele. Normal. Mas ensinar, por seus atos especialmente (criança é esponja, certo?) que uma discussão sobre política deve acabar com um palavrão ou uma porrada na cara de alguém? Que tipo de criança ditador você quer criar, que não sabe aceitar e respeitar a opinião de outro?

Por que não ensinar a ter opinião com argumentos sólidos, a ler tudo o que for possível para te dar esses argumentos e te fazer colaborar com a mudança que tantos querem? Mudar por um golpe e torcer o nariz para a Venezuela chavista? Coerente... Tirar um presidente eleito democraticamente na porrada, no xingamento, no panelaço? Que tal esperar a Lava Jato (ou sair da zona de conforto e investigar sozinho) para uma prova que ligue a presidente à toda a roubalheira do Petrolão? Que tal, especialmente, pensar duas vezes antes de vociferar ou agredir alguém ao lado de uma criança que te imita porque te adora?

P.S: Em tempo: não sou e nunca fui filiada ou fiel a nenhum partido. O PT perdeu-se na sede ao poder. O PSDB nasceu pelo poder e o PMDB acredita-se o próprio. Por isso nunca votei e nunca votarei em partidos, mas em biografias, em histórias. Ninguém é perfeito, logo, nenhum político é. Mas tem alguns bem mais honestos em seus ideais que outros. Basta estudar antes de gritar que o país inteiro é corrupto. Eu não sou. Você é?

P.S. 2 Em breve vou lançar um livro sobre política para crianças, para pais e filhos lerem juntos, na paz.

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