OPINIÃO

A matança de periquitos em Manaus: Um problema ambiental sério

O espetáculo das revoadas no amanhecer e entardecer é quebrado por carros em alta velocidade que os atropelam na pressa diária.

06/02/2017 14:48 BRST | Atualizado 14/02/2017 14:33 BRST
Divulgação/Anselmo d'Affonseca
Periquitos aparecem mortos ao longo das calçadas de Manaus.

Todos os dias, há pelo menos três anos, 15, 20 ou muito mais periquitos aparecem mortos ao longo das calçadas em um trecho de cerca de 100 metros de uma das avenidas mais movimentadas de Manaus, a Efigênio Sales.

A matança lenta, iniciada por um atropelamento de mais de 200 deles, há dois anos, que chamou a atenção da opinião pública, tende a continuar se medidas rígidas não forem tomadas, obrigando a redução da velocidade no local e a poda vigilante e constante das árvores nas imediações.

Há três anos, uma contagem do Ibama estimou que havia 12 mil periquitos naquele local. No final do ano passado, eram cerca de 8 mil.

O espetáculo das revoadas no amanhecer e entardecer todos os dias, com seu barulhinho característico, é quebrado por carros em alta velocidade que os atropelam na pressa diária.

"Tem de ser estabelecida, urgentemente, uma diminuição obrigatória da velocidade no local, ao menos nos horários das revoadas. Invadimos uma floresta para fazer uma cidade. Se todos sabem os horários das revoadas, o que custa monitorar para salvar essas vidas nativas?", questiona Glória Peres, moradora de um dos condomínios próximos.

Segundo veterinários, os bichinhos, da espécie brotogeris versicolurus, fazem da avenida seu "corredor" diário provavelmente por causa das mangueiras e outras árvores frutíferas.

Aquele não é o hábitat natural deles, e sim áreas de várzeas, de onde saíram certamente expulsos por incontáveis novas construções que degradam as áreas verdes de Manaus por todos os lados.

De acordo com o secretário de Meio Ambiente do estado, Ademir Stroski, já há uma negociação com o órgão responsável pelo monitoramento do trânsito para buscar modos de conscientizar a população sobre os horários das revoadas dos pássaros.

"Foram instaladas placas, há dois anos, nos dois sentidos da avenida, o que infelizmente não tem adiantado muito, especialmente no caso dos caminhões grandes, que trafegam no lado esquerdo e em alta velocidade", afirmou.

O analista ambiental do Ibama Robson Cazban, que fez parte da equipe que preparou o relatório sobre a morte dos mais de 200 periquitos há dois anos (cujo resultado apontou atropelamento por um caminhão, visto por câmaras de segurança de um dos condomínios da área, e não envenenamento, como boatos apontavam), defende que redutores de velocidade (lombadas) talvez possam ajudar.

"Os periquitos não vão mudar de lugar, o corredor é o mesmo em todas as revoadas. Então, o único jeito é tentar que os carros não os atropelem, com motoristas mais cuidadosos e em velocidade baixa", sugere Cazban.

Outra medida importante, segundo Anselmo d'Affonseca, veterinário do Instituto Nacional de Pequisas da Amazônia (INPA), seria a poda constante das árvores no meio da avenida. "Elas são baixas e os galhos mais ainda, o que obriga os pássaros a fazerem voos rasantes. Podando as árvores, eles seriam obrigados a buscar lugares mais altos para se abrigar e descansar", diz.

Outro problema é o fato de moradores de um condomínio próximo ao corredor das aves usarem constantemente redes de proteção em palmeiras imperiais que decoram a entrada do condomínio. A justificativa é que as aves destroem a copa das palmeiras.

Por serem muito altas, as palmeiras eram refúgio dos pássaros, que ficam sem opção por conta das redes. Todos os anos, alertados por moradores, bombeiros fazem resgate de periquitos presos nas redes, e alguns não resistem.

O estudante de arquitetura Keyce Jhones, que também mora próximo ao local, destaca que, lamentavelmente, esse é um problema crônico do crescimento desordenado da capital amazonense.

"Estamos deixando elementos importantes da composição do espaço urbano de fora, como a dinâmica das aves em relação a ocupar essas áreas. Restringimos cada vez mais os maciços verdes que servem de dormitório, criação e alimentação para alguns tipos de aves. É hora de gastar dinheiro público sim, para promover uma grande ação para minimizar esse impacto ambiental na área", conclui.

*Publicado originalmente na página do Projeto Colabora

*Este artigo é de autoria de colaboradores do HuffPost Brasil e não representa ideias ou opiniões do veículo. Mundialmente, o Huffington Post é um espaço que tem como objetivo ampliar vozes e garantir a pluralidade do debate sobre temas importantes para a agenda pública. Se você deseja fazer parte do nosso time de blogueiros, entre em contato por meio de editor@huffpostbrasil.com.​​​​​