OPINIÃO

Falem mal, mas falem comigo

19/02/2014 17:36 -03 | Atualizado 26/01/2017 21:04 -02

Tenho acompanhado com muita atenção nos últimos meses a discussão acalorada sobre o valor dos blogueiros de moda e o espaço ocupado pela cobertura amadora, "supostamente" roubado da cobertura "séria". Como jornalista, apreciadora de bons textos, do esforço de reportagem e apaixonada por moda, confesso que deixei de seguir muitos blogs por conta da superficialidade, da mesmice de temas e da falta de cuidado e transparência na redação do conteúdo. Isso realmente me incomodou -- e me fez concordar com muito do que se fala, principalmente em relação à falta de regras das blogueiras-sensação para publicação de posts pagos sem indicação clara do caráter publicitário que alguns deles têm.

Em contrapartida, tenho a sensação de que um ponto importante ficou de lado: mimimis à parte, paramos para pensar no valor que os blogueiros emprestaram à indústria de moda? Para o bem e para o mal, avalio que essas meninas -- e alguns poucos meninos -- trouxeram efeitos significativos para consumidores e ofereceram um novo e importante termômetro para as marcas. Isso quase sempre sem o primeiro lugar na fila, abastecendo seus diários virtuais apenas com selfies e relatos deslumbrados de meros espectadores na porta dos desfiles.

Foi justamente em uma comunidade formada por blogueiros fashionistas, o IFB (Independent Fashion Business), que encontrei esta questão colocada para três pessoas que atuam em diferentes áreas deste mesmo universo. Julia Di Nardo, colaboradora da rede e autora do blog Fashion Pulse Daily, entrevistou uma colega de blogosfera e dois profissionais que atuam na gestão de presença digital de marcas. E cada um à sua maneira trouxe basicamente a mesma análise sobre quem está sendo influenciado e de que forma isso está sendo feito. Considerando que os entrevistados baseiam suas opiniões principalmente nas blogueiras americanas (que já têm muito mais anos de praia), a conclusão foi a seguinte: os blogueiros funcionam como manequins que conseguem traduzir as novidades para um mundo digamos assim, mais real, enquanto as revistas especializadas informam essas mesmas tendências quase ipsis litteris, na forma como são apresentadas em desfiles e por celebridades.

Confesso que não foram poucas as vezes em que eu mesma, que há muito coleciono livros de moda e arte e devoro o assunto, me peguei olhando fotos de desfiles sem entender como seria realmente possível ver alguém andando nas ruas com aquelas montagens exibidas nas passarelas. Cafonas ou não, as produções caseiras muitas vezes podem trazer essas respostas. Isso não significa, claro, um estímulo ao consumismo desenfreado que webcelebridades pregam ou o exibicionismo que a maior parte dessas moças tenta travestir de conteúdo.

Acredito que não há formula mágica para entender qualquer assunto que seja. É preciso estudar, ler, se informar. Porém, é bem verdade que fica muito mais fácil entender um artigo originalmente escrito em russo, se ele for traduzido para o português. E aí, se a tradução trouxer algo muito gritante ou que me cause desconfiança, cabe ao meu senso crítico absorver o que realmente faz sentido ou pesquisar mais. O que quero dizer com isso? A audiência é muito mais eclética do que se pensava. Se esses espaços "superficiais" fazem sucesso, é porque existia sim uma lacuna que não foi aproveitada de outra forma. A mensagem não é algo imposto, mas sim uma moeda de troca. Quem está lendo quer se identificar, fazer parte, ser o que está lendo e vendo. É assim na vida e foi assim na moda.