OPINIÃO

Manaus e a floresta no vidro

06/02/2014 17:52 -02 | Atualizado 26/01/2017 20:51 -02
Liege Albuquerque

Tem um romance que comecei a escrever há uns dois anos em cujo cenário futurista os últimos pedaços de verde no mundo estão em jardins de inverno, como florestas no vidro. Vivo sem tempo de terminar o roteiro, e temo que essa ideia maluca dessa fã de Isaac Asimov aconteça na vida real antes de chegar ao papel. Não em São Paulo ou Nova York, onde já existem até zoos de vidro e muitos jardins de inverno. Mas em Manaus, capital do Amazonas, onde muitos desavisados que não conhecem a cidade vivem irritando os manauaras pelo mundo com perguntinhas como "tem jacarés ou preguiças no meio da rua?" ou "vocês andam de cipó?".

Não, aqui não tem jacarés pelas ruas. Os pobres coitados, com seu habitat invadido por nós, humanos, vivem perdidos nos igarapés fétidos que cortam Manaus e, vez ou outra, são apedrejados e depois resgatados pelas (poucas e) boas almas do Batalhão Ambiental da PM ou (em menor número ainda) agentes do Ibama. As preguiças, coitadas, vivem morrendo atropeladas quando tentam atravessar as avenidas desenfreadas que cortam a cidade, que cresce louca e desordenadamente para todas as zonas possíveis, devastando cada vez mais e mais os últimos resquícios de mata urbana da capital do Amazonas.

Quando saí de Manaus para fazer mestrado, em 1992, estavam quase terminando de construir o primeiro grande shopping da capital. Eu lembro bem como achei triste e desolador aquela área absurda desmatada. Deixaram uma ou outra árvore no estacionamento, ainda bem. Mas só. Durante os quase 11 anos que passei longe de Manaus, nas férias acompanhava o crescimento ilógico e surreal da cidade, na contramão da valorização dos espaços verdes pelo mundo. Como pode uma cidade no coração da selva amazônica não preservar áreas verdes? Como pode Manaus ter menos bosques e parques que megalópoles como São Paulo, Nova York ou Londres? Se a gente conta ninguém acredita, mas venha visitar e confira.

Voltei para Manaus há exatos 11 anos. E em 22 anos que acompanhei com olhos (críticos) de adulta o crescimento dessa cidade que (sim) amo, 11 de longe e outros 11 de perto, tenho assistido impotente essa chegada do "cosmopolitismo" trazido pelos shoppings de grandes redes nacionais. Templos de consumismo com o ar-condicionado bem-vindo ao calor manauara e, claro, com segurança para passear que não se encontra mais por aí (em capital nenhuma do mundo aliás, certo?).

A Manaus que vivo hoje tem todos os defeitos de uma cidade em crescimento, com quase 2 milhões de habitantes e temperatura média anual de 35 graus à sombra. Trânsito caótico (e mais selvagem que a selva de Tarzan), insegurança crescente especialmente na periferia, poluição, cães e gatos errantes pelas ruas (isso me toca profundamente) e, ainda, poucas crianças pedintes. Ainda. Soma-se a isso uma outra característica, uma bem terrível para quem morou em São Paulo: o fato de estar longe do circuito cultural de filmes de arte (digo europeus e menos blockbusters) ou teatro (adulto ou infantil), o que faz com que quase nenhuma peça (boa) se desloque até aqui. Mesmo tendo esse teatro lindo, que é o Amazonas, para se apresentarem. Sim, eu sei, a logística é tremenda, é muito caro o transporte de cenários do eixo Rio-SP-BSB à selva.

Essa Manaus muito cara também para visitar está sendo invadida por shoppings e condomínios fechados, símbolos de "cosmopolitismo". Essa invasão não está respeitando a selva, a linda floresta nativa cobiçada pelo mundo e ignorada pelos políticos locais. Na Ponta Negra, o metro quadrado mais caro da capital, os condomínios ignoram leis ou bom senso que permita evitar derrubar árvores. Aquelas, que no mínimo, a gente queria muito para dar sombra quando estaciona o carro.

Tem um condomínio na Ponta Negra, o Ilhas Gregas, que, sim, devastou para existir, mas agora os moradores brigam para não permitir que se devaste ainda mais para construir uma passarela da avenida do Turismo à estrada da Ponta Negra, com a finalidade de dar acesso a... mais um shopping e um condomínio fechado, vejam só! Será mais uma luta em vão. Pelo progresso. Pelo cosmopolitismo que Manaus busca.

Por fim, nessa invasão que elevará Manaus, nos próximos anos, à categoria de metrópole com todos os (muitos) defeitos e (poucas) virtudes (como convém a uma metrópole), construíram um shopping (por razões óbvias, meu refúgio preferido) onde tremi no primeiro dia em que o conheci. Parecia o cenário, o meu cenário. No meio do shopping, há um grande jardim de inverno, com um pedaço da mata original preservada lá dentro.

Um grande pedaço da selva, palmeiras magníficas e altas atrás do vidro, como no meu livro não terminado. Esse jardim de inverno, para mim, é assustador e alentador ao mesmo tempo. Está lá. Ainda. Porque, acreditem, há quem reclame que as árvores atraem mosquitos para dentro do shopping. Em tempo: aqui não tem muitas árvores na zona urbana, como já expliquei, portanto, a gente não anda de cipó.